Desatualizado Artigo
16/03/2023
Atualizado em 10/04/2026

Risco Sistêmico: Ser grande demais para falir, mas também grande demais para ser salvo: Caso CS

A crise do Credit Suisse destaca o dilema entre deixar um banco grande falir ou resgatá-lo, evidenciando o risco sistêmico que pode desestabilizar o sistema financeiro global e a economia real.

Desatualizado Verificado em 16/07/2026

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O conceito de risco sistêmico e o contexto histórico da crise do Credit Suisse permanecem úteis. A crise teve desdobramentos posteriores: o pacote suíço de 19/3/2023, a aquisição pelo UBS concluída em 12/6/2023, o encerramento das garantias públicas em 11/8/2023 e a fusão de Credit Suisse AG em UBS AG em 31/5/2024. As referências à instituição ainda autônoma e em situação emergencial devem ser lidas como retrato daquele período.

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Depois da quebra dos bancos americanos SVB e Signature, ontem foi a vez do Credit Suisse (CS) abalar o mercado bancário e acionário europeu, deixando todos preocupados com uma desconfiança em relação à sua solidez depois de nota sobre seu balanço, e de seu principal acionista árabe dizer que não ia capitalizar, assim como o efeito de contágio que poderia ter sobre outros e as economias em geral.

Tudo isto trouxe à tona outro tipo de riscos, que muitos mais jovens não têm muita noção do que seja, e como perigoso e impactante ele pode ser. Estou falando do chamado Risco Sistêmico, que é o foco deste meu post.

Ontem uma declaração do economista Nouriel Roubini, dada à Bloomberg, mas que circulou rapidamente pela mídia, me chamou bastante atenção:

"O problema é que o Credit Suisse, segundo alguns padrões, pode ser grande demais para falir, mas também grande demais para ser salvo."

O que ele fez foi levantar este dilema atual dos reguladores e autoridades financeiras, pois se deixarem o banco simplesmente falir, isso provavelmente pode desencadear uma crise financeira, de difícil previsão dos impactos, que podem causar danos significativos à economia, mas por outro lado, se o banco for resgatado com dinheiro público, isso pode criar o chamado "risco moral", onde outras instituições financeiras podem sentir-se encorajadas a assumir riscos maiores, sabendo que serão resgatadas se algo der errado.

Esse dilema é especialmente ainda mais complicado quando se trata de bancos globais com presença significativa em muitos países, como é o caso do Credit Suisse, que operam em várias jurisdições e estão sujeitos a diferentes regulamentações e sistemas de resolução de crises. Por exemplo, enquanto alguns países têm leis que permitem a falência ordenada de bancos, outros têm sistemas de resgate que permitem que os bancos sejam salvos pelo governo ou por outras instituições financeiras.

Voltando à declaração do Roubini, para piorar e deixar mais nervoso ainda mais o mercado, ele ainda disse para completar:

"A questão é se eles conseguem o capital ou não. Caso contrário, coisas ruins podem acontecer."

O que fez o Banco Nacional Suíço (SNB) acertadamente se posicionar oficialmente dizendo que se for necessário irá fornecer socorro financeiro ao Credit Suisse, e que estão acompanhando o caso de perto, em contato próximo com o Departamento Federal de Finanças para garantir a estabilidade financeira no país. Abriu uma "linha de redesconto" de mais de 50 bilhões, que o CS já disse que vai usar, até para estancar outro risco mortal, que é o de liquidez depois da corrida aos saques, que é pior do que a queda de quase 25% nas ações.

Para acalmar ainda mais o mercado o SNB ainda reforçou de que a instituição atende aos requisitos de capital e liquidez impostos a bancos sistemicamente importantes, e que isso permitiria que os efeitos negativos de grandes crises e choques fossem absorvidos.

Pessoalmente acho que as medidas vão dar sim um fôlego na liquidez até para dar tempo que outras medidas emergenciais do plano de contingência de capital e o de liquidez tenham efeito, como venda de ativos e capitalização. Esta é na minha opinião a maior vantagem das medidas de liquidez (LCR) que vieram depois do aprendizado das lições da crise sistêmica de 2008, que depois vou comentar mais abaixo.

Junto à Autoridade Supervisora do Mercado Financeiro Suíço, o Banco Nacional Suíço afirmou que os problemas de certos bancos nos EUA não representam um risco direto aos mercados financeiros suíços.

Dito isto, queria falar um pouco mais deste conceito do risco sistêmico, que é um tipo de risco financeiro que está relacionado à possibilidade de uma perturbação ou falha em um sistema financeiro interconectado causar efeitos em cascata e desestabilizar todo o sistema econômico. Ele pode ser causado por uma variedade de fatores, incluindo mudanças abruptas nas condições econômicas, eventos imprevisíveis, falhas técnicas ou operacionais, ou choques políticos ou sociais.

O risco sistêmico é particularmente preocupante porque pode afetar todo o sistema financeiro e, consequentemente, ter efeitos negativos sobre a economia real, incluindo a produção, emprego e consumo. O risco sistêmico também pode ser difícil de detectar, avaliar, e principalmente medir, o que torna sua gestão ainda mais desafiadora.

Os bancos são um dos principais canais através dos quais o risco sistêmico é transmitido, já que eles são responsáveis por uma grande parte da intermediação financeira e são altamente interconectados entre si através do interbancário. Portanto, as autoridades regulatórias e os bancos centrais têm a responsabilidade de monitorar e mitigar o risco sistêmico, a fim de garantir a estabilidade financeira e econômica.

Uma das principais ferramentas utilizadas para gerenciar o risco sistêmico é a regulamentação financeira. Algo que por exemplo ainda não vemos no mercado de Crypto, que o deixa mais vulnerável a este tipo de situação como vimos recentemente. Estas exigências regulatórias incluem entre outros os requisitos de capital mínimo, testes de estresse, limites de exposição e outras medidas para reduzir a alavancagem e aumentar a resiliência dos bancos e outras instituições financeiras. Além disso, as autoridades também podem implementar medidas macroprudenciais para lidar com riscos sistêmicos, incluindo limites de empréstimos, requisitos de margem e outras medidas para reduzir a vulnerabilidade do sistema financeiro.

Para evitar o pior, os supervisores e reguladores financeiros têm um papel fundamental na identificação, avaliação e mitigação do risco sistêmico. Eles devem monitorar regularmente o mercado financeiro para identificar possíveis fontes de risco sistêmico, como excesso de alavancagem, concentração de risco em uma única instituição ou setor, interdependências entre instituições financeiras e falta de transparência.

Uma vez que os riscos sistêmicos são identificados, os reguladores devem implementar medidas para limitar ou reduzir esses riscos. Essas medidas podem incluir a exigência de maiores níveis de capital para instituições financeiras, limites de exposição para setores específicos ou contrapartes de alto risco, limites de alavancagem, e outros requisitos de transparência para reduzir a incerteza.

Normalmente o início desta crise vem de outro lugar, como na crise sistêmica de 2008, que começou com o colapso do mercado imobiliário dos Estados Unidos em 2007 e rapidamente se espalhou para todo o mundo, levando à falência de várias grandes instituições financeiras, em especial do banco Lehman Brothers em setembro de 2008, que desencadeou a crise financeira global de 2008, causando uma onda de pânico no mercado financeiro, levando a grandes perdas e uma queda no valor das ações.

Um dos aprendizados desta crise foi a importância dos Bancos Centrais trabalharem em conjunto para minimizar os riscos sistêmicos que afetam a economia global, incluindo a coordenação de políticas monetárias, o compartilhamento de informações sobre riscos financeiros e a implementação de regulamentações internacionais para garantir a estabilidade financeira global.

Aliás, foi desta crise que vieram muitas das melhorias da Basiléia 3....

Indo mais para trás, outra que atingiu e teve consequências posteriores aqui no Brasil também foi a crise financeira asiática de 1997, que começou na Tailândia e rapidamente se espalhou para outros países asiáticos, incluindo Indonésia, Malásia e Filipinas, causada por uma combinação de excesso de investimentos em projetos de infraestrutura e imobiliários, além de altas taxas de juros, o que levou a uma queda no valor da moeda e aumento da dívida externa. Aqui chegou em janeiro de 98, quando o governo brasileiro anunciou a desvalorização do real em relação ao dólar, que levou a uma crise cambial e uma fuga de capitais do país, quebrando uma série de bancos que estavam posicionados no dólar como o Marka e o Fonte Cindam, que mesmo pequenos fizeram um belo estrago, a ponto da BMF ter ficado vários dias abrindo e fechando com o limite de alta para dar tempo dos bancos que perdiam vender seus títulos e fazer caixa para pagar as margens. O que vimos depois como consequência aqui foi um aumento das taxas de juros, uma queda do valor das ações e uma recessão econômica.

Mais recente, tivemos ainda a crise da dívida soberana europeia de 2010, que começou quando vários países europeus, incluindo Grécia, Portugal e Espanha, começaram a ter problemas para pagar suas dívidas, levando a uma crise bancária na Europa, com bancos altamente expostos à dívida desses países enfrentando grandes perdas.

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Autor

LL

Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante