Este caso das Americanas não para de nos dar oportunidade para mostrar as lições aprendidas com este escândalo. Trago agora outro ponto referente à chamada "renda fixa" e a percepção de risco.
Me deparo com esta manchete acima, em um dos principais portais de notícias, e me chama atenção para algo que para mim era óbvio, mas percebo que para a maioria das demais pessoas, que não têm conhecimento de mercado financeiro e como alguns de seus produtos funcionam, isto não é claro.
O que só reforça a necessidade de suporte das instituições a seus clientes, para que consigam entender o que estão comprando e investindo.
Obviamente o tema está relacionado aos títulos de renda fixa, mais especificamente as chamadas debêntures, emitidas pelas Americanas no mercado, como uma forma de captar recursos, alternativas a tomar dinheiro direto dos bancos, mas sim do investidor final.
Outros casos e problemas no passado fizeram que as regras de tais emissões e até de vendas destes ativos financeiros tivessem uma norma e exigência mais cuidadosa, em especial para quem esteja comprando saiba dos riscos que estão correndo. Isto precisa estar de forma clara nos prospectos de emissão, que são públicos. Mesmo assim a maioria desconhece ou não se preocupa em saber e entender. Depois o pessoal reclama.
Obviamente que isto se complica um pouco mais quando estes títulos são comprados e colocados nas carteiras dos chamados fundos de renda fixa, que infelizmente carregam este "mito" de que sempre dão rentabilidade diária positiva com o "carrego" destes juros.
Porém, até mesmo para proteger seus cotistas, inclusive em situações como esta, passou-se a exigir (e já faz muito tempo) que estes títulos sejam "marcados a mercado", ou seja, apreçados pelo real valor se fossem vendidos no dia, e assim refletir neste preço os riscos de crédito e de mercado, que sim eles têm.
A renda é "fixa", mas o risco existe sim!
No caso das Americanas e de tantos outros esta percepção do risco de crédito da empresa, que é sua capacidade de conseguir pagar o principal e juros destes títulos, assim como em uma operação de crédito, também varia com as condições do mercado, segmento e logicamente da empresa. Que neste caso, ao saber que iria para recuperação judicial eminente, com o caixa deteriorando rapidamente, simplesmente deixou de pagar os juros mesmo antes da RJ, e assim disparou a reavaliação de seu rating por parte dos bancos e assets, o que refletiu de imediato nos seus preços, hoje negociados para ter uma ideia com deságio de 70 a 80%, que é a expectativa que o mercado tem de recuperação e recebimento em um acordo desta RJ.
E isto impacta diretamente também as cotas destes fundos, que carregavam estes títulos pois pagavam um pouco mais de juros (prêmio para correr o risco de crédito), acima da taxa de referência (CDI), e assim davam uma rentabilidade um pouco maior a estes mesmos fundos. Mas que com o evento, simplesmente tiveram uma perda enorme, não apenas dos juros, mas do principal. Risco de crédito na veia.
Queria deixar claro a todos de que: Renda Fixa tem sim risco de mercado e de crédito, e por isto mesmo seus preços/taxas também podem flutuar, quando se marca a mercado.
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