Incrível de ver que a distinção entre risco e incerteza tem sido um tema debatido por economistas desde o início do século XX, e queria comentar sobre dois estudiosos do tema que foram o Frank Knight e John Maynard Keynes, que podemos dizer que foram os pioneiros em discutir e definir essa diferença lá no começo do século passado em 1921, ou seja, há mais de 100 anos que debatemos o tema!
O Knight, em sua obra "Risk, Uncertainty, and Profit", introduziu o conceito de "risco mensurável" e "incerteza não mensurável". Keynes, em seu "Treatise on Probability", abordou a distinção entre risco calculável e a incerteza irreduzível.
Frank Knight definiu risco como situações onde os resultados são desconhecidos, mas as probabilidades associadas a cada resultado podem ser quantificadas. Ele chamou isso de "risco mensurável" ou "risco propriamente dito". Em contrapartida, a incerteza, que Knight referiu como "incerteza não mensurável" ou "incerteza verdadeira", aplica-se a decisões onde o tomador de decisão não pode conhecer todas as informações necessárias para calcular as probabilidades dos resultados possíveis.
John Maynard Keynes fez uma distinção similar em 1921, descrevendo o risco que pode ser calculado e a incerteza que é irreduzível. Para Keynes, algumas decisões envolvem riscos que não podem ser calculados devido à dependência de suposições sobre o futuro sem base sólida na teoria da probabilidade.
O Knight argumenta que o risco está presente em situações onde as probabilidades dos resultados são conhecidas ou podem ser estimadas com precisão razoável. Por exemplo, ao lançar um dado, sabemos que a probabilidade de qualquer número específico sair é de 1/6. Isso constitui um risco mensurável. Em contraste, a incerteza refere-se a situações onde essas probabilidades não podem ser determinadas. Knight usou exemplos do mundo dos negócios, onde muitos eventos futuros são incertos, como a aceitação de um novo produto pelo mercado ou as futuras políticas econômicas de um governo.
Segundo Knight, o lucro empresarial é derivado da incerteza. Em mercados competitivos, os retornos de fatores de produção como trabalho e capital tendem a se igualar aos seus custos. O lucro, então, surge como uma recompensa pela assunção da incerteza.
Já o Keynes, em sua obra, tratou da probabilidade como uma extensão lógica da incerteza. Ele sugeriu que, em muitas situações, especialmente nas decisões econômicas e de investimento, os riscos não podem ser calculados porque dependem de fatores futuros incertos e de nossa confiança nas previsões sobre esses fatores.
Keynes introduziu o conceito de "expectativas racionais" como uma tentativa de lidar com a incerteza. Ele argumentou que, embora possamos tentar prever o futuro com base em dados disponíveis, sempre haverá uma margem de erro significativa devido à incerteza inerente.

A distinção entre risco e incerteza tem profundas implicações para a tomada de decisão, tanto em nível individual quanto corporativo. Sob condições de risco, os decisores podem utilizar métodos quantitativos, como a teoria da probabilidade e modelos estatísticos, para tomar decisões informadas. Em contraste, sob condições de incerteza, esses métodos são inadequados, e os decisores devem recorrer a julgamentos subjetivos e heurísticas.
Em termos de gestão de riscos, empresas podem transferir ou mitigar riscos mensuráveis através de mecanismos como seguros e derivativos financeiros. No entanto, a incerteza verdadeira requer estratégias mais sofisticadas, como a diversificação de investimentos, a flexibilidade operacional e a capacidade de adaptação rápida a novas informações e condições de mercado.
Exemplos Práticos:
- Mercado de Ações: Investir em ações envolve riscos mensuráveis, como a volatilidade dos preços das ações, que pode ser modelada e gerida através de estratégias de diversificação. No entanto, também envolve incertezas, como mudanças abruptas em políticas econômicas ou crises financeiras inesperadas, que não podem ser previstas com precisão.
- Lançamento de Produtos: Uma empresa que lança um novo produto enfrenta riscos mensuráveis, como custos de produção e marketing, mas também enfrenta incertezas, como a reação do mercado e a aceitação do produto pelos consumidores.
- Planejamento Estratégico: As empresas devem considerar tanto os riscos mensuráveis quanto as incertezas ao planejar sua estratégia de longo prazo. Isso pode envolver a análise de cenários para preparar a empresa para várias possíveis condições futuras.
A distinção entre risco e incerteza, conforme definida lá atrás por Knight e Keynes, ainda permanece um conceito fundamental na teoria econômica e na prática de gestão. Enquanto os riscos podem ser quantificados e geridos através de métodos probabilísticos, a incerteza verdadeira exige abordagens mais qualitativas e flexíveis. Compreender e gerir adequadamente esses dois aspectos é crucial para a tomada de decisões eficazes em um ambiente econômico complexo e dinâmico.
Por fim, deixo o link para quem desejar ler os dois livros (em inglês) no original que continuam bem atuais em:
https://oll-resources.s3.us-east-2.amazonaws.com/oll3/store/titles/306/Knight_0192_EBk_v6.0.pdf
https://www.gutenberg.org/files/32625/32625-pdf.pdf
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