Temos vivido nos últimos anos uma crise atrás da outra, esta aí a Covid ou a guerra da Ucrânia, e todos seus impactos, para não nos deixarmos esquecer disto, por isto queria hoje refletir sobre o tema das crises, e mais do que isto da importância da chamada Resiliência.
Se olharmos no dicionário o significado da palavra "resiliência", vai nos dizer que é um substantivo feminino, que quer dizer: propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica, ou capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças, com origem da palavra em inglês "resilience" ou elasticidade.
Estava lendo então uma entrevista bem interessante do Rene Stulz, um especialista em Economia Monetária e Bancária, e Diretor do Dice Center for Research in Financial Economics na Ohio State University, que falava sobre o atual conhecimento sobre o risco de crise e suas implicações para a gestão de riscos.
Ele levanta pontos que concordo, por isto queria compartilhar abaixo, começando pela importância de atribuir um significado ao risco de crise, e principalmente os passos que as instituições financeiras podem, aliás devem, tomar para se tornar mais resilientes, e como os gestores de risco são fundamentais para garantir a continuidade de suas empresas em tempos digamos incertos.
Um ponto para começar é que as crises devem ser definidas como situações extremas nas quais a economia ou o sistema financeiro não funcionam normalmente. Me faz lembrar a crise da desvalorização cambial de janeiro de 99, em que as correlações entre câmbio e juros simplesmente não funcionaram, e o hedge cambial usando juros que o Cacciola do Marka simplesmente não funcionou, e ele quebrou.
Nesse contexto, as empresas não podem operar da mesma maneira que faziam anteriormente em uma situação de normalidade. A definição de uma crise é importante para a elaboração de testes de stress e avaliação da relevância de cenários potenciais. O que me faz lembrar da mesma época, aonde todos os cenários de stress, inclusive os meus no finado Banco Boavista Interatlântico S.A. não eram tão severos como a realidade se mostrou.
Me lembro ainda de quando a pandemia estourou, e via os impactos atingindo primeiro a Ásia e depois a Europa em cheio, era uma questão de pouco tempo para atingir as Américas e o Brasil, e quando aconteceu fiz minhas projeções e possíveis impactos na instituição que trabalhava na época, que eram bem preocupantes, e indicavam a necessidade de capitalização e ajustes fortes para não quebrar, e fui compartilhar isto com a alta administração, e ouvi que era apenas uma gripezinha, e que em pouco tempo (questão de semanas) voltaria ao normal. Bom, foi pior mais uma vez do que os cenários que eu estava usando, e sim houve necessidade de capitalização pelo acionista para equalizar a Basiléia e o caixa. Felizmente conseguiram ajustar e se salvar (sem minha ajuda por sinal), e fazer muito do que havia sugerido no primeiro momento, mas taxado como pessimista (para não dizer louco).
Para se preparar para crises imprevisíveis, como uma pandemia, que não estão no seu radar, aí que entra a resiliência, que é fundamental para estas situações fora do radar. Usando como comparativo tipos de carros, uma empresa pode ser organizada como uma Ferrari, que funciona extremamente bem quando as condições da estrada são perfeitas, ou pode ser uma SUV, que não alcança a velocidade da Ferrari, mas consegue continuar se a estrada se transformar em lama. A resiliência implica que a empresa possui uma série de buffers de absorção, como por exemplo uma área e uma boa governança de riscos eficiente e independente com voz, e logicamente também um balanço patrimonial sólido, que aguente um tranco.
No entanto, a resiliência tem um custo, e os gestores devem enfrentar estes trade-offs. Como resolver esses trade-offs depende da probabilidade de crises. Se crises são extremamente raras, a resiliência pode ser muito cara. Por outro lado, a probabilidade de uma crise é geralmente alta o suficiente para que a construção de alguma resiliência faça sentido para muitas empresas.
Para se tornar resiliente, uma empresa deve começar com menos alavancagem e mais caixa em mãos. Uma empresa que opera com alta alavancagem não pode absorver grandes choques inesperados. Além disso, para muitas empresas, a resiliência operacional é crucial para enfrentar alguns tipos de crises.
Criar uma boa resiliência não é gratuito, e é preciso encontrar um equilíbrio para evitar uma cautela extrema que restrinja o crescimento. A direção e a equipe de gestão de uma empresa devem determinar quais riscos valem a pena ser assumidos. Uma empresa resiliente pode estar em uma posição melhor para assumir projetos mais arriscados e se beneficiar das potenciais recompensas.
Em relação às intervenções governamentais massivas e cada vez mais frequentes para reduzir o impacto negativo das crises, seria irracional acreditar que não há limites para o crescimento dos balanços dos bancos centrais e da dívida governamental. Bom alertar que as políticas implementadas para lidar com choques podem ter consequências imprevistas importantes que podem afetar os negócios.
Algo que aprendi na prática com as crises que passei, e como coloquei acima, é que os gestores de riscos devem aprender com as crises passadas, mas devem estar sempre cientes de que o futuro pode ser bastante diferente do passado.