Artigo
19/01/2023
Atualizado em 10/04/2026

Risco de Liquidez e o Exemplo Prático do Caso Americanas

Análise do risco de liquidez no caso Americanas, com enfoque em gestão de riscos, caixa, credores, fornecedores e plano de contingência.

Resumo

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Este caso das Americanas é um terreno fértil para abordarmos temas relacionados a gestão de riscos, auditoria, compliance e governança corporativa. E tenho aproveitado a ocasião para ir abordando os que acho mais relevante, usando como exemplo o que está acontecendo agora diante dos nossos olhos no dia a dia do desenrolar deste caso. Tanta coisa para dizer e falar.

Hoje queria abordar o tema do Risco de Liquidez, algo que muitos pensavam que era um problema exclusivo de bancos, mas que até como exemplo prático se mostra que também pode afligir as empresas. É o que ainda pouco se falou, mas é o cerne da questão de outras ações que estamos vendo desenrolar no caso das Americanas. Ouvimos e vemos as ações acontecendo, sem perceber de que o que está por detrás disto é o tal do risco de liquidez, que vou tentar explicar mais abaixo deste longo texto, cheio de pontos que acho relevante, e lições que podemos tirar deste caso das Americanas.

Aliás muitos infelizmente ainda acham que gestão de riscos é algo que apenas os bancos têm problema e atenção, quando na verdade as empresas deveriam usar como exemplo e lição os casos que acontecem com os bancos, e perceber de que ainda que haja logicamente diferenças, pois muitas das causas dos riscos sejam diferentes, os fatores de riscos muitas vezes são bem similares, e neste caso da Liquidez, diria que o comportamento não é diferente, e o que o pessoal da mesa de operações e tesouraria das Americanas está percebendo neste momento, ao ver seu enorme caixa indo embora sem conseguir repor na mesma alta velocidade, vendo o muro chegando rapidamente na sua frente, com uma perspectiva sombria de desastre.

O risco de liquidez, nunca é o primário, ou seja, nunca a causa raiz dos problemas, mas sim ele sempre deriva de outro tipo de riscos, mas por outro lado ele é sempre o motivo da morte.

Assim como na medicina, em que o paciente de câncer, no final nunca morre disto, mas sim das consequências que esta triste doença traz para seu corpo, que acaba falecendo por uma outra causa final. A liquidez é assim também. Ela que decreta a recuperação judicial, que no caso das Americanas parece não apenas cada vez mais provável, mas também cada vez mais perto de acontecer, até como parece uma das poucas opções para a sobrevivência na empresa, que não reagir rápido corre o risco de falência.

O risco de liquidez é poderoso e rápido, então demanda uma reação rápida por parte da empresa no seu controle e mitigação, caso contrário ela será "devorada" por este monstro, que age na surdina e tem efeitos devastadores, deixando com sequelas de inanição e falta de energia necessária para sobreviver.

O problema é que normalmente as empresas não estão bem preparadas para reagir adequadamente em um momento de crise, quando é normal a gestão ficar perdida no meio do tiroteio e não conseguir saber o que fazer e ter esta reação rápida necessária.

Por isto estar preparado em todos sentidos para uma crise de liquidez é uma das tarefas mais importantes, e ao mesmo tempo mais menosprezada da gestão de riscos, mas é o que na prática ajuda na sobrevivência nestes momentos de crise e stress. Falo isto por que dentro da gestão de riscos, tem um tema bem importante que é não apenas o Plano de Contingência de Liquidez, mas também o seu importante exercício de sua criação, que começa com o essencial entendimento deste risco de liquidez, e suas consequências com impacto e probabilidade, o que por si só já ajuda muito para que os envolvidos, em especial logicamente a tesouraria, mas também a alta direção e conselhos, percebam o risco e a necessidade de estar preparado para enfrentá-lo se ele se concretizar (como está acontecendo com as Americanas) e como enfrentá-lo.

Até pouco tempo atrás (dias) se perguntasse a qualquer pessoal qual a chance das Americanas com um "caixa" de alta liquidez de mais de R$ 8 bi, passaria por uma situação de aperto e iliquidez, diria que ninguém (além dos fraudadores do balanço que tinham conhecimento da situação) de bom senso diria que poderia estar acontecendo o que vemos agora, aonde o boato é que em poucos dias estes 8 bi se transformaram em apenas 800 milhões, o que é muito pouco para uma empresa do tamanho dela em um segmento que demanda alta liquidez e capital de giro.

Quando vimos o movimento das Americanas entrando correndo em um final de semana na justiça contra a reação (natural) do BTG de não liberar o dinheiro que tinha aplicado, vimos exatamente uma reação natural dela de proteger esta liquidez de curto prazo, e este tal "caixa" alto que ela supunha ter, pois sabia ela (e muita outras pessoas também) de que isto seria essencial para sobreviver no curto prazo deixando seu negócio vivo e girando, até conseguir protocolar na justiça um plano de recuperação judicial (RJ).

O mais irônico da situação, é que há alguns anos atrás, era exatamente o BTG, quem agora puxou o gatilho primeiro, quem passava por uma crise de liquidez, disparada pelo risco de imagem, da prisão (injusta por sinal) do Esteves em um dos movimentos da então Lava-Jato. Na época, a reação rápida e a implantação das medidas previstas no seu plano de contingência de liquidez, foi o que o salvou. Este é um caso que ensinou a importância da reação rápida e bem coordenada. De que não pode entrar em pânico ou "bater cabeça" ficando perdido sem reação neste momento. Transformar rapidamente tudo que tem liquidez em Caixa, sem deixar ninguém que pedir sem receber (seus resgates e pagamentos), vender ativos e cortar custos não essenciais de curto prazo, são algumas das reações necessárias neste momento delicado.

Mas a comunicação, tanto interna para seus funcionários, como a externa para o mercado em especial seus credores, mas também a mídia, é também muito importante neste momento, para acalmar os ânimos e a correria para tentar salvar algo antes da morte eminente.

Neste sentido, tenho visto falhas das Americanas, que não têm se comunicado adequadamente para acalmar, mas pelo contrário, suas reações como abertura de pedidos na justiça de proteção, ou a falta de posicionamento de medidas duras e necessárias que os credores e o mercado querem ouvir, não têm ajudado muito. Nesta incerteza e falta de comprometimento dos acionistas, o pânico só aumenta e piora a situação.

Mas voltando aos bancos credores, todos sabem muito bem o que é risco de liquidez, também perceberam o natural movimento defensivo (do caixa e de sua liquidez) tomado pelas Americanas, nada de errado e no script de qualquer plano de contingência de liquidez, mas isto acabou também ligando um sinal amarelo, fazendo que se assustassem, e assim por outro lado, disparando o temido efeito velho oeste, aonde todos começaram a tentar sacar primeiro, para minimizar seus risco de crédito. E isto é exatamente a pior situação em uma situação de risco de liquidez, aonde este efeito manada de correria à boca do caixa só acelera e acaba de matar antes do paciente em estado terminal.

Outra coisa que precisa ser dita, inclusive retomando ao ponto do plano de liquidez, é que os tais 8 bi dito pelas Americanas no pedido de proteção que fez, na verdade não era bem todo este valor, como começamos a ver em mais detalhes e ter mais informações, pois contava dentro deste valor, como se fosse liquidez garantia, ou seja, com os ovos ainda dentro da galinha, com linhas de crédito de desconto de recebíveis, o que em uma situação de estresse de crédito, como ela está passando agora, até mesmo pelos finais (ou a falta deles) ruins que tem dado sobre o caminho que vai tomar para resolver o caso e tranquilizar os credores (algo básico que ela deveria estar priorizando e fazendo na prática). Não dá para contar com este dinheiro como garantido. A realidade está mostrando isto na prática. Mais um erro na gestão do risco de liquidez.

O que devemos realmente considerar como "caixa líquido" nestes momentos, é o que está depositado em contas corrente ou investimento de curto prazo, mas que não tenha sido dado de garantia e colateral de empréstimos, que foi o que aconteceu no caso do BTG, pois as cláusulas dos contratos de crédito preveem normalmente que isto fica bloqueado pelo banco no caso de problemas. Mais um erro na gestão dos riscos da empresa. Esta é a liquidez imediata que vai ajudar a sobreviver os dias necessários da tormenta inicial, que normalmente é a mais mortal e perigosa.

Mas quantos dias eu preciso de caixa para este momento inicial?

Difícil de dizer ou ter uma fórmula única fechada. Vai depender de cada empresa e segmento e demanda de caixa e capital de giro que tenha. Diria que ao menos 30 dias é um bom número. Até usando como parâmetro a exigência regulatória que os bancos têm com o LCR (Liquidity Coverage Ratio), que prevê a relação de 1 entre os ativos de alta liquidez com as obrigações de curto prazo dos próximos 30 dias. Ou seja, resumindo, os bancos precisam ter liquidez suficiente e garantida para aguentar abertos e operando pagando o que deve pelos próximos 30 dias em uma situação atípica. Normalmente os bancos maiores têm até mais do que isto na faixa de 45 a 60 dias (um LCR de 1,5 a 2). Voltado ao ponto acima, que as empresas aprendam com os (bons) exemplos do mercado financeiro.

Voltando ao plano de contingência de liquidez, e aos passos necessários, depois desta parte de liquidez imediata, que vai lhe fazer sobreviver a crise por uns 30 a 60 dias, mas talvez ainda não resolva o problema todo, a segunda etapa que precisa ser disparada de imediato, pois tem um tempo maior de demora para ver os resultados (caixa), normalmente se considera também a venda dos outros ativos que podem se transformar em dinheiro com mais facilidade, como títulos financeiros, e no caso da Americanas, também seu valioso estoque, e seus ativos imobilizados (lojas, sede, centros de distribuição, etc), e logicamente um pouco depois também a venda de outras empresas do grupo com valor atrativo no mercado (Hortifruti, Natural da Terra, etc). Por isto que acho que vamos ver nas lojas cada vez mais promoções para o pagamento à vista em dinheiro, para transformar este estoque em caixa o mais rápido possível, mesmo que com prejuízo, pois nesta hora de crise, o mais importante é a liquidez e não o resultado, assim como vamos ver interessados na compra destes imóveis (alô fundos imobiliários) e empresas (alô áreas de private equity e investimentos), o que pode levar mais de 30 ou 60 dias para se transformar em dinheiro. Mas só o sinal que estão fazendo isto já vai ajudar a acalmar e sentar na mesa com os credores para uma renegociação e apoio para que consiga passar esta fase inicial e sobreviver, até para conseguir pagar o que deve ao mercado.

Mas risco de liquidez não está apenas restrito aos bancos, mas também tem a ver com seus fornecedores, que normalmente, ainda mais no caso das Americanas, sempre dão prazo de pagamento mais longos e condições mais favoráveis, diminuindo a necessidade de capital de giro, fazendo que ela consiga vender e receber, antes de ter que pagar aos fornecedores. Isto funciona em um cenário de normalidade, mas em uma situação de estresse, estas regras normais de mercado não funcionam bem assim.

O que provavelmente está acontecendo, com o medo do risco de crédito, de entregar sua mercadoria, e esperar um bom tempo para receber, em um cenário (provável) de recuperação judicial (RJ), os fornecedores não devem (assim como os bancos) estar dando mais crédito com vendas à prazo para as Americanas, o que pressiona ainda mais o seu caixa e aumenta a necessidade de capital de giro, tendo a fonte natural dos bancos secado no momento.

A situação nestes momentos nunca é fácil, pois as portas todas sempre escancaradas, de uma hora para outra se fecham rapidamente na sua cara. Assim como quem passa por uma crise aprende de que não existe esta de que nunca pode piorar ainda mais. E as Americanas estão entendendo o que o mercado chama de "tempestade perfeita", que é quando tudo que pode dar errado e dificultar acontece ao mesmo tempo. E por isto que muitas vezes o que vejo são cenários de estresse simulado pelos bancos e empresas bem mais leve do que pode acontecer na prática.

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Perguntas e respostas

Quais elementos estruturam a discussão sobre Risco de Liquidez e o Exemplo Prático do Caso Americanas?
Este caso das Americanas é um terreno fértil para abordarmos temas relacionados a gestão de riscos, auditoria, compliance e governança corporativa.
Como o conteúdo contextualiza a aplicação de Risco de Liquidez e o Exemplo Prático do Caso Americanas?
Por isto estar preparado em todos sentidos para uma crise de liquidez é uma das tarefas mais importantes, e ao mesmo tempo mais menosprezada da gestão de riscos, mas é o que na prática ajuda na sobrevivência nestes momentos de crise e stress.
Qual é o foco central da análise sobre Risco de Liquidez e o Exemplo Prático do Caso Americanas?
Análise do risco de liquidez no caso Americanas, com enfoque em gestão de riscos, caixa, credores, fornecedores e plano de contingência.
Que aspecto de atenção é destacado em Risco de Liquidez e o Exemplo Prático do Caso Americanas?
Hoje queria abordar o tema do Risco de Liquidez, algo que muitos pensavam que era um problema exclusivo de bancos, mas que até como exemplo prático se mostra que também pode afligir as empresas.

Conteúdo gerado com apoio de IA. Não substitui análise profissional.

Autor

LL

Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante