Queria falar hoje sobre o tema da gestão de ativos e passivos (ALM) em bancos, até para reforçar como o ALM e a gestão de riscos de liquidez são disciplinas fundamentais para a chamada "resiliência" bancária.
Hoje em dia (pós pandemia) com o crescimento dos bancos digitais e fintechs todos só falam da inovação, mas infelizmente muitos esquecem da gestão eficaz do balanço patrimonial e a cultura de risco, e queria mostrar de que tudo isto precisa conviver juntos daqui para frente.
Os bancos têm adotado diversos modelos de negócios, variando de serviços digitais a métodos tradicionais sem presença digital, mas independentemente do modelo, a viabilidade desses bancos depende da qualidade do serviço ao cliente e da gestão eficaz do balanço patrimonial, e não necessariamente apenas da inovação. Vemos bancos quebrando ultimamente mais por uma gestão ineficiente de capital ou de liquidez, e não à falta de inovação tecnológica.
Veja por exemplo os recentes problemas de três instituições bancárias nos EUA no primeiro trimestre de 2023, incluindo o Silicon Valley Bank (SVB), por falha na gestão de ALM, mostrando ao mercado as consequências de uma gestão de risco inadequada.
O SVB acumulou um portfólio significativo de títulos de dívida de longo prazo, que se desvalorizou com o aumento das taxas de juros pelo Federal Reserve, o que reforça a importância da gestão do risco de taxa de juros no livro bancário (IRRBB), um tópico importante para ALM,
Além deste ponto, outro que foi crucial para os problemas, foi sua estrutura de financiamento do SVB, que exibia uma alta concentração de depósitos não segurados de grandes corporações e instituições financeiras não bancárias, representando uma gestão de risco de liquidez falha. O que mostrou claramente a necessidade de bancos com estruturas de financiamento concentradas adotarem métricas de liquidez mais rigorosas, como um "Liquid Cash Ratio" (LCR) de curto prazo para mitigar o risco de liquidez em uma era marcada por riscos associados às redes sociais, que o boato cresce rapidamente, e o efeito da corrida bancária é devastador, e precisa ser levado em conta daqui para frente em qualquer cenário de stress de liquidez e capital, enfatizando a importância de manter reservas líquidas acessíveis para responder a saídas de curto prazo sob cenários de estresse.
Esse episódio demonstra a importância crítica de cobrir e capitalizar adequadamente os riscos não realizados, algo que o SVB negligenciou, deixando claro sua vulnerabilidade a choques externos. Tido isso evidenciou também uma falha crítica na gestão do risco de liquidez, uma vez que tais depósitos não são considerados financiamento estável, deixando o banco excepcionalmente exposto a corridas bancárias.
Além disso o "risco de mídia social" é um novo fator de risco de liquidez, dado a rapidez com que as informações negativas podem se espalhar nas redes sociais e minar a confiança dos depositantes é uma dinâmica moderna com a qual os bancos devem agora se preocupar ativamente.
Por isto mesmo devemos cada vez mais dar importância para uma cultura de risco sólida dentro dos bancos, exemplificada por exemplo em outro caso como do Credit Suisse, um banco com um arcabouço abrangente de gestão de riscos, mas que enfrentou crises repetidas devido a uma cultura de risco deficiente, mostrando que todos devem promover uma cultura de risco eficaz, incluindo comunicação aberta, responsabilidade, e liderança que priorize a gestão de riscos.
A quebra de um banco de importância sistêmica global, não foi causada por apenas uma deficiência em sua estrutura de gerenciamento de risco no papel, mas por uma falha em aderir e incorporar esses frameworks na cultura organizacional do banco. Apesar de possuir um aparato detalhado de gestão de riscos, com ampla supervisão regulatória e linhas de defesa claramente definidas, o banco continuou a enfrentar problemas significativos, resultando em multas e sanções por transgressões legais em várias países.
A questão essencial levantada é sobre o que constitui uma cultura de risco eficaz e como os bancos podem garantir que a gestão de riscos seja mais do que apenas uma formalidade. A falha em integrar a gestão de riscos na prática do dia a dia das operações, e nas tomadas de decisão em todos os níveis da empresa, pode levar a uma desconexão entre a teoria e a prática, resultando em vulnerabilidades significativas, mesmo em instituições com longa história e estruturas de gerenciamento de riscos aparentemente robustas.
Essa desconexão entre política e prática mostra a importância de desenvolver e manter uma cultura de risco onde os princípios de gestão de riscos são incorporados na estratégia e prática bancária de maneira viva e respirável, refletindo-se nas ações cotidianas de todos os funcionários da empresa. A gestão eficaz de riscos, portanto, requer uma abordagem "holística" que vá além das regulamentações e procedimentos formais para incluir a promoção de uma verdadeira cultura de risco, onde o compromisso com a gestão de riscos é uma responsabilidade compartilhada e profundamente enraizada em todos os aspectos da governança e operação bancária.
Esta discussão ressalta a necessidade de os bancos avaliarem e ajustarem continuamente sua abordagem à gestão de riscos, não apenas em termos de políticas e procedimentos formais, mas também no cultivo de uma cultura organizacional que priorize a gestão de riscos como uma parte intrínseca de sua identidade. Através desta visão, a falha do Credit Suisse serve como um lembrete valioso de que a verdadeira resiliência bancária e a gestão de riscos eficaz residem tanto na cultura e valores da organização quanto na sua estrutura formal de gerenciamento de riscos.
A confiança é a espinha dorsal para qualquer banco, e que a manutenção de uma gestão de balanço patrimonial eficaz e de uma cultura de risco positiva são essenciais para a sobrevivência e crescimento dos bancos. As práticas de gestão de riscos sejam incorporadas não apenas em políticas e procedimentos, mas também na cultura e nas práticas diárias dos bancos, assegurando assim a sua resiliência em face de desafios futuros.
Diante dessas reflexões acima segue algumas dicas para os bancos considerarem visando reforçar a sua cultura de risco:
Promover Pessoas com Comprometimento Comprovado:
Apenas indivíduos com um histórico observável e confirmado por pares de comprometimento com a implementação de uma cultura de risco sólida devem ser promovidos a posições de liderança nos bancos.
Ação e Realização das Políticas de Gestão de Riscos:
Incluir a simplicidade, concisão e clareza na linguagem dos documentos de política e mapas de processo, liderança ativa dos executivos na construção de uma cultura de equipe, e a necessidade de conhecimento técnico genuíno e competência por parte da liderança executiva e dos membros do conselho e comitês de auditoria e riscos.
Incorporação da Gestão de Riscos na Prática Diária:
Através de uma cultura de risco efetiva, que inclui comunicação aberta e encorajada, consideração apropriada do gerenciamento de riscos em todos os níveis da organização, e a promoção de um ambiente de responsabilização e desafio eficaz.
Integração das Linhas de Defesa
Fortalecer o papel e a influência da segunda e terceira linhas de defesa dentro dos negócios e agir com base em suas recomendações, assegurando que essas funções sejam internas à empresa para uma compreensão mais profunda da cultura de risco do banco.
Parece óbvio, mas infelizmente na prática não é...
Fundamental ainda ter uma avaliação regular da adequação da cultura de risco no banco, destacando a importância da “segurança psicológica”, onde todos os funcionários se sentem capazes de falar livremente e desafiar construtivamente sem medo de impactos negativos em suas carreiras, o que reforça a ideia de que a gestão de riscos não é apenas responsabilidade dos departamentos de riscos e compliance, ou da segunda linha de defesa, mas sim uma responsabilidade compartilhada por todos dentro da empresa.
A adoção dessas sugestões acima não se destina a impor mais regulamentações, mas a promover uma mudança cultural em que a gestão de riscos seja vista como uma responsabilidade coletiva, enraizada nos princípios fundamentais do banco. Em última análise, o princípio de boa prática bancária ressalta a necessidade de princípios sólidos, não apenas em teoria, mas como a essência da cultura organizacional.
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