Artigo
30/10/2024
Atualizado em 01/05/2026

Gestão de Riscos de Liquidez e as Lições da Crise Bancária de 2023 sobre Comportamento dos Depositantes e Impacto das Taxas

A crise bancária de 2023 evidenciou a rápida retirada de depósitos impulsionada por tecnologias digitais e redes sociais, além do impacto das altas taxas de juros na liquidez e estabilidade dos bancos.

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A recente crise bancária de março de 2023 revelou fragilidades significativas nas estratégias de gestão de risco de liquidez e comportamento dos depositantes nas instituições financeiras globais. Em um contexto de alta volatilidade e rápidas mudanças nas taxas de juros, bancos e outras instituições enfrentaram desafios sem precedentes na manutenção da confiança dos clientes e na preservação da liquidez. Sem falar no crescimento de novas tecnologias bancárias (o eFX e o Pix, por exemplo) e o uso intensivo das redes sociais, que aceleraram o fluxo de informações e rumores, possibilitando que corridas bancárias acontecessem com uma rapidez e intensidade inéditas, exacerbando a vulnerabilidade de bancos já pressionados pela alta nas taxas de juros e por perdas não realizadas em ativos de longa duração.

Inclusive exatamente com base nas lições aprendidas dessa crise, que o Financial Stability Board (FSB) alertou recentemente para a necessidade urgente de adaptação nos mecanismos de gestão de riscos de liquidez, enfatizando a importância do monitoramento contínuo do comportamento dos depositantes e da implementação de práticas robustas de resposta a crises.

Este tema é de relevância crítica para o setor, pois destaca como a interseção entre comportamento dos depositantes, taxas de juros e tecnologia impacta diretamente a estabilidade das instituições financeiras. Em tempos onde a confiança é tão volátil quanto os próprios mercados, compreender e se preparar para essas novas dinâmicas é essencial para a resiliência e sustentabilidade das operações financeiras.

Queria então comentar mais a respeito do tema nos pontos que pessoalmente acho mais relevante:

Uma Transformação Profunda no Comportamento dos Depositantes e o Impacto nisto da Novas Tecnologia

A crise bancária de março de 2023 destacou como os avanços tecnológicos e a difusão de informações digitais transformaram o comportamento dos depositantes, contribuindo para uma dinâmica de retiradas de depósitos mais veloz e de alto impacto. De acordo com o FSB, os aplicativos de banco digital e plataformas de transações online, já populares entre depositantes de varejo e agora crescentemente usados por depositantes corporativos, facilitam uma retirada imediata de fundos em resposta a qualquer indício de instabilidade financeira.

A velocidade dessa movimentação está diretamente relacionada ao acesso instantâneo a informações e à propagação de rumores em redes sociais. No caso do Silicon Valley Bank (SVB), a comunicação sobre problemas financeiros da instituição foi amplamente disseminada nas redes sociais, gerando uma reação quase que instantânea entre depositantes, que retiraram fundos com intensidade recorde, ultrapassando 20% dos depósitos em apenas um dia (olha aí um parâmetro para colocar no seu cenário de stress de liquidez).

Essa combinação de tecnologia de transações e comunicação digital revelou que depositantes, especialmente grandes corporações e investidores de alto patrimônio, estão mais suscetíveis a agir rapidamente, seguindo percepções públicas sobre a saúde de instituições financeiras.

Além disso, também se observou que a tecnologia impactou o perfil da base de depositantes, onde os depósitos intermediados por plataformas digitais e brokers de taxas tornam-se menos cativos, pois os depositantes têm mais facilidade para mudar suas aplicações em resposta a pequenas flutuações de rendimento ou rumores sobre a instituição financeira. Isso sugere que o advento de plataformas digitais que comparam rendimentos pode tornar depósitos bancários mais sensíveis a juros, levando a uma maior rotatividade em cenários de crise. Esta mudança e canal de negociação e novos perfis de aplicadores devem também ser levados em consideração nas suas simulações de liquidez.

Impacto das Taxas de Juros no Risco de Liquidez

Com o aumento abrupto das taxas de juros entre 2022 e 2023, bancos enfrentaram perdas significativas em ativos de longa duração, particularmente títulos de renda fixa cujos valores de mercado caíram conforme os juros subiram. Esse impacto foi particularmente grave em bancos que não realizavam uma marcação a mercado rigorosa de seus ativos. Quando os depositantes perceberam as perdas não realizadas associadas a esses ativos, muitos questionaram a solvência e a saúde financeira dessas instituições, levando a um ciclo de desconfiança e retirada de fundos.

O aumento das taxas de juros também alterou a composição dos depósitos bancários, com uma migração de depósitos transacionais para depósitos mais sensíveis a rendimento. Esse fenômeno reflete a tendência dos depositantes de buscar alternativas mais lucrativas, especialmente em um ambiente onde instrumentos do mercado monetário, como fundos mútuos de curto prazo, oferecem taxas de retorno superiores aos rendimentos dos depósitos bancários tradicionais.

A análise do FSB mostrou que essa migração em direção a depósitos mais sensíveis ao rendimento não apenas aumenta os custos de captação dos bancos, mas também adiciona uma volatilidade significativa, pois esses fundos podem ser retirados rapidamente em resposta a mudanças nas condições de mercado.

Outro fator crítico foi a dependência de muitos bancos de depósitos grandes e não segurados. Instituições como o SVB e o First Republic Bank, que tinham uma base de depositantes concentrada em setores específicos, como startups de tecnologia e investidores de alto patrimônio, viram esses depositantes reagirem mais rapidamente a qualquer indicação de problemas financeiros, o que acelerou o ritmo das retiradas e gerou um impacto severo na liquidez dessas instituições.

Repercussões e Recomendações para a Gestão de Risco de Liquidez

Diante desse novo contexto, o FSB delineou uma série de recomendações para que os bancos e reguladores adaptem suas práticas de gestão de risco de liquidez, que queria lhe passar abaixo:

- Monitoramento em Tempo Real do Comportamento dos Depositantes: Dado o papel crescente das redes sociais na propagação de informações e rumores, o FSB sugere que bancos e reguladores considerem o monitoramento contínuo de atividades online e mídias sociais como um meio de detectar potenciais sinais de estresse antes que eles se transformem em uma corrida bancária. Isso poderia ser feito através de tecnologias de inteligência artificial que identificam picos de menções e discussões negativas sobre uma instituição, permitindo respostas mais ágeis a ameaças emergentes.

- Preparo para Acesso Rápido às Facilidades de Liquidez: O FSB recomenda que bancos aprimorem seus planos de acesso a facilidades de liquidez oferecidas por bancos centrais. Essa prontidão poderia incluir linhas de crédito contingentes e acordos pré-negociados para liberação imediata de liquidez em situações de crise. Essa medida é essencial, pois os eventos de março de 2023 mostraram que a velocidade dos saques pode rapidamente esgotar as reservas de caixa, mesmo nas instituições mais sólidas.

- Revisão dos Indicadores de Vulnerabilidade Relacionados a Depósitos: O FSB propõe que indicadores de vulnerabilidade sejam ampliados para incluir não apenas métricas de concentração de depósitos e de proporção de depósitos não segurados, mas também novas variáveis que reflitam a sensibilidade a taxas de juros e a “pegajosidade” dos depósitos. Isso permitiria uma supervisão mais detalhada dos pontos críticos de liquidez dentro das instituições financeiras e uma detecção precoce de tendências de comportamento que possam indicar riscos latentes.

- Desenvolvimento de Estratégias de Comunicação Preventiva: A crise destacou a importância de uma estratégia de comunicação preventiva que possa ser acionada em resposta a rumores ou crises emergentes. O FSB sugere que bancos estabeleçam protocolos de comunicação que envolvam stakeholders internos e externos para garantir uma mensagem coordenada e precisa. A disseminação rápida de informações confiáveis e claras pode ajudar a conter pânicos bancários, minimizando o impacto de rumores infundados ou de informações distorcidas nas redes sociais.

- Simulações de Estresse e Cenários de Falha Rápida: A preparação para cenários de falha rápida é crucial, dado que a velocidade dos saques bancários aumentou drasticamente. O FSB incentiva os bancos a realizarem simulações de estresse que contemplem saídas de depósitos em alta velocidade e avaliem a robustez das respostas operacionais. Essa prática pode incluir testes de comunicação em tempo real, otimização de processos de liquidação de ativos e planos de contingência para fornecer liquidez emergencial em condições de mercado adversas.

Como podemos ver acima a crise de 2023 revelou que o sistema bancário global enfrenta um ambiente muito mais complexo e interconectado, onde a confiança dos depositantes pode ser facilmente abalada por informações disseminadas de forma rápida e global. A capacidade dos bancos de gerenciar a liquidez em cenários de alta volatilidade e a habilidade das autoridades em fornecer suporte oportuno serão determinantes para a resiliência do setor financeiro em crises futuras.

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Atualizado Verificado em 16/07/2026

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Autor

LL

Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante