O fim do "float" e o redesenho do capital de giro
Imagine um caixa corporativo que nunca dorme.
Nenhuma compensação pendente. Nenhuma TED que só “cai no dia seguinte”. Nenhuma liquidação D+2 para boletos.
Essa é a promessa do Drex, a plataforma de moeda digital do Banco Central do Brasil (CBDC), que traz ao mundo corporativo liquidações instantâneas, finais e contínuas — 24 horas por dia, 7 dias por semana.
E isso tem um nome na tesouraria: a eliminação de boa parte do float.
O que é o float — e por que ele custa caro
Nas finanças corporativas, chamamos de float o tempo (e o dinheiro) entre o envio de um pagamento e sua efetiva liquidação e disponibilidade para uso. É o “vácuo” entre sair da conta de quem paga e cair, de fato, na conta de quem recebe.
Ele existe porque quase todos os meios de pagamento tradicionais seguem horários bancários e janelas de compensação. Por exemplo:
TEDs feitas no horário comercial compensam no mesmo dia (D+0), mas fora desse horário viram D+1.
DOCs são sempre D+1.
Boletos levam, em média, dois dias úteis (D+2) para compensar.
Cheques podem levar de um a dois dias úteis.
Para quem recebe, isso gera capital preso. Para quem paga, significa previsão adicional de liquidez. Para ambos, significa custo financeiro.
Vale lembrar que o Pix, desde 2020, já eliminou boa parte desse float para pagamentos simples — funcionando 24×7 com liquidação em segundos. O Drex, por sua vez, amplia esse conceito para transferências que envolvam ativos, títulos e automatização contratual.
O que muda com o Drex
O Drex foi projetado para eliminar esse tempo morto. Ele usa uma infraestrutura baseada em blockchain permissionada (Hyperledger Besu), com validação contínua (consenso IBFT 2.0) e liquidação atômica — ou seja, o dinheiro muda de mãos somente se todas as condições forem atendidas na mesma transação.
Isso permite:
Liquidação em segundos
Pagamentos e recebimentos finais, irreversíveis
Disponibilidade 24×7 — inclusive fins de semana e feriados
Registro único e sincronizado entre as partes
O Drex funciona em duas camadas:
No atacado: tokens Drex emitidos diretamente pelo Banco Central, usados entre instituições financeiras.
No varejo: tokens bancários lastreados em Drex, emitidos por instituições financeiras e usados por empresas e pessoas físicas.
A liquidação acontece dentro da mesma camada e em tempo real. No entanto, no varejo, ainda haverá um intermediário: a instituição que detém os depósitos tokenizados.
E o impacto no capital de giro?
Com a redução (e em alguns casos, eliminação) do float, as empresas passam a depender menos de caixa ocioso para aguardar liquidações.
Vamos a um exemplo:
Imagine uma rede de varejo que recebe R$ 50 milhões por dia em boletos, com compensação média em dois dias úteis. Isso significa R$ 100 milhões constantemente "presos" no sistema.
Com uma Selic de 10,5% ao ano, o custo de oportunidade disso gira em torno de R$ 10,9 milhões anuais.
Esse número é ilustrativo — na prática, parte desse valor poderia estar aplicado em instrumentos de liquidez ou mitigado por uso de Pix. Ainda assim, o Drex oferece potencial de liberação instantânea desses recursos, com impacto relevante sobre o capital de giro.
Tesouraria em tempo real: o que muda na prática
Ciclo de Caixa mais curto: com recebimentos instantâneos, o prazo de contas a receber encolhe. Isso reduz diretamente o Ciclo de Conversão de Caixa e libera recursos.
Redução do capital de giro: valores que antes ficavam presos entre emissão e compensação podem ser reinvestidos ou utilizados mais rapidamente.
Nova gestão de liquidez: com saldos acessíveis 24/7, a tesouraria não precisa mais se preparar para "encerramento bancário". Isso exige revisão de políticas internas de corte, saldo mínimo e previsão.
Menor dependência de crédito intradiário: com liquidações finais na hora, a necessidade de linhas emergenciais ou empréstimos de curtíssimo prazo tende a diminuir — embora não desapareça por completo, já que riscos operacionais e picos de demanda ainda existem.
E a contabilidade? Onde entra o Drex no balanço
Do ponto de vista contábil, há uma tendência de que o Drex venha a ser tratado como caixa e equivalentes de caixa, conforme definição do IAS 7 — por ser um ativo de liquidez imediata, disponível a qualquer momento, resgatável integralmente e com risco mínimo.
Entretanto, o IASB ainda não se pronunciou oficialmente sobre CBDCs. Há debates em andamento sobre se devem ser classificados como “cash”, instrumentos financeiros ou outro tipo de ativo.
O que o diferencia de criptomoedas privadas como Bitcoin é o lastro estatal, o curso legal e a estabilidade. Ainda assim, a definição contábil exata dependerá de diretrizes futuras dos órgãos normativos.
Mudanças em métricas financeiras
Ao reduzir (ou eliminar) o float, o Drex tende a melhorar os principais indicadores financeiros:
O índice de liquidez imediata sobe, já que os recursos se tornam disponíveis o tempo todo.
O ciclo de conversão de caixa diminui, com recebimentos imediatos.
O ROIC pode melhorar, já que o capital de giro necessário para operar diminui.
Esses efeitos, porém, dependem de como as empresas vão administrar os saldos em Drex — que podem ou não ser remunerados.
Compliance e controles internos
A adoção do Drex também exige novos cuidados de governança:
A custódia das chaves privadas da carteira Drex exige protocolos robustos de segurança — como HSMs, múltiplos níveis de autenticação e definição clara de responsáveis.
A reconciliação contábil muda de rotina periódica para processo em tempo real. Será necessário que o ERP da empresa consiga se integrar à rede Drex por API.
O risco cibernético muda de forma: menos risco bancário tradicional, mais responsabilidade sobre segurança interna.
Por outro lado, os próprios registros do Drex já oferecem uma trilha de auditoria automática e imutável, muito mais precisa do que os logs manuais de hoje.
Adoção corporativa: o que esperar
A implantação plena do Drex será gradual.
O piloto do Banco Central já concluiu sua primeira fase, com sucesso na liquidação de títulos públicos via blockchain. A segunda fase está em andamento, com foco em tokens de terceiros, privacidade (por meio de ZKPs) e escalabilidade.
Ainda não há data definitiva para a disponibilidade no varejo, mas a expectativa inicial do Banco Central era iniciar essa fase a partir de 2026. Dada a complexidade dos testes e os ajustes em andamento, esse cronograma poderá ser revisto.
Ou seja: ainda dá tempo de se preparar, mas os primeiros a se mover podem conquistar uma vantagem competitiva.
Conclusão
A gestão de caixa com Drex não é apenas mais rápida.
Ela é radicalmente diferente.
Com liquidações finais, instantâneas e constantes, o Drex redesenha a forma como tesourarias operam.
O capital preso desaparece — em muitos casos. A previsibilidade aumenta. E o caixa se transforma em um ativo de tempo real.
Para quem cuida do financeiro, da contabilidade ou do compliance, o momento é agora.
O futuro da liquidez já está sendo programado — em contratos inteligentes.