Escrevo hoje aqui mais uma vez sobre os chamados riscos não financeiros, em especial o risco cibernético e de lavagem de dinheiro (PLD), que poderíamos agrupar como riscos operacionais, e que são neste momento os que mais me preocupam, até porque de alguma forma os chamados riscos financeiros, como de mercado, liquidez e capital, estão de certa forma equalizados na maioria das instituições, que praticam gestão de riscos há algumas décadas.
Mas não podemos dizer o mesmo das empresas novas, que ainda têm uma cultura em formação, e a gestão de riscos como o restante ainda está sendo criada e implementada, e por isto mesmo merecem uma atenção especial.
Ainda mais se for uma Fintech, e mais ainda se for do segmento de "Crypto Ativos" (que por sinal prefiro chamar assim do que de "moedas", dado que não as considero que têm as mesmas características de uso que uma moeda tradicional).
Os riscos que estas empresas correm são enormes, seja o risco financeiro de mercado da flutuação dos preços e sua eventual exposição, seja dos riscos não financeiros operacionais, começando pelo de PLD com o uso deste produto também para fins de lavagem e atividades ilícitas, seja em especial também o cibernético, com recentes e constantes ataques hackers, que têm feito algumas delas sofrerem perdas enormes, muito maior do que teria sido o gasto em investimentos de prevenção e mitigação destes riscos.
Queria trazer para ilustrar este tema a recente notícia de que uma das maiores corretoras de balcão de crypto, como gosto de chamar, por representar bem o trabalho importante que fazem, mas que são mais conhecidas no mercado como: "Exchanges", que sofreu um ataque com roubos de posição de carteiras de crypto, e perdas estimadas em mais de US$ 100 milhões em:
Tive a oportunidade de conhecer mais de perto este segmento na época que era CRO de um banco de câmbio, que gostaria de passar a operar mais com este segmento, e que preocupado me fez fazer uma série de visitas para entender melhor os processos e riscos envolvidos, que não eram poucos, e que estamos vendo sendo materializado nestes últimos dias, com uma recente operação da PF em relação a lavagem e pirâmide financeira, e agora esta invasão e roubo na Binance.
O que me chamou atenção na época, foi que a grande maioria destas empresas eram lideradas por especialistas oriundos do segmento de TI, mas com pouco conhecimento de mercado financeiro em si, e menos ainda de gestão de riscos e intermediação de ativos (financeiros), que no fundo era o que fazem.
Neste sentido ao investigar um pouco mais, e fazer o chamado "Conheça seu Parceiro" (KYP), olhando seus processos e sistemas, com um foco de gestão de riscos, o que via era que não existia nada formal para PLD por exemplo ou riscos financeiros. Ainda que de alguma forma sim existia alguma preocupação, mas poucos mitigadores práticos para o risco cibernético. A maior preocupação era com a chamada "experiência do cliente", que obviamente é muito importante, mas não pode ser a única coisa que se deve preocupar.
Lembro especificamente de uma (fora do eixo SP-RJ) que ao olhar seu cadastro e operações recentes, me deparei com um cliente de 15 anos que havia operado mais de 300K nos últimos 3 meses, totalmente incompatível com sua capacidade financeira, sem que a empresa tivesse lhe pedido qualquer explicação e comprovação adicional, além de um cadastro básico e documentação. E achava que tinha bons controles de PLD.
O que temos visto é que o preço pela falta de atenção e priorização da gestão de riscos está cobrando seu preço na prática. E as contas estão sendo bem caras, seja em perdas financeiras, seja a quebra de confiança com impactos diretos na imagem e reputação, que depois se refletem nas operações e relacionamento com seus clientes e parceiros inseguros. Daí a importância de prevenir.
E o pior risco já sabemos que nem sempre é o maior deles, mas sim com certeza aquele risco que você desconhece, ou não está preparado para suportar sem mitigadores.
Pesquisa regulatória realizada em okai.com.br.