Artigo
08/11/2022
Atualizado em 10/04/2026

Risco de Liquidez X LCR: Situação dos Bancos S1: Impactos na Captação e no Crédito

Análise sobre risco de liquidez, LCR e seus efeitos na captação e no crédito dos bancos S1.

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Hoje queria falar sobre o Risco de Liquidez, que nem sempre é um risco primário, muitas vezes derivado de outro tipo de risco, mas que no final das contas é quem vai acabar de quebrar uma instituição financeira, e por isto mesmo demanda uma grande atenção e cuidado ao geri-lo.

Durante minha carreira me deparei com algumas situações de stress, em que um outro risco levou a uma crise de liquidez, que felizmente foram contornadas, principalmente por uma reação rápida e coordenada, do que chamamos de plano de contingência de liquidez, que salvou em situações como a crise de imagem com a prisão do Esteves, quando o BTG reagiu rápido, tomando medidas duras mas necessárias, e salvou o banco. Ou quando os fundos do antigo finado carioca Banco Boavista quebraram na desvalorização cambial, mas o banco aguentou os boatos e correria aos saques, mesmo com uma posição contrária da tesouraria do banco que tinha ganho uma fortuna em uma ponta cambial oposta (mas isto é papo para outro post quando eu conto esta história).

Vendo a importância do tema, somado à crise de alguns bancos grandes internacionais ao longo do tempo, o Comitê de Basiléia implementou uma série de medidas e limitadores também para o risco de liquidez.

Entre eles estava a criação do chamado LCR, que significa: Liquidity Cover Ratio, ou seja, uma métrica para medir a liquidez de curto prazo, que no final das contas significava a capacidade de caixa líquido de uma instituição conseguir honrar todas as exigências e saídas de caixa previstas para os próximos 30 dias, usando uma série de limitações em cenário de stress. Ou seja, um "colchão de liquidez" para enfrentar uma situação atípica que possa vir a acontecer por algum outro motivo ou tipo de risco.

Isto significou que as instituições precisaram passar a ter no seu balanço caixa e ativos de alta liquidez (basicamente títulos públicos), exigidos pelas novas regras de Basiléia, em grande quantidade para ter este "colchão". O que tem um certo custo, principalmente de oportunidade, e limita também bastante a capacidade de alavancar seu balanço, em especial com operações de crédito, que é aonde exatamente quero chegar neste post, mas um pouco mais para frente.

Antes queria explicar para quem ainda não conhece, e nem todos são especialistas em gestão de riscos, que o índice do LCR é medido pela relação de caixa e ativos de alta liquidez (HQLA) dividido pela previsão estressada de saída de caixa líquida pelos próximos 30 dias. Sendo assim, a norma exige que seja maior do que um (ou 100% dependendo da forma que mostre) esta relação, o que significa que a instituição precisa ter mais caixa e ativos de liquidez do que saída líquida de caixa, ou seja, liquidez para sobreviver os próximos 30 dias de crise, que é tempo suficiente para tomar as demais medidas para a venda de ativos não tão líquidos e reestabelecer seu caixa para aguentar os saques.

O Banco Central tem em mãos uma série de ferramentas de política monetária, muitas delas que impactam diretamente a liquidez e alavancagem dos balanços dos bancos, entre elas poderia destacar os compulsórios sobre depósitos, e os usa para controlar o mercado.

Porém já faz algum tempo que o LCR, em especial do segmento de bancos S1, que reúne os 6 maiores bancos brasileiros (por ordem alfabética: Banco do Brasil, Bradesco, BTG, Caixa Econômica, Itaú e Santander), que representam mais de 80/90% do crédito do mercado (e isto vai ter importância no ponto que quero chegar mais abaixo), e que apesar do caixa ser enorme (de bilhões para todos eles), estão em uma situação mais apertada em termos da exigência de LCR, fazendo com que o assunto tenha ganhado bastante atenção, e uma série de cuidados e medidas para fazer com que eles não caiam muito.

Bom dizer que todos calculam em suas áreas de riscos este índice diariamente, apesar de ser reportado em um relatório detalhado mensalmente, e apresentado em notas explicativas ao mercado trimestralmente em seus ITRs que são públicos (que é a fonte usada para traçar este gráfico acima), este índice flutua bastante durante o mês, em especial em datas de maior saída de caixa, como datas de pagamento de impostos por exemplo, podendo variar em muitos deles mais de 20/30% (normalmente para baixo), fazendo que durante o mês alguns destes bancos que têm LCR na faixa de 1,5 (150%) possam chegar perto do limite regulatório.

O ponto principal que queria chegar neste post é o efeito que o LCR está tendo sobre o mercado destes bancos (e até dos demais), em especial no custo de captação e na seletividade do crédito, que explico melhor abaixo.

O que tem se visto é uma estratégia destes bancos em relação ao estímulo à captação para reforçar este caixa e suportar estas flutuações, e manter este índice do LCR acima dos 150% e ter este colchão e um pouco mais de conforto para suportar esta volatilidade. Isto tem significado na prática um maior custo de captação, e o cuidado de entrar no mercado nas janelas de oportunidade, em mexer muito nas taxas oferecidas (assim todos estão monitorando os outros para tentar não entrarem juntos). Mas está claro que a situação do LCR já perto do limite gerencial tem efeito sobre as taxas de mercado.

Do outro lado da equação, o que vemos é também um maior controle seletivo do crédito, que representa a saída de caixa nesta equação, o que é ruim e limitador no momento que aumenta a demanda pelo crédito, com o retorno do crescimento da economia.

Como podem ver pelo gráfico, outro efeito tem acontecido, e impactado estes bancos, em especial os 2 maiores bancos públicos (Banco do Brasil e Caixa), que nos últimos anos têm crescido com mais velocidade que os demais suas carteiras de crédito, inclusive em segmentos importantes como: agrícola, imobiliário, microcrédito, e os novos créditos especiais de ajuda na pandemia, etc., fazendo com que seus LCRs tenham caído de acima de 3 para a faixa de 2, e provavelmente hoje já que temos defasagem grande de tempo deste gráfico trimestral, para abaixo de 1 com certeza pela tendência. O que vai fazer com que o LCR passe a ser também para eles um limitador de concessão de crédito. Assim como estes bancos sempre com caixa bem alto e facilidade de captação barata nas redes (abaixo de CDI), tenham que entrar também no mercado de captação com os demais 5 privados, o que até pelo tamanho deles vai mexer ainda mais com as taxas pagas por CDBs e LCI/LCA da vida.

Esta situação preocupa a todos, e mexe com o mercado de captação e de crédito, e tem se discutido nas esferas da Febraban e Bacen, que apesar de ouvir estas preocupações, e provavelmente com as suas próprias, ainda não têm aceitado a necessidade de que será necessário fazer algo com a forma de cálculo do LCR, e este é o meu ponto central deste post, que segue localmente o padrão de Basiléia, mas que poderia na minha opinião ser um pouco mais flexível com o que aceita como ativos de alta liquidez, em especial os títulos privados (Debêntures, etc), dado o crescimento deste mercado, o que aumentaria a demanda por eles inclusive, estimulando indiretamente este segmento importante além também de pensar nas linhas de crédito de liquidez (inclusive com ele próprio).

O que esta situação pode levar no ano que vem, em especial com um crescimento da economia com a retomada pós-pandemia, é a limitação forte do crescimento do crédito, que vai passar a ser mais seletivo, em especial nos bancos públicos, que digamos que comeram a margem de LCR que tinham, e começaram a chegar aos mesmos níveis e problemas e limitações dos privados. Ou seja, o mercado como um todo vai estar limitado, e se o novo governo desejar estimular o aumento do crédito, vai ter que antes resolver esta situação do LCR sendo um limitador regulatório importante para que isto aconteça. Não vamos esquecer de que isto é uma norma regulatória do Bacen, que é independente e tem uma agenda própria de mitigar o risco sistêmico, e a liquidez e solidez das instituições com certeza estão no radar e nas suas prioridades, e resta saber se até por isto mesmo, vão flexibilizar e ajustar as regras de cálculo do LCR. Eu pessoalmente tenho dúvidas se vai acontecer, mas que a pressão para tal vai aumentar isto vai...

Sempre se pode mexer em outras ferramentas como depósitos compulsórios no Bacen, ou os depósitos no FGC, que de certa forma todos também fazem parte deste colchão de liquidez, e que podem ser usados em momentos de crise. E diria se calcular de que todos estes somados mais o colchão interno que o LCR monta, na minha opinião o sistema nacional está muito confortável para enfrentar qualquer crise de liquidez destes bancos. Isto deveria ser levado em conta também nesta análise da situação e de risco sistêmico.

Com certeza vamos ouvir muito sobre este tema em 2023, por isto fiquem ligados e atentos ao risco de liquidez e ao LCR.

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Atualizado

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Autor

LL

Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante