O cenário cibernético contemporâneo é caracterizado por uma evolução constante e acelerada das ameaças, exigindo das organizações uma postura proativa e estratégias de defesa robustas. Pesquisas recentes revelam um ambiente de risco complexo no Brasil, marcado pela adaptação do cibercrime às particularidades do mercado nacional.
O primeiro semestre de 2026 registrou um volume alarmante de incidentes cibernéticos. O CERT.br notificou 316.092 ocorrências. A categoria de "scans" liderou as notificações, indicando que o Brasil continua sendo um alvo primário para reconhecimento e levantamento de informações por parte de agentes de ameaça.
Um relatório da Clavis Segurança da Informação observou um aumento de aproximadamente 69% nos incidentes tratados em comparação com 2026. Phishing e comprometimento de credenciais foram as principais portas de entrada, seguidos por ransomware e infecções por malwares.
Principais Vetores de Ataque:
- Phishing e Comprometimento de Credenciais: Continuam sendo os vetores mais eficazes. O phishing é amplamente utilizado para roubo de credenciais válidas e distribuição de malwares, como trojans bancários. Fraudes como CEO Fraud e Vishing (com uso de softwares de gerenciamento remoto, RMM, como RustDesk, Hop To Desk, Supremo) são táticas comuns para obter persistência e realizar golpes financeiros.
- Ameaças Corporativas Internas e Externas: Internamente, a cooptação de insiders (colaboradores com acesso privilegiado) e a exploração de falhas de governança são preocupações crescentes. Vulnerabilidades lógicas em sistemas de negócio (ERPs e plataformas financeiras) são exploradas para desvio de pagamentos, muitas vezes utilizando contas de usuário padrão. Já as externas, fraudes de marca, como boletos falsos e sites fraudulentos, visam impactar clientes finais e a reputação das empresas.
- Ataques ao Sistema Financeiro Nacional: Um ataque milionário evidenciou a criticidade da segurança das integrações operadas por terceiros (PSTIs). Em resposta, a Resolução BCB nº 498/2025 estabeleceu requisitos mínimos de segurança para esses provedores, um avanço regulatório crucial.
- Ransomware: Mantém-se como uma ameaça persistente, com direcionamento tático a infraestruturas virtualizadas (ex: ESXi) para maximizar o impacto operacional. A evasão de defesas, utilizando técnicas como EDR Killers e a exploração de LOLBins (Living Off the Land Binaries) para camuflar atividades maliciosas, demonstra a sofisticação das campanhas atuais.
- Ameaças à Tecnologia de Operação (OT): Ambientes de OT estão cada vez mais conectados e vulneráveis. As tendências globais incluem o crescimento do ransomware industrial (com impacto indireto em OT), a atuação de hacktivistas, atores estatais mirando camadas de virtualização e hypervisors, e o uso de malware e campanhas "IT-first" alimentadas por Inteligência Artificial.
A Governança Integrada como Pilar da Cibersegurança
Diante de um panorama de ameaças tão dinâmico e multifacetado, a abordagem tradicional, fragmentada, da segurança da informação se mostra insuficiente. Em meu livro "Governança Integrada", argumento que a separação entre áreas jurídicas, técnicas e de governança não é mais sustentável, e proponho que privacidade, segurança da informação e proteção de dados devem operar como um único ecossistema, com a proteção do titular como eixo central das decisões.
Neste sentido, podemos considerar que os principais princípios da governança integrada aplicada à cibersegurança são:
Princípios da Governança Integrada Aplicados à Cibersegurança:
- Dados como Ativo Estratégico: enfatizo sempre que "o dado deixou de ser um subproduto das operações para se tornar o ativo mais estratégico das organizações". Essa perspectiva exige que a proteção dos dados seja tratada como prioridade máxima, não apenas como uma questão técnica, mas estratégica e de negócio. A perda ou comprometimento de dados não afeta apenas a operação, mas a própria sustentabilidade da organização.
- Unificação de Disciplinas: A governança integrada busca romper com a lógica de "silos isolados" entre Segurança da Informação, Jurídico e Governança de Dados. A cibersegurança não pode ser responsabilidade exclusiva da equipe de TI; ela deve permear todas as camadas da organização, desde a alta direção até o nível operacional. A colaboração e a comunicação entre essas áreas são cruciais para uma defesa eficaz.
- LGPD como Catalisador: A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) não deve ser vista como um mero checklist burocrático, mas como um "organismo vivo que exige das organizações uma postura proativa". A governança integrada permite transformar os princípios jurídicos da LGPD em práticas concretas, sustentáveis e auditáveis, garantindo a conformidade e a responsabilidade contínua. Isso é particularmente relevante no contexto de ataques que visam o roubo de dados pessoais e financeiros.
- Interdependência entre Segurança e Privacidade: Sem segurança robusta, a privacidade é uma promessa vazia; sem privacidade, a segurança é apenas um cofre vazio. Isso sublinha que a eficácia da privacidade depende diretamente da solidez dos controles de segurança. Da mesma forma, a segurança não tem propósito se não proteger os direitos fundamentais dos indivíduos. A tecnologia deve estar alinhada à ética e à legalidade.
- Governança como Sistema Nervoso Organizacional: A governança atua como o "sistema nervoso" da organização, traduzindo exigências regulatórias em fluxos operacionais, definindo responsabilidades, estabelecendo métricas e criando mecanismos de supervisão. No contexto cibernético, isso significa implementar o princípio do privilégio mínimo (Zero Trust), monitoramento ativo e abrangente, e processos de resposta a incidentes maduros e bem integrados. Projetos devem nascer com Privacy by Design e Security by Design, evitando retrabalho e fortalecendo a confiança.
As pesquisas delineiam um cenário cibernético desafiador para as organizações brasileiras, com ameaças cada vez mais sofisticadas e direcionadas. A proliferação de phishing, ransomware, ataques a infraestruturas virtualizadas e ambientes de OT, juntamente com a exploração de vulnerabilidades em integrações e sistemas internos, exige uma resposta coordenada e estratégica.
A governança integrada oferece o arcabouço conceitual necessário para construir essa resposta. Ao unificar privacidade, segurança da informação e proteção de dados, e ao posicionar a proteção do titular como central, as organizações podem desenvolver uma resiliência cibernética mais eficaz. A adoção de uma governança robusta não é apenas uma questão de conformidade, mas um imperativo estratégico para proteger ativos, reputação e a confiança de clientes e stakeholders na era digital. O equilíbrio entre inovação e proteção, eficiência e ética, velocidade e controle é o verdadeiro desafio, e a governança integrada é o mecanismo para alcançá-lo.
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