Artigo
21/12/2020

Tributos sobre o lucro - Tributos correntes e diferidos

Explica a diferença entre tributos correntes e diferidos sobre o lucro conforme CPC 32 e legislação brasileira.

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Os tributos sobre o lucro se dividem em correntes e diferidos.

Tributos correntes sobre o lucro são aqueles apurados sobre o resultado tributável do período de apuração e efetivamente devidos. Pela definição do Comitê de Pronunciamentos Contábeis, no Pronunciamento Técnico CPC 32 – Tributos sobre o Lucro, “Tributo corrente é o valor do tributo devido (recuperável) sobre o lucro tributável (prejuízo fiscal) do período.”. Os tributos correntes sobre o lucro devem, na medida em que não estejam pagos, ser reconhecidos como passivos. Caso o valor já pago ultrapasse o valor devido, que seria o caso em decorrência de pagamentos feitos por meio de antecipações ou então retenções que a empresa sofreu, o registro será no ativo.

Os tributos diferidos sobre o lucro são decorrentes das diferenças temporárias, e essas diferenças podem ser tanto tributáveis (quando resultam em valores a serem tributados em exercícios futuros) como dedutíveis (quando resultam em valores a serem deduzidos do lucro tributável em exercícios futuros).

Nos termos do Pronunciamento Técnico CPC 32 – Tributos sobre o Lucro – diferença temporária é diferença entre o valor contábil de ativo ou passivo no balanço e sua base fiscal, sendo que base fiscal de ativo ou passivo é o valor atribuído àquele ativo ou passivo para fins fiscais.

Pelo seu funcionamento, o tributo diferido sobre o lucro ocorre em empresas que apuram tributos sobre o lucro com base no Lucro Real, uma vez que as demais modalidades não apuram tais tributos a partir do resultado contábil, não havendo assim diferenças temporárias entre resultado contábil e resultado fiscal.

A título de ilustração, imaginemos um veículo que tem como custo original o valor de R$ 50.000,00, que já tenha sofrido depreciação fiscal de R$ 20.000,00 em exercícios anteriores, e que seu custo remanescente (R$ 30.000,00) será dedutível no futuro por meio de depreciação ou então pela alienação. Neste caso a base fiscal a ser considerada corresponde a R$ 30.000,00.

Neste caso a depreciação contábil poderia ter sido diferente até este ponto, uma vez que deve refletir a realidade econômica da entidade, e não necessariamente regra fiscal. A diferença entre as duas depreciações seria então a base de cálculo dos tributos diferidos sobre o lucro.

A soma dos tributos correntes e dos tributos diferidos sobre o lucro resulta na despesa tributária que a empresa apura sobre seu resultado. Vamos identificar essa despesa tributária em uma demonstração de resultado publicada, no caso da empresa Guararapes Confecções S/A, exercício de 2019:

Fonte

Podemos perceber que na demonstração de resultado consolidada do exercício de 2019 há uma despesa com tributos correntes sobre o lucro no montante de R$ 258.081 mil, que é o valor apurado no período e que deve ser recolhido à Receita Federal, seja por meio de pagamento, compensação com tributos anteriormente já pagos, ou outros meios legalmente admitidos. Há também um valor de tributos diferidos sobre o lucro no montante de R$ 138.368 mil, mas este valor aumenta o resultado do exercício, ao contrário do que ocorreu com os tributos correntes. Nem sempre é assim, mas não é algo incomum. Isso significa que a empresa apurou ativo fiscal diferido no período, ou seja, acabou neste exercício tendo que pagar valores de IRPJ e CSLL que serão deduzidos (para não utilizar a palavra compensados que pode gerar outras interpretações) no futuro. A despesa tributária é a soma dos dois componentes, R$ 119.713 mil.

É possível notar que há informações adicionais sobre a apuração dos tributos na nota explicativa de número 28, na qual constam como fontes dos tributos diferidos:

  1. no ativo
    1. os prejuízos fiscais – geram direito a deduzir tributos correntes no futuro;
    2. provisões – geram tributo corrente pago a maior na medida em que despesas contábeis não são dedutíveis no mesmo período em que são registradas.
  2. No passivo
    1. Custo atribuído – gera aumento patrimonial que ainda não sofreu tributação;
    2. Diferença de taxas de depreciação – gera um valor a ser recolhido no futuro pois a taxa fiscal sendo maior do que a taxa contábil acaba por antecipar dedução fiscal.

É possível verificar, além de componentes de resultado que possuem efeitos contábeis e fiscais em exercícios distintos, que a empresa também considera os prejuízos fiscais no cálculo dos tributos diferidos sobre o lucro. O que nos leva ao próximo tópico.

Referências:
Lei nº 6.404, de 15 de Dezembro de 1976.
Lei nº 11.638, de 28 de Dezembro de 2.007.
Lei nº 11.941, de 27 de Maio de 2009.
Decreto nº 9.580, de 22 de Novembro de 2.018.
COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS. Pronunciamento Técnico CPC 32 – Tributos sobre o Lucro, de 17 de Julho de 2009.
GELBCKE, E.R.; SANTOS, A.; IUDÍCIBUS, S.; MARTINS, E. Manual de Contabilidade Societária – Aplicável a todas as sociedades – De acordo com as normas internacionais e do CPC. 3.ed. São Paulo: Atlas, 2018.
RECEITA FEDERAL DO BRASIL. Instrução Normativa RFB nº 1.700, de 14 de Março de 2017.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que são tributos correntes sobre o lucro?
Tributos correntes sobre o lucro são aqueles apurados sobre o resultado tributável do período de apuração e efetivamente devidos. Segundo o Pronunciamento Técnico CPC 32, tributo corrente é o valor do tributo devido (recuperável) sobre o lucro tributável (prejuízo fiscal) do período.
Como os tributos correntes sobre o lucro devem ser reconhecidos na contabilidade?
Os tributos correntes sobre o lucro devem ser reconhecidos como passivos na medida em que não estejam pagos. Se o valor já pago ultrapassar o valor devido, o registro será no ativo.
O que são tributos diferidos sobre o lucro?
Tributos diferidos sobre o lucro são decorrentes das diferenças temporárias, que podem ser tanto tributáveis (resultando em valores a serem tributados em exercícios futuros) como dedutíveis (resultando em valores a serem deduzidos do lucro tributável em exercícios futuros).
O que é uma diferença temporária segundo o CPC 32?
Segundo o Pronunciamento Técnico CPC 32, diferença temporária é a diferença entre o valor contábil de um ativo ou passivo no balanço e sua base fiscal. A base fiscal de um ativo ou passivo é o valor atribuído a esse ativo ou passivo para fins fiscais.
Em quais empresas ocorrem tributos diferidos sobre o lucro?
Tributos diferidos sobre o lucro ocorrem em empresas que apuram tributos sobre o lucro com base no Lucro Real, pois as demais modalidades não apuram tais tributos a partir do resultado contábil, não havendo diferenças temporárias entre resultado contábil e resultado fiscal.
Como é calculada a base fiscal de um ativo?
A base fiscal de um ativo é o valor atribuído a ele para fins fiscais. Por exemplo, um veículo com custo original de R$ 50.000,00 que sofreu depreciação fiscal de R$ 20.000,00 terá uma base fiscal de R$ 30.000,00, que será dedutível no futuro por meio de depreciação ou alienação.
Como a depreciação contábil pode diferir da depreciação fiscal?
A depreciação contábil pode diferir da depreciação fiscal porque deve refletir a realidade econômica da entidade, e não necessariamente seguir a regra fiscal. A diferença entre as duas depreciações é a base de cálculo dos tributos diferidos sobre o lucro.
O que é a despesa tributária de uma empresa?
A despesa tributária de uma empresa é a soma dos tributos correntes e dos tributos diferidos sobre o lucro.
Como os tributos correntes e diferidos sobre o lucro são apresentados na demonstração de resultado?
Na demonstração de resultado, os tributos correntes sobre o lucro são apresentados como o valor apurado no período e que deve ser recolhido à Receita Federal. Já os tributos diferidos sobre o lucro podem aumentar ou diminuir o resultado do exercício, dependendo se a empresa apurou ativo ou passivo fiscal diferido no período.
Quais são as fontes dos tributos diferidos no ativo?
No ativo, as fontes dos tributos diferidos incluem prejuízos fiscais, que geram direito a deduzir tributos correntes no futuro, e provisões, que geram tributo corrente pago a maior na medida em que despesas contábeis não são dedutíveis no mesmo período em que são registradas.
Quais são as fontes dos tributos diferidos no passivo?
No passivo, as fontes dos tributos diferidos incluem custo atribuído, que gera aumento patrimonial ainda não tributado, e diferença de taxas de depreciação, que gera um valor a ser recolhido no futuro, pois a taxa fiscal sendo maior do que a taxa contábil antecipa a dedução fiscal.
Como os prejuízos fiscais influenciam os tributos diferidos sobre o lucro?
Os prejuízos fiscais influenciam os tributos diferidos sobre o lucro ao serem considerados no cálculo dos tributos diferidos, gerando direito a deduzir tributos correntes no futuro.

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Alexandre Gonzales

Professor Insper