Artigo
08/02/2024
Atualizado em 19/04/2026

Gestão de Ativos e Passivos (ALM): Fundamentos e Práticas de Gerenciamento de Riscos

ALM equilibra ativos e passivos em instituições financeiras, gerenciando riscos de liquidez, taxa de juros e capital, usando métricas, modelagem, hedge e testes de estresse para otimizar rentabilidade e solvência.

Imagem de capa do artigo

Queria falar sobre um tema que eu pessoalmente adoro, mas que por outro lado não acho que seja dado a devida atenção e valorização e priorização, como deveria. Nunca consegui atingir o nível de sofisticação e maturidade por onde passei na área de riscos. Estou falando da Gestão de Ativos e Passivos (que em inglês é conhecido como Asset and Liability Management, ou seja: ALM) é um processo muito importante dentro das instituições financeiras, visando equilibrar e coordenar estrategicamente a gestão de ativos e passivos, assim como otimizar a rentabilidade e a solvência, e atendendo as exigências regulatórias.

Este processo normalmente envolve uma série de áreas da empresa, mas cada um com papéis e responsabilidades definidas, como contabilidade, finanças, gestão de riscos, controles internos e por que não também auditoria. Sendo que a sinergia e alinhamento entre estas áreas entre estes participantes é fundamental para uma gestão eficaz do ALM.

Os principais riscos que se foca no ALM estão: o risco de liquidez, além obviamente do risco de taxa de juro no livro bancário (Banking Book), e também os impactos no capital (PR).

  • Risco de Liquidez: Refere-se à incapacidade de uma instituição financeira em cumprir suas obrigações financeiras quando vencem, sem incorrer em perdas significativas. A gestão eficaz deste risco envolve a identificação de fontes potenciais de estresse de liquidez, a medição através de indicadores e limites de liquidez e a implementação de estratégias para mitigar tais riscos.
  • Risco de Taxa de Juro no Livro Bancário (IRRBB): Este risco tem como origem as mudanças nas taxas de juro que afetam o valor econômico do patrimônio líquido e a margem financeira da instituição. O gerenciamento deste risco envolve a identificação de desequilíbrios entre ativos e passivos sensíveis a juros, a medição do impacto potencial de variações nas taxas de juros e a implementação de estratégias de hedge para mitigar exposições indesejadas.
  • Impactos no Capital: Variações nas taxas de juro e problemas de liquidez podem afetar diretamente o capital da instituição, exigindo uma gestão cuidadosa para manter os níveis de capital adequados, em conformidade com os requisitos regulatórios.

No coração do ALM está a modelagem de riscos, que serve para simular diversos cenários e suas potenciais repercussões nos ativos, passivos, balanço patrimonial e resultados financeiros da instituição.

Para identificar, medir e gerenciar o risco de liquidez, as instituições financeiras recorrem a métricas de liquidez, como o Índice de Cobertura de Liquidez (LCR) e o Índice de Financiamento Estável Líquido (NSFR). Estas métricas são calculadas com base em fórmulas específicas que levam em conta a qualidade e a liquidez dos ativos, bem como a estabilidade do financiamento. Mas sempre bom lembrar de que cada uma dessas métricas possui suas limitações e requer uma interpretação cuidadosa no contexto do apetite de risco da instituição, definido na Declaração de Apetite ao Risco (RAS).

O LCR mede a capacidade de uma instituição financeira de cobrir suas necessidades de liquidez de curto prazo (30 dias) em cenários de estresse, enquanto o NSFR avalia a estabilidade do financiamento disponível em relação às necessidades de financiamento de longo prazo.

Ao calcular o LCR e o NSFR para um banco de amostra, devemos analisar os ativos líquidos de alta qualidade disponíveis para cobrir saídas líquidas de caixa em um cenário de estresse (para o LCR) e a proporção de ativos disponíveis para financiamento estável em relação às obrigações de financiamento de longo prazo (para o NSFR). Os resultados dessas métricas informarão as ações de gestão potenciais, como ajustes na composição do balanço, melhorias na gestão de liquidez ou modificações no perfil de vencimento de dívidas e ativos.

O Risco de Taxa de Juro no Livro Bancário (IRRBB) olha o impacto das variações das taxas de juros sobre os ativos e passivos que estão para não negociação.

Infelizmente apesar de sua relevância, há aspectos do IRRBB que frequentemente não são plenamente discutidos ou compreendidos, que queria aproveitar para abordar aqui abaixo:

  • Uma das nuances menos abordadas do IRRBB é sua complexidade e a forma como ele se entrelaça com diversas operações bancárias, influenciando desde a precificação de produtos até a estratégia de financiamento.
  • O CSRBB (Credit Spread Risk in the Banking Book) refere-se ao risco de que o spread de crédito (a diferença entre a taxa de retorno de um ativo e a taxa livre de risco) mude, afetando o valor de mercado dos ativos no livro bancário. Este é um componente do IRRBB que merece atenção especial por seu potencial impacto sobre a avaliação e a performance dos ativos.
  • A medição do IRRBB envolve a análise da sensibilidade do valor econômico do patrimônio (EVE) e da receita de juros líquida (NII) a variações nas taxas de juros. Ferramentas analíticas e simulações de cenários são empregadas para avaliar o impacto potencial de mudanças nas taxas de juros.
  • Decidir se deve ou não fazer hedge do IRRBB envolve considerar "como", "o quê", "quando" e "por que" implementar estratégias de hedge. A decisão baseia-se na avaliação do perfil de risco da instituição, nas condições de mercado e na estratégia de gestão de riscos. Estratégias de hedge podem incluir o uso de derivativos como swaps de taxa de juro, futuros, opções e forwards para mitigar o risco.

Acima falamos de dois conceitos importantes em ALM, que queria aproveitar para tentar explicar melhor:

  • EVE (Valor Econômico do Patrimônio): Mede o impacto das mudanças nas taxas de juros sobre o valor presente dos fluxos de caixa futuros dos ativos e passivos, refletindo o risco de longo prazo.
  • Sensibilidade da NII (Receita de Juros Líquida): Avalia como as variações nas taxas de juros afetarão a margem de juros líquida do banco em um horizonte de tempo mais curto.

Essas métricas complementam-se ao oferecer uma visão mais ampla do risco de taxa de juro, capturando tanto os efeitos de curto quanto de longo prazo.

A gestão eficaz de ALM tem implicações significativas para o capital e os índices de capitalização de uma instituição financeira. O gerenciamento proativo do IRRBB e outros componentes do ALM pode ajudar a otimizar o perfil de risco-retorno, influenciando a alocação de capital e os índices de capital.

A modelagem do lado do passivo é importante para prever comportamentos de fluxos de caixa e para a gestão de liquidez e de riscos de taxa de juro. As premissas comuns em ALM incluem por exemplo taxas de retenção de depósitos, elasticidades de taxa de juros e comportamentos de fluxos de caixa.

Ao propor premissas para depósitos relacionados ao prazo e à precificação, deve-se considerar fatores como a sensibilidade dos clientes às taxas de juros, a estabilidade dos depósitos e as tendências históricas. Estas premissas impactam diretamente as sensibilidades de EVE e NII, influenciando a gestão de riscos e as estratégias de alocação de capital. Ao ajustar as premissas de depósito para refletir maior sensibilidade às mudanças nas taxas de juros, pode-se observar um aumento na volatilidade do EVE e da NII, requerendo estratégias de hedge mais robustas ou ajustes na composição de ativos e passivos para mitigar os riscos associados.

Outro tema relacionado a ALM importante de comentar aqui neste post é sobre o chamado: Preços de Transferência Interna (que em inglês é conhecido como: Internal Transfer Pricing, ou seja: ITP), que é uma metodologia utilizada por instituições financeiras para alocar custos e receitas entre diferentes áreas de negócios, de maneira a refletir o verdadeiro valor e custo do dinheiro, que desempenha um papel relevante na gestão de riscos e na otimização da rentabilidade.

O ponto de partida para implementar um quadro de ITP é a compreensão profunda dos custos de captação de recursos e das receitas geradas pelos diferentes ativos. Isso exige uma análise detalhada dos produtos financeiros oferecidos pela instituição, suas fontes de financiamento e a estrutura de custos associada.

A aplicação efetiva do ITP pode transformar a forma como uma instituição financeira avalia o desempenho dos seus diversos segmentos de negócio, incentivando decisões mais informadas sobre preços, produtos e alocação de capital. Ela atribui um preço interno para o uso do capital e do financiamento, refletindo os custos de oportunidade e incentivando uma gestão mais eficiente dos recursos.

A governança e a propriedade do cálculo do Transfer Price são importantes para sua eficácia e precisam ser claramente definidas. Isso envolve estabelecer políticas claras, responsabilidades e processos de revisão para garantir que os preços de transferência reflitam adequadamente os riscos e os custos associados.

Para construir um custo de preços de transferência e valor do dinheiro é necessário calcular tanto o custo de captação do dinheiro quanto o valor gerado por esses fundos quando investidos em ativos. Este cálculo ajuda a determinar a margem de negócios, subtraindo o custo dos fundos do retorno gerado pelos ativos.

Outro tema que se precisa incluir neste processo, e que por isto mesmo não poderia deixar de falar é sobre o Testes de Estresse:

  • Teste de Estresse de Liquidez: Avalia a capacidade da instituição de atender às suas obrigações de liquidez em cenários de estresse.
  • Teste de Estresse de IRRBB: Examina o impacto das variações extremas nas taxas de juros sobre a posição financeira da instituição.
  • Teste de Estresse em Toda a Empresa: Avalia a resiliência da instituição financeira frente a uma variedade de cenários de estresse, considerando múltiplos tipos de riscos simultaneamente.

O capital econômico liga todos os aspectos da gestão de riscos, incluindo ITP, testes de estresse e ALM, fornecendo uma base para a alocação eficiente de capital contra os riscos assumidos, buscando quantificar o capital necessário para cobrir riscos inesperados, assegurando que a instituição permaneça solvente e estável mesmo sob condições adversas.

Os riscos de ALM, incluindo o risco de liquidez e o IRRBB, estão intrinsecamente conectados. Por exemplo, suposições na modelagem de liquidez, como a estabilidade de depósitos a longo prazo ou a disponibilidade de linhas de crédito, podem ter um impacto significativo no IRRBB. Uma suposição de que os depósitos são mais estáveis do que na realidade pode levar a uma subestimação do risco de taxa de juro, resultando em estratégias de hedge inadequadas. Inversamente, uma gestão eficaz do IRRBB que minimiza a exposição às variações das taxas de juros pode melhorar a posição de liquidez ao reduzir a volatilidade dos fluxos de caixa.

Se por exemplo uma instituição subestima a probabilidade de retiradas de depósitos em um cenário de aumento das taxas de juros, isso pode levar a um déficit de liquidez inesperado. Esse cenário de estresse de liquidez afetaria diretamente o IRRBB, exigindo a venda de ativos potencialmente a preços desfavoráveis para atender às necessidades de liquidez, impactando negativamente o P&L e o EVE.

Por outro lado, uma suposição conservadora sobre o comportamento dos depósitos em cenários de aumento das taxas de juros pode levar a uma posição de liquidez excessiva, resultando em um custo de oportunidade por não investir esses fundos em ativos com maior retorno.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Autor

Foto de perfil de Luiz Henrique Lobo

Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante