A queda de uma empresa raramente começa com um grande escândalo. Geralmente, começa com um desvio tão pequeno que quase ninguém percebe (normalmente do lado de fora da sua jurisdição, a qual nomeamos cadeia de valor). Aquele contrato fechado às pressas, com uma assinatura do diretor para não haver questionamentos. O fornecedor “mais barato”, que salvou o cumprimento de um orçamento. Uma meta inflada aqui, uma política desviada ali. “É só dessa vez”, o que escutamos daquele que busca convencer os demais para atender sua meta e todos seguem em frente, porque afinal, o que pode dar errado? O concorrente faz isso o tempo todo.
Mas a ética nunca quebra de uma só vez. Ela cede lentamente., no ritmo das justificativas que transformam exceções em regras e silêncio corporativo.
Se você acha que pequenas concessões não têm impacto, basta observar os desastres empresariais mais famosos. Não foi um grande ato de corrupção que derrubou gigantes, foi a cultura das “pequenas acomodações” que tornam os desvios institucionalizados. O problema nunca está no erro isolado e sim na normalização.
E é aí que as coisas começam a desmoronar. Primeiro, as concessões, depois a confiança. Por fim, a reputação, aquele ativo invisível que todo mundo só percebe o valor quando o perde.
A ironia? As empresas que mais falam de ética são, muitas vezes, as que mais testam seus limites (não falo sobre apetite ao risco, mas sim de disseminar valores e culturas que não executa na prática). Não nos grandes momentos, mas no dia a dia. A cada decisão que escapa à revisão e a cada regra flexibilizada para “agilizar o processo”.
No final das contas, não é o mercado que impõe os limites. São as escolhas feitas dentro de casa. E quem é que toma essas decisões?
Não são os investidores. Não são os clientes. São as pessoas dentro da organização. São elas que, em algum momento, justificaram um desvio dizendo: “todo mundo faz isso”. Até porque, por qual motivo vou esperar levar um “puxão de orelha” por um desvio que cometi, se no final das contas todos já sabemos qual a decisão a ser tomada? É assim que a cultura corporativa se desenvolve, repetindo exemplos que foram vagarosamente se entranhando na operação tomados pela decisão dos administradores.
Mas aqui está o que quase ninguém gosta de admitir: o mercado não perdoa. Não importa o tamanho da sua empresa, ou o seu pensamento de ser “grande demais para cair”. Quando os valores ficam em segundo plano, os resultados sempre seguem o mesmo destino (cedo ou tarde).
Pequenos desvios são como rachaduras numa ponte. Você não percebe até que a queda se torna inevitável e quando isso acontece, não é a estrutura que falhou. Foi a negligência de quem acreditou que dava para continuar em frente (porque o custo para aquela pequena correção era alto).
Acreditem, eu já vi empresas quebrar por ausência de governança e ao mesmo tempo vi empresas prosperarem em um cenário semelhante, a diferença entre elas não é a sorte, mas sim a velocidade com a qual aparecem os sintomas. Se os desvios acontecem o tempo todo, mas os sintomas ainda não, se prepare para uma queda maior ainda e em um momento inesperado.
Até onde você está disposto a ir em nome do “resultado”? Quantas pequenas concessões sua empresa já aceitou em nome do pragmatismo? E mais importante: você tem certeza de que está do lado certo da ética?
No mercado, não existe zona livre. Você escolhe entre construir algo genuíno e sólido ou viver no fio da navalha a todo tempo.
Entender esse contexto não é uma forma de perder a competitividade do negócio, como muitos acreditam, mas escapar do loop eterno de esperar algo acontecer para tomar uma decisão em prol dos valores e do propósito.
Quando falamos de ética e governança é assim. Quando acontece, não tem mais como remediar.