Comentei aqui em outro post esta semana sobre o Relatório de Estabilidade Financeira (REF) do Banco Central do Brasil, e queria hoje entrar em mais detalhes na parte que ele fala sobre o Risco de Crédito, que é um tema que sempre me preocupa bastante e olho muito nas reuniões dos Comitês de Riscos e Crédito que eu participo, por isto estes dados macros que trazem neste relatório são importantes até para ter uma referência de como anda o mercado como um todo. Assim como foi interessante ver nos números e gráfico uma série de pontos que sentimos no dia a dia da concessão e acompanhamento do crédito.
Para começar vale destacar que, segundo o estudo semestral do Bacen, o financiamento à economia real brasileira apresentou uma desaceleração contínua, influenciada por um ambiente econômico desafiador. No segmento de Pessoas Físicas (PFs), essa desaceleração foi mais acentuada nas operações de maior risco, como cartão de crédito e crédito não consignado. Já nas Pessoas Jurídicas (PJs), a carteira bancária cresceu a taxas decrescentes em todos os segmentos, sendo mais notável no crédito a grandes empresas. O bom foi ver que o segmento de mercado de capitais se manteve como uma fonte relevante de financiamento, embora com um ritmo de recuperação mais lento. Além disso, as captações externas apresentaram um ligeiro aumento.
Não foi surpresa constatar que as Instituições Financeiras (IFs) demonstraram um apetite ao risco reduzido, refletindo maior conservadorismo nos critérios de concessão de crédito. A expectativa é de que a materialização de risco permaneça elevada no médio prazo, especialmente para as PJs de menor porte, mas com sinais de redução nos próximos meses no segmento de PFs.
Destaques:
- Desaceleração do Financiamento: Redução no ritmo de crescimento do crédito, mais acentuada em operações de alto risco para PFs.
- Crédito às PJs: Crescimento decrescente da carteira bancária, especialmente para grandes empresas.
- Mercado de Capitais: Fonte relevante de financiamento, apesar de um ritmo de recuperação mais lento.
- Captações Externas: Ligeiro aumento após período de estabilidade.
- Apetite ao Risco das IFs: Redução geral, exigindo ainda cautela.
1) Crédito Amplo e Sua Tendência de Longo Prazo:
O crédito amplo reflete a política monetária vigente e a conjuntura econômica, resultando em um hiato de crédito/PIB que se espera ampliar nos próximos trimestres. O mercado de capitais, embora em expansão, experimentou uma desaceleração, em parte devido ao caso Americanas. As perspectivas apontam para um aumento desse hiato, impulsionado principalmente pelo mercado de capitais.
Destaques:
- Hiato de Crédito/PIB: Espera-se ampliação nos próximos trimestres.
- Impacto do Caso Americanas: Desaceleração no mercado de capitais.
- Política Monetária: Contribuição para a desaceleração do crédito.
2) Crédito às Pessoas Jurídicas:
As grandes empresas mostraram uma ligeira melhora na capacidade de pagamento, contrastando com a situação mais crítica das micro, pequenas e médias empresas (MPMEs). O mercado de capitais retomou progressivamente sua relevância como fonte de financiamento, especialmente para grandes empresas. No entanto, o custo do crédito via mercado de capitais evidenciou uma tendência de normalização após um aumento significativo no caso Americanas. O crédito bancário para PJs, especialmente para grandes empresas, continuou a desacelerar, enquanto as MPMEs enfrentam um aumento na materialização de riscos.
Destaques:
- Grandes Empresas: Leve melhora na capacidade de pagamento.
- MPMEs: Continuação de desafios financeiros e aumento de riscos.
- Mercado de Capitais para Grandes Empresas: Fonte importante de financiamento, com sinais de recuperação.
- Custo do Crédito no Mercado de Capitais: Tendência de normalização após o caso Americanas.
3) Crédito às Pessoas Físicas:
Observou-se uma ligeira piora na capacidade de pagamento das PFs, com um comprometimento de renda das famílias em alta. O crédito bancário às famílias desacelerou, particularmente nas modalidades de maior risco. Esse fenômeno é acompanhado por um aumento do conservadorismo nos critérios de concessão de crédito pelas IFs. A tendência é que a materialização de riscos no crédito às famílias comece a recuar nos próximos meses.
Destaques:
- Capacidade de Pagamento das PFs: Ligeira piora e aumento no comprometimento de renda.
- Desaceleração do Crédito Bancário: Especialmente em modalidades de maior risco.
- Maior Conservadorismo das IFs: Reflexo na concessão de crédito.
- Expectativa de Redução de Riscos: Tendência de diminuição nos próximos meses.
4) Crédito Bancário Doméstico por Segmento:
As entidades supervisionadas mantiveram um baixo apetite ao risco, refletido na desaceleração do crescimento da carteira de crédito em todos os segmentos. A concentração do mercado de crédito bancário doméstico apresentou uma tendência de queda, com os bancos públicos, entidades digitais e cooperativas aumentando sua participação. A materialização de risco nos diferentes segmentos mostra um padrão variado, dependendo do perfil das carteiras e do apetite ao risco das entidades.
Destaques:
- Baixo Apetite ao Risco: Desaceleração do crescimento da carteira de crédito em todos os segmentos.
- Mudança na Concentração do Mercado: Aumento da participação de bancos públicos, entidades digitais e cooperativas.
- Variação na Materialização de Risco: Diferenças entre os segmentos, dependendo do perfil de crédito e apetite ao risco das entidades.
A análise do risco de crédito no Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central do Brasil revela uma postura mais cautelosa das IFs diante de um ambiente econômico desafiador, com desaceleração no financiamento e expectativas de melhora em alguns segmentos, especialmente para as PFs, enquanto as MPMEs continuam enfrentando desafios consideráveis. Vemos um cenário de desaceleração no financiamento à economia real, com um apetite ao risco reduzido por parte das IFs. Enquanto as grandes empresas começam a mostrar sinais de recuperação, as MPMEs continuam enfrentando desafios significativos. Nas PFs, a capacidade de pagamento sofreu uma leve deterioração, mas a expectativa é de melhora nos próximos meses. Em todos os segmentos, as IFs têm demonstrado prudência e cautela, refletindo as incertezas do ambiente econômico atual.
Vejam o relatório completo com mais detalhes e muitos gráficos ilustrativos com dados comprovando cada um destes itens em: https://www.bcb.gov.br/content/publicacoes/ref/202310/RELESTAB202310-refPub.pdf
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