Nas últimas semanas participando de conversas com clientes empresários, gestores e analistas de mercado, ficou claro que a preocupação comum do momento é a complexidade de captação de crédito o que, para quem está no mercado há mais tempo, não é exatamente uma novidade.
O aumento das taxas de juros elevou o custo do dinheiro, mas existe um segundo movimento acontecendo de forma paralela e que muitas vezes passa despercebido nessa conta, onde bancos, fundos e investidores ficam mais e mais criteriosos na análise dos riscos envolvidos em cada operação, fugindo ao máximo do risco “default” ou desconhecido.
Hoje, não adianta muito uma empresa apresentar faturamento alto, garantias ou histórico financeiro como ferramenta para captação de crédito, porque a capacidade da empresa de lidar com riscos regulatórios, ambientais, trabalhistas, operacionais e reputacionais passou a ser mais relevante na análise.
Ao mesmo tempo em que esse cenário vai se consolidando, existe um mercado de financiamento que ainda é pouco explorado por boa parte das empresas brasileiras que é o mercado das finanças sustentáveis. E o que é engraçado é que quando esse tema surge, muitas pessoas associam imediatamente a projetos ambientais ou iniciativas ligadas à agenda climática, sendo que na prática, o conceito é muito mais amplo. E aí, provavelmente vem a pergunta: O que são finanças sustentáveis?
As finanças sustentáveis são um grupo de instrumentos financeiros criados para direcionar recursos a projetos que gerem benefícios diretos e indiretos ambientais, sociais ou de governança. Isso inclui desde investimentos em eficiência energética e gestão de resíduos até projetos de capacitação profissional, infraestrutura, inovação tecnológica, inclusão produtiva e desenvolvimento regional.
Nos últimos anos, bancos de desenvolvimento, organismos multilaterais, fundos de investimento e instituições financeiras privadas passaram a ampliar significativamente a oferta desses recursos e os motivos vão desde a existência de uma percepção crescente de que determinados investimentos possuem potencial para gerar retorno financeiro, até o aumento dos ratings dos bancos que conseguem ofertar linhas de crédito que auxiliem no desenvolvimento de temas emergentes, reduzindo assim, seu custo de captação.
Esse movimento fez surgir uma série de mecanismos específicos alinhados aos padrões criados pela ICMA (associação internacional do mercado de capitais), como green bonds, social bonds, sustainability-linked bonds e loans e diversas linhas de financiamento vinculadas a indicadores de sustentabilidade.
Embora cada instrumento possua características próprias, todos compartilham uma lógica muito parecida onde o financiador busca direcionar recursos para projetos capazes de produzir resultados mensuráveis e alinhados a temas considerados estratégicos para o desenvolvimento econômico e social, e é justamente nesse ponto que muitas empresas deixam oportunidades passar.
Frequentemente encontro empresas desenvolvendo projetos que poderiam se enquadrar em linhas de financiamento sustentável sem sequer saber disso, sejam em programas de eficiência energética, substituição de equipamentos, reaproveitamento de resíduos, investimentos em saneamento, qualificação profissional, redução de emissões ou ampliação de acesso a serviços essenciais.
Em muitos casos, o projeto já existe, mas o que falta é a estrutura necessária para apresentá-lo dentro dos critérios exigidos por financiadores, o que costuma ser uma das maiores barreiras.
O acesso às finanças sustentáveis depende prioritariamente da capacidade de demonstrar de forma concisa e periódica resultados, metas, monitoramento, governança e transparência do uso do crédito disponibilizado.
Isso ajuda a explicar por que empresas com projetos semelhantes podem ter experiências completamente diferentes ao buscar recursos, pois enquanto algumas conseguem acessar linhas mais competitivas e atrair investidores especializados, outras permanecem limitadas aos instrumentos tradicionais de crédito e a diferença normalmente não está na intenção do projeto, mas na qualidade da sua estruturação.
Para empresas que possuem planos de expansão, modernização ou crescimento nos próximos anos, vale a pena olhar esse mercado com mais atenção, já que existe uma quantidade relevante de recursos sendo direcionada para iniciativas alinhadas a temas prioritários da agenda global, especialmente aqueles relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável prioritários no país de aplicação.
Nem toda empresa conseguirá acessar esses mecanismos imediatamente, mas muitas deixariam de enxergá-los como algo distante se compreendessem que boa parte dos requisitos exigidos não está relacionada ao tamanho da organização, e sim à capacidade de planejar, medir e demonstrar os resultados que seus projetos são capazes de gerar.
Com o crédito mais caro e mais seletivo, essa pode se tornar a saída mais relevante para que organizações consigam de fato direcionar seus esforços para que sua transição ocorra de forma sustentável e eficiente, obtendo recursos mais baratos em momentos críticos para o mercado, conseguindo assim, apresentar a tão sonhada conta em que ESG gera valor ao negócio.