Artigo
13/06/2023
Atualizado em 10/04/2026

Risco de Crédito: Critérios de Classificação de Ativos Problemáticos

A classificação de ativos problemáticos segundo o Banco Central é essencial para avaliar riscos, provisões e garantir a estabilidade financeira das instituições, considerando inadimplência, renegociação e deterioração do crédito.

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Estava recentemente em um comitê de riscos que participo analisando a carteira de ativos problemáticos da instituição, e achei que seria um tema legal para trazer para este post e fazer algumas reflexões a respeito dos conceitos envolvidos.

Os critérios para classificação de ativos problemáticos, estabelecidos pelo Banco Central, são fundamentais para monitorar a qualidade e a situação financeira dos ativos das instituições financeiras, que merecem uma atenção especial e medidas próprias de serem tratados para não se transformar em prejuízo.

Os ativos problemáticos, também chamados de ativos em situação especial, representam um alto risco de inadimplência, ou seja, existe uma probabilidade significativa de que os pagamentos associados a esses ativos não sejam realizados conforme acordado inicialmente. Isso pode incluir empréstimos em atraso, títulos de crédito com risco de não pagamento e outras formas de dívida.

Essa classificação no que é ou não problemático, é fundamental para o gerenciamento adequado do risco de crédito pelas instituições financeiras e traz várias vantagens e benefícios, incluindo:

  • Avaliação precisa do risco: A classificação de ativos problemáticos permite que as instituições financeiras identifiquem corretamente os ativos que apresentam maior risco de inadimplência. Isso possibilita uma avaliação mais precisa do risco de crédito, permitindo que as instituições tomem medidas adequadas para mitigar esses riscos.
  • Provisões adequadas: A classificação de ativos problemáticos é fundamental no cálculo adequado das provisões financeiras pelas instituições financeiras, destes ativos em especial. Essas provisões são recursos reservados para cobrir possíveis perdas em empréstimos e outros ativos com risco. A classificação correta dos ativos problemáticos auxilia as instituições a alocarem as provisões de forma adequada, refletindo a realidade do risco envolvido.
  • Melhor gestão de risco: A classificação de ativos problemáticos permite uma melhor gestão do risco de crédito. Ao identificar e monitorar ativos problemáticos, as instituições financeiras podem adotar estratégias de gerenciamento de risco mais eficazes, como ações de cobrança, renegociação ou reestruturação de empréstimos, além de implementar políticas de monitoramento mais rigorosas.
  • Transparência e prestação de contas: A classificação adequada de ativos problemáticos contribui para a transparência das informações financeiras e para a prestação de contas das instituições financeiras. Isso é importante para os órgãos reguladores, investidores e outros stakeholders, que buscam entender a qualidade dos ativos e a saúde financeira das instituições.
  • Estabilidade financeira: A classificação de ativos problemáticos desempenha um papel fundamental na busca pela estabilidade financeira do sistema. Identificar e lidar adequadamente com ativos problemáticos contribui para a redução do risco sistêmico e fortalece a resiliência do sistema financeiro como um todo.

É no artigo 24 da Resolução CMN nº 4.557 de 2017 que se estabelece o critérios regulatórios para a classificação de ativos problemáticos no contexto do gerenciamento de risco de crédito. Segundo esse artigo da norma, uma exposição de crédito deve ser caracterizada como ativo problemático quando ocorrer pelo menos um dos seguintes eventos:

1) Inadimplência: Verifica-se a inadimplência quando há atraso significativo ou falta de pagamento de obrigações por parte do devedor.

2) Renegociação: O devedor entra em renegociação ou reestruturação, ou outras ações que indiquem a necessidade de ajustes nas condições de pagamento originalmente acordadas.

3) Deterioração do risco de crédito: Identifica-se uma deterioração significativa na capacidade de pagamento do devedor, levando a um aumento substancial do risco de crédito, e mudança no rating/score.

É importante observar que a Resolução CMN nº 4557 não detalha critérios específicos para cada um desses eventos, deixando para as instituições financeiras a definição de políticas internas para identificação e classificação dos ativos problemáticos, mas que independente disto devem sim estar alinhadas às diretrizes gerais do Bacen e às melhores práticas de gestão de risco de crédito.

Queria então falar um pouco mais sobre exatamente estes critérios, seus desafios e erros comuns para identificar um ativo como problemático:

1) Inadimplência:

Quando um cliente não cumpre com suas obrigações de pagamento por um determinado período de tempo, o ativo relacionado a essa dívida pode ser classificado como problemático. O Bacen estabelece diretrizes específicas para definir atrasos ou falta de pagamento que caracterizam a inadimplência.

Um dos desafios aqui é identificar o momento exato em que um cliente se torna inadimplente pode ser um desafio, pois os atrasos nos pagamentos podem variar de acordo com as políticas e práticas de cada instituição financeira.

Um dos erros comuns cometidos aqui é a falta de monitoramento adequado dos pagamentos e a demora na tomada de medidas corretivas para lidar com os atrasos.

Por exemplo um cliente que possui um empréstimo bancário de longo prazo e, de repente, começa a atrasar os pagamentos regularmente, indicando dificuldades financeiras crescentes. Normalmente acima de 60 dias.

2) Capacidade de pagamento:

É realizada uma avaliação da capacidade do devedor em cumprir com suas obrigações financeiras. Se houver indícios de que o devedor não possui condições de honrar seus compromissos, o ativo pode ser considerado problemático. Essa análise leva em conta a análise de crédito, a capacidade de geração de receitas e outros fatores relevantes.

Um desafios aqui é conseguir avaliar corretamente a capacidade de pagamento de um devedor requer análise criteriosa de sua situação financeira, considerando diversos fatores, como fluxo de caixa, histórico de pagamento e nível de endividamento.

Erros podem ocorrer ao confiar excessivamente nas informações fornecidas pelo devedor, sem uma verificação adequada. Além disso, a falta de análise atualizada e revisão periódica da capacidade de pagamento pode levar a avaliações equivocadas.

Por exemplo uma empresa que apresenta redução significativa nas receitas e margens de lucro, resultando em dificuldades para cumprir com suas obrigações financeiras.

3) Valor de mercado:

Caso um ativo sofra uma desvalorização significativa, seja por questões econômicas ou financeiras, ele pode ser classificado como problemático. Variações negativas no valor de mercado podem indicar uma deterioração na qualidade do ativo e podem levar à sua classificação como problemático.

Um dos desafios aqui é determinar se uma desvalorização é temporária ou permanente pode ser um desafio, pois requer a análise de diversos fatores econômicos e financeiros.

Um erro comum é não levar em consideração as oscilações normais do mercado e classificar um ativo como problemático com base em flutuações de curto prazo. Além disso, a falha em atualizar regularmente a avaliação do valor de mercado pode levar a uma classificação inadequada.

Um exemplo são os investimentos em ações de uma empresa que sofreu uma queda significativa no valor de mercado devido a fatores setoriais ou conjunturais.

4) Garantias:

Se um ativo estiver garantido por um bem, como imóveis ou veículos, e surgirem problemas na realização dessa garantia, o ativo pode ser considerado problemático. Isso ocorre quando as garantias associadas aos ativos não são suficientes para cobrir o valor em caso de inadimplência.

Um dos desafios aqui é conseguir avaliar adequadamente a qualidade e a liquidez das garantias, pois requer conhecimento especializado do mercado de bens que servem como garantia.

Um erro comum é superestimar o valor ou a liquidez das garantias, tornando-as insuficientes para cobrir as dívidas em caso de inadimplência. Também pode ocorrer a falha em atualizar as avaliações das garantias de forma regular.

Um exemplo prático seria o caso de uma instituição financeira que concede um empréstimo garantido por um imóvel cujo valor de mercado caiu substancialmente, resultando em uma garantia insuficiente para cobrir o valor do empréstimo.

5) Contexto econômico:

O Bacen leva em consideração a situação econômica geral do país e os impactos que isso pode ter nos ativos das instituições financeiras. Se a economia estiver em declínio ou enfrentando dificuldades, os ativos das instituições financeiras podem ser mais suscetíveis a se tornarem problemáticos.

Um desafio é considerar corretamente os impactos do contexto econômico no desempenho dos ativos, pois requer uma análise abrangente das tendências macroeconômicas e do ambiente regulatório.

Um erro comum é a falta de antecipação ou subestimação dos efeitos adversos da situação econômica, o que pode levar à classificação inadequada dos ativos. Também pode ocorrer a falha em reconhecer as interconexões entre diferentes setores da economia.

Um exemplo prático seria o caso de uma instituição financeira que concede empréstimos a empresas em um setor econômico em declínio, sem considerar adequadamente o impacto negativo nas perspectivas de pagamento.

É importante ressaltar que os critérios específicos para classificar os ativos problemáticos podem variar de acordo com a visão de cada instituição, até porque o Bacen dá autonomia para adotar critérios adicionais, modificar os critérios existentes ou estabelecer novas diretrizes, caso julgue necessário para avaliar os ativos problemáticos no sistema financeiro do país.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

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Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante