Recentemente estive em um excelente evento do ACI Institute organizado pelo Silvio Ito e a Fernanda Allegretti da KPMG Brasil em que foi apresentado o resultado de uma pesquisa que fizeram com 100 empresas de controle familiar de 15 estados diferentes pelo Brasil sobre a sua governança, e uma das perguntas era exatamente se elas tinham algum processo estruturado de gerenciamento de riscos corporativos?
Queria compartilhar o resultado, e trocar ideias sobre ele com vocês neste post.
A pesquisa mostrou que destas empresas apenas 59% delas tinham algum processo estruturado de gestão de riscos, e um número alto de 41% ainda não tinham, apesar do porte de muitas não serem assim tão pequenas, ainda mais comparado com outro dado de que 80% das empresas de capital aberto já têm isto estruturado, mostrando que ainda há muito espaço para estas empresas avançarem e melhorarem sua governança de gestão de riscos.
Em relação à auditoria, 74% delas disseram que tinham uma área de auditoria interna e 88% delas tinham auditoria externa independente, mostrando que as terceiras e quartas linhas de defesa têm mais prioridade e importância atualmente do que a segunda de gestão de riscos e controles internos.
Veja a pesquisa completa no link:
Queria agora aproveitar estes números acima para passar alguns conceitos e experiências que acho importantes sobre o tema, inclusive para aquelas empresas que ainda não têm sua área de riscos.
Para começar, importante já dizer que a gestão de riscos corporativos é fundamental para garantir o sucesso e a sustentabilidade de uma empresa familiar no Brasil, sendo fundamental estabelecer um processo formal de gestão de riscos, que envolve identificar, avaliar, mitigar e monitorar os riscos que a empresa enfrenta. Além disso, é necessário ter uma estrutura de governança clara e definida para garantir que as decisões de gestão de riscos sejam tomadas de forma objetiva e imparcial. Para isso, é importante envolver profissionais especializados na gestão de riscos, que possam trazer uma perspectiva externa e agregar com sua experiência.
Outra questão importante na gestão de riscos em empresas familiares é a comunicação efetiva entre os membros da família e os gestores da empresa. É fundamental que todos estejam cientes dos riscos que a empresa enfrenta e das medidas que estão sendo tomadas para mitigá-los. A transparência na comunicação pode ajudar a evitar conflitos e desentendimentos.
Sendo também necessário revisar periodicamente os processos e políticas de gestão de riscos para garantir que estejam alinhados com as mudanças na empresa e no ambiente de negócios.
Obviamente que riscos corporativos em uma empresa familiar podem variar dependendo do setor em que a empresa atua, do tamanho da empresa e de outros fatores, mas existem alguns riscos comuns que particularmente as empresas familiares geralmente enfrentam, que queria listar abaixo, muitos deles ligados digamos ao tema de RH e de Governança como:
1) Falta de sucessão adequada:
A falta de um plano de sucessão adequado pode ser um risco significativo para uma empresa familiar. Se não houver uma transição bem planejada de liderança, a empresa pode enfrentar instabilidade e falta de continuidade.
2) Conflitos familiares:
Conflitos familiares podem afetar negativamente a tomada de decisões e a cultura da empresa. Isso pode levar a disputas internas, perda de confiança dos funcionários e danos à imagem da empresa.
3) Dependência excessiva de membros da família:
Em algumas empresas familiares, membros da família podem ocupar cargos de liderança ou desempenhar funções críticas na empresa. Isso pode criar uma dependência excessiva de membros da família e dificultar a contratação de profissionais qualificados.
4) Falta de governança corporativa:
A falta de uma estrutura de governança corporativa clara pode levar a decisões inadequadas e falta de responsabilidade. Isso pode afetar negativamente a gestão de riscos e a sustentabilidade da empresa.
5) Falta de planejamento estratégico:
A falta de um planejamento estratégico adequado pode levar a uma falta de foco e direção na empresa. Isso pode dificultar a tomada de decisões de longo prazo e a gestão de riscos.
5) Riscos financeiros:
Riscos financeiros podem afetar negativamente a saúde financeira da empresa e colocar em risco sua capacidade de continuar operando. Isso pode incluir falta de fluxo de caixa, endividamento excessivo e falta de investimentos.
6) Conformidade regulatória:
Empresas familiares também podem enfrentar riscos relacionados à conformidade regulatória. Isso inclui riscos legais, fiscais e de conformidade com normas e regulamentações setoriais.
É importante que as empresas familiares estejam cientes desses desafios e trabalhem para superá-los para implementar uma gestão de riscos corporativos eficaz e garantir a sustentabilidade do negócio a longo prazo, por isso queria listar alguns destes principais desafios que certamente vão encontrar no dia a dia como:
1) Cultura empresarial:
Em empresas familiares, a cultura empresarial pode ser influenciada por fatores como tradição, valores familiares e relações pessoais. Implementar uma gestão de riscos pode exigir mudanças culturais significativas, o que pode ser difícil de alcançar.
2) Resistência à mudança:
Algumas pessoas na empresa podem resistir à implementação de uma gestão de riscos corporativos porque isso pode exigir mudanças em processos, políticas e formas de trabalho.
3) Dificuldade em identificar riscos:
Identificar todos os riscos que a empresa enfrenta pode ser um desafio, especialmente quando há muitas partes interessadas envolvidas, incluindo membros da família, funcionários e outros stakeholders.
4) Tomada de decisão influenciada por fatores pessoais:
Em empresas familiares, as decisões muitas vezes são influenciadas por fatores pessoais, como emoções e relacionamentos familiares. Isso pode dificultar a tomada de decisões objetivas em relação aos riscos corporativos.
5) Falta de especialização:
A gestão de riscos corporativos pode exigir conhecimentos especializados em áreas como finanças, jurídico, segurança e tecnologia. Nem todas as empresas familiares possuem essas habilidades internamente, o que pode dificultar a implementação de uma gestão de riscos eficaz.
6) Custos, recursos e priorização:
Implementar uma gestão de riscos corporativos pode ser caro e exigir recursos significativos. Pequenas empresas familiares podem ter dificuldade em alocar os recursos necessários para essa tarefa.
Queria então dar abaixo algumas dicas de quem ainda não tem sua área de riscos de como implementar na prática a sua gestão de riscos corporativos, que sabemos bem que pode ser uma tarefa complexa, mas aqui estão algumas dicas práticas para você começar:
1) Defina os objetivos e escopo da área de riscos corporativos:
É importante definir claramente o que se espera da área de riscos corporativos e quais são suas responsabilidades. Isso ajudará a alinhar a estratégia da área de riscos com os objetivos gerais da empresa e a garantir que os riscos mais relevantes sejam gerenciados.
2) Identifique os riscos:
O primeiro passo é identificar quais riscos a empresa está enfrentando. Isso pode envolver uma análise detalhada das operações da empresa e a identificação de riscos em áreas como finanças, compliance, segurança e recursos humanos.
3) Crie uma cultura de gestão de riscos:
Uma cultura de gestão de riscos é fundamental para garantir que a empresa esteja consciente dos riscos e saiba como lidar com eles. Isso pode envolver treinamento de funcionários, a criação de políticas de gestão de riscos e a comunicação clara dos objetivos da empresa em relação à gestão de riscos.
4) Defina responsabilidades:
É importante definir claramente quem é responsável pela gestão de riscos na empresa. Isso pode incluir a criação de um comitê de gestão de riscos ou a designação de um gerente de riscos responsável por supervisionar as atividades de gestão de riscos da empresa.
5) Implemente um sistema de monitoramento:
Um sistema de monitoramento pode ajudar a empresa a detectar e gerenciar riscos de forma mais eficaz. Isso pode envolver o uso de software de gestão de riscos, a realização de auditorias regulares ou a criação de indicadores de desempenho que ajudem a empresa a avaliar a eficácia da gestão de riscos.
6) Desenvolva um plano de ação:
Um plano de ação pode ajudar a empresa a lidar com riscos quando eles ocorrem. Isso pode envolver a criação de políticas de contingência, a definição de processos de comunicação de crises e a implementação de medidas preventivas para evitar a ocorrência de riscos.
7) Monitore e revise regularmente:
Vivo repetindo isto, mas a gestão de riscos é um processo contínuo e deve ser monitorada e revisada regularmente para garantir que esteja em linha com os objetivos da empresa e para identificar novos riscos à medida que surgem.
8) Invista em treinamento e capacitação:
Para que a área de riscos corporativos seja eficaz, é importante investir em treinamento e capacitação dos funcionários envolvidos. Isso garantirá que eles tenham as habilidades e conhecimentos necessários para gerenciar os riscos de forma profissional.
Infelizmente não existe uma exigência regulatória específica que obrigue as empresas familiares a terem uma área de riscos ou de auditoria. No entanto, existem leis e normas que estabelecem a necessidade de as empresas terem controles internos eficazes e uma gestão de riscos adequada para garantir a transparência e a sustentabilidade do negócio.
Por exemplo, a Lei nº 6.404/76 estabelece que as empresas de capital aberto devem ter um Conselho de Administração e uma Auditoria Independente, além de outras obrigações de transparência e governança. As empresas familiares que decidem abrir capital e se tornar listadas na bolsa de valores, portanto, devem cumprir essas exigências regulatórias.
Queria aproveitar para listar abaixo alguns exemplos práticos de grandes empresas familiares no Brasil que tiveram problemas de gestão de riscos e de governança, começando pela Odebrecht, que é uma das maiores empresas familiares do Brasil, e que todos bem sabem foi envolvida em um dos maiores escândalos de corrupção, que acabou afetando muito toda a empresa, a ponto de precisarem de um processo de recuperação judicial. A falta de transparência e controles internos adequados foi uma das causas dos problemas da empresa.
Nesta mesma onda a Camargo Corrêa, que é outra enorme empresa familiar brasileira que teve também os mesmos problemas de governança e corrupção, sendo envolvida diretamente em investigações da Operação Lava Jato e teve que fazer um acordo de leniência com as autoridades brasileiras.
Não podemos esquecer também do grupo J&F, controlado pela família Batista, foi envolvido em escândalos de corrupção e teve que pagar multas milionárias às autoridades brasileiras. A falta de governança e de controles internos adequados foram algumas das causas dos problemas da empresa.
Tem ainda o grupo EBX, controlado pelo Eike Batista, que teve sérios problemas financeiros e de governança que levaram a um processo de recuperação judicial. A falta de diversificação de negócios e a falta de controles financeiros adequados foram algumas das causas dos problemas da empresa.
Mais um exemplo foi a Sadia, outra uma empresa familiar brasileira que enfrentou problemas financeiros em 2008, devido a investimentos mal-sucedidos em derivativos cambiais. A falta de controles financeiros adequados e a falta de diversificação de negócios foram algumas das causas dos problemas da empresa.
Mas sempre importante ressaltar que esses problemas não são exclusivos de empresas familiares e podem afetar qualquer tipo de empresa, mas a implementação de uma estratégia de gestão de riscos adequada e profissional pode ajudar a evitar esses problemas e garantir a sustentabilidade do negócio a longo prazo, e 41% ainda não fazem gestão de riscos e 26% não têm auditoria interna.
Versão disponibilizada pela Okai.