Artigo
26/12/2024

Pequenos Desvios, Grandes Quedas

Explora como pequenas falhas éticas recorrentes podem comprometer a reputação e sustentabilidade das empresas.

Imagem de capa do artigo

A queda de uma empresa raramente começa com um grande escândalo. Geralmente, começa com um desvio tão pequeno que quase ninguém percebe (normalmente do lado de fora da sua jurisdição, a qual nomeamos cadeia de valor). Aquele contrato fechado às pressas, com uma assinatura do diretor para não haver questionamentos. O fornecedor “mais barato”, que salvou o cumprimento de um orçamento. Uma meta inflada aqui, uma política desviada ali. “É só dessa vez”, o que escutamos daquele que busca convencer os demais para atender sua meta e todos seguem em frente, porque afinal, o que pode dar errado? O concorrente faz isso o tempo todo.

Mas a ética nunca quebra de uma só vez. Ela cede lentamente., no ritmo das justificativas que transformam exceções em regras e silêncio corporativo.

Se você acha que pequenas concessões não têm impacto, basta observar os desastres empresariais mais famosos. Não foi um grande ato de corrupção que derrubou gigantes, foi a cultura das “pequenas acomodações” que tornam os desvios institucionalizados. O problema nunca está no erro isolado e sim na normalização.

E é aí que as coisas começam a desmoronar. Primeiro, as concessões, depois a confiança. Por fim, a reputação, aquele ativo invisível que todo mundo só percebe o valor quando o perde.

A ironia? As empresas que mais falam de ética são, muitas vezes, as que mais testam seus limites (não falo sobre apetite ao risco, mas sim de disseminar valores e culturas que não executa na prática). Não nos grandes momentos, mas no dia a dia. A cada decisão que escapa à revisão e a cada regra flexibilizada para “agilizar o processo”.

No final das contas, não é o mercado que impõe os limites. São as escolhas feitas dentro de casa. E quem é que toma essas decisões?

Não são os investidores. Não são os clientes. São as pessoas dentro da organização. São elas que, em algum momento, justificaram um desvio dizendo: “todo mundo faz isso”. Até porque, por qual motivo vou esperar levar um “puxão de orelha” por um desvio que cometi, se no final das contas todos já sabemos qual a decisão a ser tomada? É assim que a cultura corporativa se desenvolve, repetindo exemplos que foram vagarosamente se entranhando na operação tomados pela decisão dos administradores.

Mas aqui está o que quase ninguém gosta de admitir: o mercado não perdoa. Não importa o tamanho da sua empresa, ou o seu pensamento de ser “grande demais para cair”. Quando os valores ficam em segundo plano, os resultados sempre seguem o mesmo destino (cedo ou tarde).

Pequenos desvios são como rachaduras numa ponte. Você não percebe até que a queda se torna inevitável e quando isso acontece, não é a estrutura que falhou. Foi a negligência de quem acreditou que dava para continuar em frente (porque o custo para aquela pequena correção era alto).

Acreditem, eu já vi empresas quebrar por ausência de governança e ao mesmo tempo vi empresas prosperarem em um cenário semelhante, a diferença entre elas não é a sorte, mas sim a velocidade com a qual aparecem os sintomas. Se os desvios acontecem o tempo todo, mas os sintomas ainda não, se prepare para uma queda maior ainda e em um momento inesperado.

Até onde você está disposto a ir em nome do “resultado”? Quantas pequenas concessões sua empresa já aceitou em nome do pragmatismo? E mais importante: você tem certeza de que está do lado certo da ética?

No mercado, não existe zona livre. Você escolhe entre construir algo genuíno e sólido ou viver no fio da navalha a todo tempo.

Entender esse contexto não é uma forma de perder a competitividade do negócio, como muitos acreditam, mas escapar do loop eterno de esperar algo acontecer para tomar uma decisão em prol dos valores e do propósito.

Quando falamos de ética e governança é assim. Quando acontece, não tem mais como remediar.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é a cadeia de valor?
A cadeia de valor refere-se ao conjunto completo de atividades necessárias para criar e entregar um produto ou serviço desde seu desenvolvimento inicial até o consumidor final. Cada etapa agrega valor ao produto ou serviço.
Como geralmente começa a queda de uma empresa?
A queda de uma empresa geralmente começa com pequenos desvios e concessões, que muitas vezes passam despercebidos, como contratos feitos às pressas ou políticas desviadas.
Por que pequenas concessões podem ser problemáticas para uma empresa?
Pequenas concessões podem ser problemáticas porque se tornam normalizadas, levando a uma cultura corporativa permissiva onde desvios éticos são mais frequentes e aceitos, eventualmente resultando em perdas de confiança e reputação.
O que significa dizer que 'a ética nunca quebra de uma só vez'?
Significa que a quebra da ética é um processo gradual, onde pequenas justificativas transformam exceções em regras e vão corroendo os princípios éticos da organização lentamente.
Qual é o impacto da normalização das pequenas acomodações nas empresas?
A normalização das pequenas acomodações leva a desvios institucionalizados que comprometem a confiança e a reputação da empresa, resultando em desastres empresariais a longo prazo.
Quem toma as decisões que impactam a ética dentro de uma empresa?
As decisões que impactam a ética dentro de uma empresa são tomadas pelas pessoas que fazem parte da organização e que, em algum momento, justificam desvios baseados na percepção de que 'todo mundo faz isso'.
Quais são as consequências da perda da ética em uma empresa?
As consequências incluem perda de confiança, deterioração da reputação e, eventualmente, colapso da empresa. Isso ocorre porque os valores ficam em segundo plano e os efeitos negativos, cedo ou tarde, acabam surgindo.
Qual é a metáfora usada para descrever os pequenos desvios nas empresas?
Os pequenos desvios são comparados a rachaduras numa ponte, que passam despercebidas até que a queda se torne inevitável.
Qual é a importânica da governança dentro de uma empresa?
A governança é crucial para o sucesso e a sustentabilidade de uma empresa. A falta de governança pode levar a quedas catastróficas, enquanto uma boa governança permite que a empresa prospere mesmo em cenários adversos.
Por que não se deve esperar por consequências para tomar decisões em prol dos valores e do propósito?
Porque esperar pelas consequências leva a um ciclo interminável de decisões reativas. Compreender e agir de acordo com a ética e governança proativamente ajuda a evitar problemas maiores no futuro.

Autor

Foto de perfil de Luiz Goi

Luiz Goi

Especialista em ESG e gestão | Autor de 5 livros | Mais de 40.000 alunos | 20 anos de experiência de mercado