Artigo
04/05/2024
Atualizado em 23/04/2026

Indicadores de Risco Climático

O Banco Central Europeu atualizou seus indicadores para medir riscos climáticos, incluindo emissões financiadas, intensidade de carbono e riscos físicos, aprimorando a avaliação e gestão financeira na transição para economia sustentável.

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Medir e quantificar o risco é sempre um desafio, por isto mesmo queria comentar aqui de que o Banco Central Europeu tem se dedicado a aprimorar as ferramentas e indicadores para avaliação e gestão de riscos relacionados ao clima, tanto que recentemente fez uma atualização de seu pacote de Indicadores de Risco Climático, sempre uma referência importante para quem buscam alinhar suas estratégias e portfólios às exigências de sustentabilidade e às tendências de transição energética global.

O BCE categoriza os riscos de transição como aqueles associados à mudança para uma economia de baixo carbono, incluindo mudanças políticas, legais, tecnológicas, de mercado e de reputação, aonde entre os principais indicadores utilizados estão alguns como:

Emissões Financiadas (FE)

Este indicador mede as emissões de carbono totais de atividades econômicas de alta emissão que podem ser vinculadas ao financiamento por instituições financeiras. Isso é feito através do rastreamento de portfólios de empréstimos e valores mobiliários identificáveis.

Esse indicador é usado para entender a extensão em que o setor financeiro está exposto a setores de alta emissão de carbono e como esse financiamento pode estar alinhado ou não com os objetivos de transição climática.

Intensidade Média Ponderada de Carbono (WACI)

Calculado a partir das emissões de gases de efeito estufa de um devedor/emissor dividido pela receita total do devedor/emissor, aonde este valor é ponderado pelo valor do investimento do credor/titular no devedor/emissor como uma parcela de seu portfólio de investimentos total.

O WACI fornece uma medida comparativa da eficiência de emissões entre diferentes empresas e setores, permitindo aos investidores avaliar riscos e oportunidades de transição.

Já os riscos físicos são definidos como impactos diretos de eventos climáticos extremos e mudanças climáticas progressivas que podem afetar fisicamente os ativos financeiros, aonde os principais indicadores são:

Exposição Potencial em Risco (PEAR)

Este indicador avalia a prevalência de fenômenos naturais e é compilado como uma soma de pontuações de risco, variando de 1 (baixo risco) a 3 (alto risco), oferecendo uma visão geral da exposição potencial a riscos físicos que podem impactar ativos financeiros.

Exposição Normalizada em Risco (NEAR)

Mede as perdas esperadas que instituições financeiras podem enfrentar caso seus devedores não consigam honrar seus empréstimos devido a eventos naturais que danifiquem seus ativos físicos, sendo importante para bancos e investidores ao avaliar a resiliência financeira de devedores em face de desastres naturais.

Exposição Ajustada por Garantias em Risco (CEAR)

Fornece uma estimativa de perdas esperadas dentro de um portfólio de um banco, considerando também o efeito mitigador das garantias vinculadas a um compromisso de empréstimo. Este indicador é uma inovação significativa, pois ajusta as expectativas de perda com base na qualidade e no valor das garantias, oferecendo uma avaliação de risco mais precisa.

A atualização destes indicadores relacionados ao clima pelo Banco Central Europeu (BCE) representa um avanço significativo na compreensão dos desafios e oportunidades que o setor financeiro enfrenta na transição para uma economia verde, ao fornecer uma visão sistêmica para analisar como os mercados financeiros estão lidando com a transição verde e como as instituições financeiras podem ser afetadas pelas mudanças climáticas.

Em todos os riscos existem desafios, mas também oportunidades. Vejam o que tem acontecido com o mercado dos chamados "títulos verdes", que tem visto um aumento considerável, aonde desde 2021, a participação de mercado desses títulos cresceu 50%, embora ainda representem apenas cerca de 6% do mercado total na área do euro.

E uma das inovações mais importantes introduzidas pelo BCE é o indicador de finanças sustentáveis, que distingue entre títulos sustentáveis autodeclarados e aqueles que receberam uma segunda opinião externa. Notavelmente, cerca de 85% de todas as emissões de dívida sustentável na área do euro receberam essa segunda opinião, o que proporciona aos investidores uma camada adicional de informação e segurança, mitigando o risco de "greenwashing".

Desde o lançamento inicial dos indicadores relacionados ao clima em janeiro de 2023, houve melhorias significativas na cobertura, consistência temporal e granularidade dos dados, fruto também dos feedbacks recebidos.

Os indicadores de finanças sustentáveis detalhados no documento do Banco Central Europeu (BCE) abrangem principalmente a emissão e posse de títulos de dívida sustentáveis dentro da área do euro, e são construídos com base em dados granulares e harmonizados obtidos de fontes oficiais do Sistema Europeu de Bancos Centrais (ESCB), usando principalmente o Banco de Dados Centralizado de Títulos (CSDB) e as Estatísticas de Posse de Títulos (SHS).

Vou tentar explicar e detalhar um pouco mais abaixo:

Emissão de Títulos Sustentáveis

Os indicadores sobre a emissão de títulos sustentáveis concentram-se em títulos classificados como "verdes", "sociais", "sustentáveis" ou "ligados à sustentabilidade". O BCE utiliza uma classificação detalhada para diferenciar esses títulos com base em se eles são auto-declarados ou se possuem uma segunda opinião externa (SPO). Essa distinção é usada para aumentar a transparência e reduzir o risco de "greenwashing", onde os benefícios ambientais de um produto ou prática podem ser exagerados.

Posse de Títulos Sustentáveis

Os indicadores relacionados à posse de títulos sustentáveis seguem uma abordagem similar, detalhando quais tipos de títulos sustentáveis são mantidos pelos investidores na área do euro e em que medida esses títulos são cobertos por uma segunda opinião externa. A inclusão desses detalhes ajuda a avaliar o grau de rigor e confiança que os investidores podem depositar nessas classificações de sustentabilidade.

Interessante ver de que eles continuam trabalhando e tendo aprimoramentos planejados para os indicadores de finanças sustentáveis, para refletir com mais precisão o financiamento de atividades sustentáveis, o que inclui:

Expansão dos Dados Disponíveis

O BCE tem como objetivo aumentar a quantidade e a qualidade dos dados disponíveis, incorporando mais fontes de dados e refinando os métodos de coleta e análise.

Inclusão de Novos Indicadores

Serão considerados novos indicadores que possam captar melhor a complexidade e a natureza multifacetada das finanças sustentáveis, o que deve incluir métricas que diferenciem mais claramente entre diferentes tipos de projetos sustentáveis ou que avaliem o impacto direto dos financiamentos em termos de resultados ambientais ou sociais.

Melhoria na Metodologia

O BCE planeja aprimorar a metodologia usada para calcular e apresentar os indicadores, para aumentar sua relevância e utilidade para os formuladores de políticas e para o mercado.

Esses aprimoramentos são parte do compromisso contínuo do BCE com a transparência e a responsabilidade no monitoramento e na promoção de finanças sustentáveis, ajudando a direcionar mais capital para investimentos que apoiam objetivos ambientais e sociais, enquanto proporcionam um quadro claro e confiável para os investidores.

Já os indicadores de emissões de carbono são importantes para entender a exposição do setor financeiro a modelos de negócios intensivos em carbono e as implicações dessas exposições para a transição para uma economia de baixo carbono, visando quantificar e monitorar a quantidade de emissões de carbono associadas às carteiras de títulos e empréstimos das instituições financeiras, usados para avaliar tanto o papel do setor financeiro no financiamento da transição para uma economia net-zero quanto os riscos associados à transição para modelos de negócios com menor intensidade de carbono.

O BCE utiliza uma abordagem detalhada para medir duas dimensões principais: Emissões Financiadas (Financed Emissions - FE) e Intensidade de Carbono Ponderada (Weighted Average Carbon Intensity - WACI), detalhadas acima.

Para os próximos anos, o BCE planeja várias melhorias nos indicadores de emissões de carbono, visando aumentar a precisão, a cobertura e a utilidade dessas métricas:

Aprimoramento Metodológico

O BCE pretende refinar a metodologia de cálculo dos indicadores, particularmente na maneira como as emissões financiadas são atribuídas e calculadas, e assim melhorar as técnicas de imputação para preencher lacunas de dados e aprimorar os algoritmos para ajustar melhor as mudanças na composição dos portfólios ao longo do tempo.

Inclusão de Dados Adicionais

Há planos para integrar dados adicionais que possam fornecer uma visão mais completa do papel do setor financeiro no financiamento de emissões, em especial dados sobre emissões indiretas (Scope 2 e Scope 3) que atualmente são mais desafiadores de serem coletados e quantificados.

Expansão de Indicadores

O BCE está explorando a expansão dos indicadores para cobrir não apenas as emissões diretas e indiretas associadas aos portfólios existentes, mas também para incluir métricas que possam avaliar a eficácia das políticas de transição climática implementadas pelas empresas financiadas.

Transparência e Acesso a Dados

Uma ênfase contínua será colocada em melhorar a transparência e o acesso aos dados, permitindo que uma gama mais ampla de stakeholders utilize esses indicadores para informar decisões relacionadas ao clima.

Estas melhorias pretendem reforçar a capacidade dos indicadores de emissões de carbono do BCE para fornecer insights valiosos sobre como o setor financeiro pode e está contribuindo para a transição para uma economia mais sustentável.

Quanto aos Indicadores de Risco Físico são usados para avaliar o impacto dos perigos naturais resultantes das mudanças climáticas sobre o desempenho dos portfólios de empréstimos, títulos e ações das instituições financeiras, para entender como eventos climáticos extremos e mudanças climáticas progressivas podem afetar os ativos financeiros.

Os indicadores de risco físico focam em uma variedade de riscos agudos e crônicos, podendo ser caracterizados em:

Identificação e Quantificação de Riscos

O BCE desenvolveu uma metodologia para identificar e quantificar a exposição a riscos físicos como inundações, incêndios florestais, tempestades de vento e estresse hídrico, que são medidos através de pontuações de risco variando de baixo a alto risco, baseados em dados geoespaciais e históricos.

Perdas Financeiras Esperadas

Os indicadores também quantificam as perdas financeiras esperadas que as instituições financeiras podem sofrer devido à incapacidade dos devedores de honrar seus empréstimos após um evento natural, considerando a probabilidade de ocorrência do evento e a vulnerabilidade dos ativos financeiros afetados.

Modelagem de Cenários

O BCE utiliza modelagem de cenários para prever potenciais perdas financeiras sob diferentes cenários climáticos, com as análises de linhas de base históricas e projeções futuras para entender melhor como os riscos físicos podem evoluir sob mudanças climáticas.

Para os próximos anos, o BCE planeja aprimorar significativamente os indicadores de risco físico, com o objetivo de fornecer análises mais precisas e úteis para as instituições financeiras e formuladores de políticas, com a expansão dos dados e cobertura, melhorias metodológicas, integração de estratégias de mitigação e ferramentas de visualização e acesso.

Um documento estatístico dedicado fornece mais informações sobre os dados, escolhas metodológicas e limitações restantes, em um esforço do BCE para tornar os dados mais acessíveis e continuamente aprimorar a qualidade dos dados permanecem uma preocupação para os formuladores de políticas e outros stakeholders. A clareza dos dados está melhorando, mas a busca por uma visibilidade ainda melhor continua. Para quem deseja mais detalhes segue o link para baixa:

https://www.ecb.europa.eu/pub/pdf/scpsps/ecb.sps48~e3fd21dd5a.en.pdf

As questões levantadas sobre este tema ainda novo, estão sendo aos poucos progressivamente respondidas, mostrando avanços em títulos sustentáveis, financiamento de emissões de carbono por empréstimos bancários e medidas de proteção contra perdas financeiras devido a inundações. No entanto ainda há muito o que ser feito. Estamos ainda engatinhando no tema. Uma das novas fronteiras da gestão de riscos. Vamos ainda falar muito sobre isto por aqui....

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.
Atualizado Verificado em 16/07/2026

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Autor

LL

Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante