Começo comentando sobre o conceito de "greenwashing", que refere-se à prática de comunicar informações enganosas, obscurecer dados e desviar do desempenho real em termos de sustentabilidade, que pode ocorrer em diferentes níveis nos mercados financeiros, incluindo produtos financeiros, instituições individuais (na economia real ou financeira) e na interação entre investidores e empresas investidas.
Existem métodos de identificação do greenwashing, incluindo indicadores absolutos e relativos. Os indicadores absolutos identificam o que é "verde" e o que é intrinsecamente não sustentável. Os indicadores relativos sinalizam riscos mais elevados de greenwashing, em vez de afirmar definitivamente se ele está presente ou não. Também é possível exigir que as empresas justifiquem todas as atividades rotuladas como sustentáveis, permitindo que terceiros avaliem a aplicação dessas definições.
Bom dizer de que o greenwashing pode se manifestar de várias maneiras, incluindo comunicações enganosas, falta de informações substanciais, informações genéricas e metas que não são ambiciosas nem alinhadas com objetivos mais amplos. Pode ser intencional ou não intencional.
Os riscos associados ao greenwashing incluem riscos microprudenciais, nos quais as instituições financeiras investem em projetos ou empresas supostamente verdes que, com o tempo, se revelam não sustentáveis. Isso pode resultar em riscos financeiros que afetam a estabilidade da instituição financeira e, por sua vez, traduzem-se em riscos macrofinanceiros. Além disso, o greenwashing pode prejudicar a transformação da economia, aumentando os riscos.
No lado do comportamento, o greenwashing é uma decepção para o cliente e o consumidor de um produto financeiro não está devidamente protegido. Outros riscos incluem a perda de confiança nos mercados financeiros e a possibilidade de ações judiciais e riscos de reputação para os atores financeiros.
Como resultado, as instituições financeiras estão cada vez mais preocupadas com a dimensão de risco de reputação e litígio do greenwashing, que pode se traduzir em riscos financeiros. É importante que as empresas adotem medidas rigorosas para evitar o greenwashing e promover a transparência e a integridade em relação às suas práticas sustentáveis.
Feita esta breve introdução ao tema, queria destacar de que a WWF recentemente lançou um relatório e uma ferramenta apoiada por Inteligência Artificial para auxiliar supervisores financeiros, gestores de ativos e instituições financeiras a:
- Avaliar se os planos de transição das empresas são robustos, com metas baseadas na ciência e uma trajetória credível para atingir o líquido-zero até 2050, e
- Identificar práticas de "greenwashing", em que as empresas apresentam uma imagem falsa de compromisso com a sustentabilidade.
Podem ter acesso em:
https://www.wwf.org.uk/learn/guide-to-greenwashing
Divulgaram um framework conceitual com indicadores específicos, aonde trazem uma proposta para avaliar a integridade e consistência dos planos de transição líquida-zero, monitorar o progresso e identificar riscos de greenwashing.
Este framework se concentra em dois aspectos cruciais:
- Consistência Externa: Avalia a ambição e viabilidade dos planos de transição. Isso significa verificar se as metas são ambiciosas o suficiente e se há um caminho viável para alcançá-las.
- Consistência Interna: Avalia a credibilidade dos planos de transição em relação à estratégia de negócios líquida-zero e ao apoio à economia carbono zero.
Os indicadores propostos foram cuidadosamente selecionados após uma revisão quantitativa e qualitativa de 28 estruturas diferentes de divulgação e avaliação de planos de transição. Eles podem ser agrupados em quatro categorias principais que queria listar abaixo:
Categoria 1: Estratégia de Transição
Meta (Target):
- Título (Headline): Exige que um compromisso climático esteja disponível, sendo de alta prioridade e não classificado como "conversa fiada" por critérios externos.
- Especificidade (Specific): O compromisso não deve ser considerado insuficiente por iniciativas como a Climatebet.
- Absoluto (Absolute): Relata a meta de redução de emissões absolutas, com a maior prioridade. Intensidade (Intensity): As metas de intensidade devem estar alinhadas com as metas absolutas, com prioridade média. Ambição (Ambition): Relata a meta de alcançar zero emissões líquidas e planos para reduzir as emissões em pelo menos 50% até 2030, com diferentes graus de prioridade.
Cobertura (Coverage)
- Completa (Complete): A meta deve cobrir todas as atividades empresariais e subsidiárias.
- Escopo 1 (Scope 1): Meta de emissões absolutas para o escopo 1 definida para no mínimo 95% das emissões relatadas.
- Escopo 2 (Scope 2): Similar ao escopo 1, mas para emissões do escopo 2.
- Escopo 3 (Scope 3): Similar aos escopos 1 e 2, mas para emissões do escopo 3.
- Soma (Sum): A soma dos escopos das metas deve atender à ambição geral da meta.
- Metano (Methane): Deve haver metas separadas para CO2 e metano.
Caminho (Pathway)
- Interino (Interim): Exige métricas e metas temporais para todos os escopos com uma base anual explícita e relatórios a cada cinco anos.
- Ciência (Science): As metas interinas devem estar alinhadas com caminhos verificados por terceiros para uma transição de 1,5 graus sem exceder os limites estabelecidos.
Compensação (Offsetting)
- Limitado (Limited): O documento sugere alta prioridade para a limitação do uso de compensações e créditos de carbono, reservando-os apenas para emissões residuais inevitáveis.
- Permanente (Permanent): Se as compensações forem utilizadas de forma consistente com os indicadores anteriores, elas devem vir apenas de projetos verificados de remoção permanente de carbono.
Categoria 2: Governança
Governança (Governance):
- Estrutura (Structure): Exige a definição de uma estrutura de governança climática, sendo uma prioridade máxima e essencial para a integração do plano climático nas estratégias gerais da empresa.
- Integração (Mainstreaming): O plano climático deve ser integrado na estratégia geral, gestão de riscos e processos de decisão da empresa, recebendo alta prioridade.
- Competências (Skills) Conselho (Board): Competência em nível de conselho sobre clima deve ser assegurada.
- Necessidades (Needs): As habilidades disponíveis e as necessidades de capacidade adicional devem ser definidas.
- Treinamento (Training): Estratégia e treinamento para fechar lacunas de requisitos devem ser definidos.
- Interno (Inhouse): As habilidades internas devem ser mantidas, e a sustentabilidade não deve ser majoritariamente terceirizada.
Responsabilidade (Accountability)
- Conselho (Board): A supervisão climática pelo conselho, incluindo mandato e definição de responsabilidades e referências para a definição de metas, é de alta prioridade.
- Fiscalização (Oversight): Deve haver uma revisão trimestral das atividades pelo conselho para acompanhar o progresso em relação às metas.
- Executivo (Executive): A supervisão executiva e a estrutura de responsabilidade pelas metas devem ser definidas, com responsabilidades de gestão para a implementação de metas claras.
Incentivos (Incentives)
- Cultura (Culture): Uma cultura que apoia as metas nos recursos humanos e na liderança deve ser implementada.
- Remuneração (Remuneration): Uma porção significativa da remuneração da gestão executiva deve estar vinculada ao progresso e à realização de metas interinas do plano de transição.
- Desalinhamento (Misalignment): Qualquer desalinhamento de incentivos, especialmente em apoio a combustíveis fósseis, deve ser relatado.
Transparência (Transparency)
- Divulgação (Disclosure): O inventário anual de GEE (Gases de Efeito Estufa), estratégia, metas e atividades devem ser divulgados publicamente, integrados ou disponíveis ao lado de divulgações financeiras convencionais.
- Garantia (Assurance): O nível de garantia e verificação do plano e declarações divulgadas deve ser comunicado.
- Consistência (Consistency): O limite organizacional para a divulgação climática deve ser consistente com o limite organizacional usado na contabilidade financeira.
Categoria 3: Sustentabilidade:
Definições (Definitions)
Deve haver uma explicação clara sobre o que é considerado alinhado ao clima, o que é uma transição e o que é considerado desalinhado, sendo isto de alta prioridade.
Estratégia (Strategy)
- Gestão (Management): A estratégia de negócios, produtos e serviços deve incluir atividades, recursos e desativação para implementar metas alinhadas ao clima, classificadas como de máxima prioridade.
- Produção (Production): Estratégias para mudanças no processo produtivo que satisfaçam as metas intermediárias são de alta prioridade.
- Quantificação (Quantification): As submetas devem ser quantificadas em Indicadores-Chave de Desempenho (KPIs), também de alta prioridade.
- Sensibilidade (Sensitivity): Os cenários devem informar metas e análises de sensibilidade para testar a resiliência operacional e estratégica.
- Suposições (Assumptions): Suposições de estratégia e requisitos de viabilidade devem ser relatados, incluindo políticas, mudança tecnológica, demanda de clientes e consumidores e impactos físicos.
Carbono Intenso (High Carbon)
- Exploração (Exploration): Estratégia para interrupção imediata do apoio à exploração e fornecimento adicional de combustíveis fósseis.
- Fornecimento (Supply): Estratégias para desativação e cancelamento de suporte à infraestrutura nova ou existente de exploração e fornecimento de combustíveis fósseis.
- Demanda (Demand): Estratégia para eliminar o uso de combustíveis fósseis não mitigados e ativos emissores de carbono.
Baixo Carbono (Low Carbon)
- Renováveis (Renewables): Estratégias para aumentar a aquisição e consumo de energia renovável, bem como para aumentar os investimentos em energia renovável e suprimento.
- Soluções Climáticas (Climate Solutions): Estratégia para aumentar os investimentos em tecnologias de soluções climáticas.
Balanço (Balance Sheet)
- Despesas Operacionais (Opex): Estratégia para metas de opex que cumpram as metas intermediárias.
- Despesas de Capital (Capex): Estratégia para metas de capex que cumpram as metas intermediárias.
- Receitas (Revenues): Estratégia para definição de metas de receitas "verdes" alinhadas com o objetivo de zero emissões líquidas.
- Pesquisa e Desenvolvimento (R&D): Estratégia para alinhamento de P&D com metas de zero emissões líquidas.
Categoria 4: Acompanhamento e Resultados
Rastreamento (Tracking)
- Emissões (Emissions)Escopo Absoluto 1, 2 e 3: Relatório das emissões de GEE para todos os três escopos é considerado de máxima prioridade.
- Categorias de Escopo 3 (Scope 3 Coverage Categories): Explicação das categorias de escopo 3 e motivos para exclusões é de alta prioridade.
- Intensidade (Intensity) Escopo de Intensidade 1, 2 e 3: Relatório da intensidade de GEE para todos os três escopos é considerado de média prioridade.
Progresso (Progress)
- Metas Intermediárias (Interim Targets): Relatório do progresso anual em relação às metas de zero líquido é de máxima prioridade.
- Tendência do Escopo Absoluto 1, 2 e 3 (Trend Absolute Scope 1, 2, 3): Relatório das emissões absolutas de GEE do passado 5 anos para todos os escopos é de média prioridade.
- Tendência da Intensidade 1, 2 e 3 (Trend Intensity Scope 1, 2, 3): Declínio na intensidade das emissões de GEE nos últimos 5 anos para todos os escopos é de média prioridade.
- Direcionamentos (Drivers): Relatório de fatores que impactam as emissões de GEE, como desinvestimentos, fusões e aquisições e investimentos em tecnologia é de alta prioridade.
- Desmatamento (Deforestation): Relatório do progresso anual em relação às metas de desmatamento é de média prioridade.
Despesas de Capital (Capex):
- Alinhado (Aligned): Relatório da quantidade de capex alinhado ao clima é de alta prioridade.
- Transição (Transition) e Desalinhado (Misaligned): Relatório da quantidade de capex para transição e desalinhado ao clima é de média prioridade.
Inovação (Innovation):
Alinhado (Aligned), Transição (Transition) e Desalinhado (Misaligned): Relatório da quantidade de pesquisa e desenvolvimento (R&D) em todas as três categorias é de média prioridade.
Receitas (Revenues):
Alinhado (Aligned), Transição (Transition) e Desalinhado (Misaligned): Relatório da quantidade de receitas em todas as três categorias é de média prioridade.
Engajamento (Engagement)
- Lobby Direto (Direct Lobbying) e Lobby Indireto (Indirect Lobbying): Relatório sobre as posições políticas corporativas em relação ao clima e atividades de lobby é de alta prioridade.
- Alinhamento de Interesses (Interest Alignment): Alinhamento do plano de transição com o lobby das associações comerciais é de média prioridade.
- Engajamentos (Engagements) e Escaladas (Escalations): Relatório de atividades de engajamento corporativo/entre pares e atividades de escalada é de média prioridade.
Ao avaliar a credibilidade de empresas em relação aos seus planos de transição líquida-zero, é fundamental considerar a presença de evidências para apoiar suas alegações. Isso se aplica não apenas aos planos de transição, mas também a produtos e práticas relacionadas. Aqui estão alguns pontos a serem observados:
- Evidência de Reivindicações: Verifique se a empresa forneceu evidências sólidas para apoiar suas reivindicações. Isso pode incluir estatísticas, dados e informações que explicam como seus produtos ou práticas estão contribuindo para a preservação do planeta. Empresas que omitem dados ou são vagas em suas afirmações devem ser observadas com cautela.
- Certificações: A presença de certificações é um indicador importante de credibilidade. Certificações significam que a empresa atendeu aos requisitos de um padrão específico e possui o direito de usar o selo de aprovação correspondente. No entanto, é fundamental que você leia os requisitos do padrão por conta própria para determinar se concorda com eles. Nem todas as certificações são iguais, e a conformidade com padrões ambientais, sociais e econômicos varia.
A verificação de reivindicações é outra etapa crítica na avaliação da credibilidade das empresas e seus compromissos com a sustentabilidade. Aqui estão alguns aspectos a serem considerados:
- Verificação Externa: Descubra se as reivindicações feitas pela empresa foram verificadas por uma entidade externa e independente. Em alguns casos, certificações podem exigir auditorias externas para confirmar a conformidade com os padrões estabelecidos. Isso significa que um auditor revisou a empresa ou seus produtos em relação a um conjunto de critérios específicos antes de conceder o selo de certificação. Isso é um indicador positivo de credibilidade.
- Falta de Verificação: Se uma empresa está fazendo afirmações sem evidências sólidas e sem a revisão de terceiros independentes, isso deve ser considerado com cautela. Algumas empresas podem usar palavras da moda sem respaldo, o que pode ser um sinal de falta de compromisso genuíno com a sustentabilidade.
Quando avaliamos a credibilidade de uma empresa em relação a seus planos de transição carbono zero é fundamental considerar os três pilares da sustentabilidade: ambiental, social e econômico. Frequentemente, as empresas se concentram fortemente na redução "apenas" de impactos ambientais, mas é importante que elas também considerem seu impacto nas pessoas e na economia. Aqui estão alguns pontos a serem observados:
- Três Pilares da Sustentabilidade: Verifique se a empresa está considerando os três pilares da sustentabilidade em seus planos e práticas. Isso significa que ela não deve apenas se preocupar com a redução de impactos ambientais, mas também com o bem-estar das comunidades e a sustentabilidade econômica de suas operações.
- Impacto Social e Econômico: Procure evidências de que a empresa está tomando medidas para mitigar seu impacto social negativo e promover o desenvolvimento econômico sustentável. Isso pode incluir iniciativas relacionadas à igualdade, diversidade, condições de trabalho justas e contribuições positivas para a economia local.
Além deste framework conceitual, uma ferramenta baseada em Processamento de Linguagem Natural (NLP) foi proposta para automatizar a extração e avaliação dos planos de transição. A principal vantagem dessa ferramenta é sua simplicidade, pois os indicadores do framework são avaliados em um esquema de sim/não para permitir análises automatizadas de planos de transição e relatórios corporativos. Quando determinados indicadores não são atendidos, isso gera um sinal de alerta.
Além disto o relatório "Net Zero Transition Plans: Red Flag Indicators to Assess Incosistencies and Greenwashing" destaca a importância crítica do planejamento de transição e da divulgação de planos de transição climática corporativa. Esses são pré-requisitos fundamentais para a alocação eficaz de capital e a gestão de riscos climáticos. Isso permite investimentos direcionados e contribui para a proteção dos consumidores e a estabilidade financeira.
O relatório também enfatiza a necessidade de avaliar cuidadosamente a ambição, viabilidade e credibilidade dos planos de transição das empresas do ponto de vista da supervisão financeira e da gestão de riscos climáticos. Essa abordagem é fundamental para garantir que os recursos financeiros sejam alocados de forma eficiente e que o sistema financeiro seja resiliente à transição climática.
O framework e a ferramenta propostos pela WWF oferecem uma abordagem técnica e detalhada para avaliar a integridade e consistência dos planos de transição para carbono zero, contribuindo para a gestão eficaz de riscos climáticos e para a alocação de capital mais responsável e sustentável.