Artigo
23/11/2023
Atualizado em 17/04/2026

Marcos Históricos das Mudanças Climáticas e Seus Impactos no Sistema Financeiro Global com Novos Produtos Verdes

A agenda climática deixou de ser apenas ambiental e passou a integrar estabilidade financeira, gestão de riscos e inovação em produtos sustentáveis no sistema financeiro global.

Resumo

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Ontem no almoço com o colega Luiz Antonio Fossa falamos sobre o tema do ESG, e queria aproveitar a conversa com ele ontem, para dar continuidade e falar hoje aqui um pouco mais sobre ESG, em especial sobre o aspecto ambiental, e comentar um pouco mais da trajetória das mudanças climáticas e a resposta institucional a ela, mostrando ainda que alguns mais céticos não acreditem, na evolução crescente de conscientização e ação sobre o tema.

Afinal cada um dos marcos abaixo representa não apenas um passo em direção à sustentabilidade, mas também uma evolução no entendimento dos riscos climáticos que afetam a estabilidade financeira global.

Começando desde o histórico Protocolo de Montreal em 1987, o mundo tem testemunhado um esforço coletivo para endereçar as preocupações ambientais em várias frentes. O Protocolo de Montreal foi um dos primeiros esforços internacionais significativos para regular substâncias que empobrecem a camada de ozônio, marcando o início de uma nova era da chamada: "governança ambiental".

Depois disto a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), estabelecida em 1992, solidificou o compromisso internacional para estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa, pavimentando o caminho para o importante Protocolo de Kyoto em 1997, que estabeleceu metas obrigatórias de redução de emissões para os países desenvolvidos.

A virada do milênio viu uma aceleração nas iniciativas, como o Projeto de Divulgação de Carbono em 2000, que começou a integrar riscos climáticos no âmbito financeiro, pedindo transparência nas emissões de carbono das empresas. Os Padrões de Relatórios de Sustentabilidade da Global Reporting Initiative (GRI) de 1997 e o Protocolo de Gases de Efeito Estufa de 2001 seguiram essa tendência, aumentando a demanda por divulgação ambiental.

em 2003 os Princípios do Equador forneceram um quadro para as IFs gerenciarem riscos sociais e ambientais em projetos de financiamento de projetos e, em 2006 os Princípios de Investimento Responsável (PRI) incentivaram uma incorporação sistêmica de considerações ESG (ambientais, sociais e governança) nos processos de decisão de investimento.

A adoção do Ato de Mudança Climática pelo Reino Unido em 2008 e a Lei de transição energética para o crescimento verde (LTECV) pela França em 2015 exemplificam a legislação nacional que busca mitigar o impacto climático e refletem a integração dos riscos climáticos no planejamento político e econômico.

O Acordo de Paris de 2015, sob a liderança da UNFCCC, estabeleceu um marco global para a redução de emissões, com o objetivo de limitar o aumento da temperatura global. Este acordo também sinalizou uma mudança significativa na forma como os riscos climáticos são percebidos no contexto financeiro, influenciando a criação do Grupo de Estudo sobre Finanças Verdes e as Recomendações da Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD) em 2017, que realçaram a necessidade de divulgar financeiramente os riscos climáticos.

O reconhecimento da relevância dos riscos climáticos continuou com a atribuição do Prêmio Nobel de Economia a William D. Nordhaus em 2018, por integrar a mudança climática na análise econômica de longo prazo. Isso reforçou a urgência de considerar a mudança climática nas decisões financeiras e econômicas.

Os eventos subsequentes, como o seguimento mundial de protesto pelo clima em 2019 e o compromisso do Reino Unido de alcançar emissões de gases de efeito estufa zero até 2050, mostram um crescente movimento global em direção a políticas mais robustas de mudanças climáticas.

A Plataforma Internacional de Finanças Sustentáveis (IPSF) e o Pacto Verde Europeu, ambos lançados em 2019, são exemplos de como os riscos climáticos estão sendo integrados nas agendas financeiras e de desenvolvimento em várias regiões.

Cada um desses marcos representa um aumento na compreensão dos riscos climáticos e na necessidade de integrá-los na gestão de riscos financeiros. As instituições financeiras agora estão sob crescente pressão regulatória e de mercado para desenvolver análises de risco climático robustas e integrar considerações de sustentabilidade em todas as decisões de negócios.

Olhando para o futuro, a trajetória dos marcos históricos das mudanças climáticas indica uma transição em direção a uma economia global mais sustentável e de baixo carbono. À medida que nos aproximamos de 2030 e além, é provável que vejamos uma aceleração nas políticas, inovações e práticas financeiras que buscam mitigar e adaptar-se às mudanças climáticas, com o objetivo de alcançar as metas ambiciosas de emissões para 2050 e depois. A jornada é complexa e requer uma transformação sistêmica que só pode ser alcançada através da colaboração entre governos, setor privado e sociedade civil.

A adaptação dos agentes econômicos às novas realidades sociais, a aceleração das mudanças regulatórias emergentes e a demanda dos investidores por respostas às mudanças climáticas são desafios significativos que não podem ser ignorados. Este novo contexto exige um reconhecimento do risco climático como um risco transversal emergente, indispensável para uma compreensão aprofundada de sua natureza, uma avaliação precisa de seu impacto e sua plena integração nos modelos de gestão de riscos corporativos. Paralelamente, as empresas devem revisar suas estratégias e iniciar planos de transformação dos seus modelos de negócio para se alinharem com as expectativas de um mercado cada vez mais orientado para a sustentabilidade.

Segue alguns temas que devem ser foco de nossa atenção das áreas de gestão de riscos que vão precisar se ajustar para atender estes pontos abaixo:

  • Natureza dos Riscos Climáticos: Aprofundar no entendimento dos riscos relacionados às mudanças climáticas e na estrutura regulatória associada é o primeiro passo. Isso inclui não apenas reconhecer as implicações diretas e indiretas das mudanças climáticas sobre as operações corporativas, mas também entender como as novas regulamentações podem moldar um novo ambiente operacional. Ficar de olho e bem informado do que está sendo discutido e definido.
  • Princípios de Gestão de Riscos Climáticos: A revisão dos princípios de gerenciamento desses riscos passa por uma análise crítica do mapa de riscos, governança corporativa, metodologias de avaliação, integração na gestão e processos de relatório. Isso permite às empresas identificar onde os riscos climáticos se encaixam dentro do espectro de riscos a serem geridos e como eles podem ser monitorados e mitigados de forma eficaz.
  • Metodologias de Avaliação no Setor Financeiro: Profundidade técnica é requerida para avaliar os riscos climáticos no setor financeiro, considerando seus diferentes usos regulatórios e gerenciais. A compreensão dos riscos climáticos deve ser integrada às práticas regulatórias existentes, incluindo a supervisão micro e macroprudencial, para garantir a resiliência financeira em face de eventos climáticos extremos e transições econômicas.
  • Riscos Climáticos na Avaliação de Ativos Financeiros: A incorporação dos riscos climáticos na avaliação de ativos financeiros é complexa, dada a multiplicidade de cenários possíveis e o impacto desses riscos na performance financeira a longo prazo. As instituições financeiras devem desenvolver ferramentas que permitam uma análise prospectiva dos ativos, considerando os riscos climáticos como um componente central na determinação do valor.

A transformação necessária é profunda e abrangente, exigindo uma mudança paradigmática que integra o risco climático não apenas como uma linha de pensamento isolada, mas como um fator intrínseco a todas as atividades econômicas e decisões financeiras. A transição para uma economia de baixo carbono é tanto um imperativo ambiental quanto uma oportunidade para o setor financeiro liderar a inovação em produtos e serviços sustentáveis, garantindo a sua própria resiliência e a da economia global que ele apoia.

Mas não queria me limitar apenas aos riscos, afinal esta mudança climática e a transição para uma economia de baixo carbono trazem também consigo não apenas todos estes desafios, mas também algumas interessantes oportunidades significativas para o setor financeiro. A demanda por capital e financiamento para suportar esta transição é substancial, e o setor financeiro está respondendo com o desenvolvimento de uma gama de produtos financeiros sustentáveis. Esses produtos não são apenas inovadores, mas também críticos para fomentar práticas empresariais responsáveis e para financiar a mudança para práticas sustentáveis em larga escala.

Os produtos de ativo por exemplo incluem:

  • Empréstimos Sustentáveis: Que vinculam a aplicação dos fundos a projetos de sustentabilidade, oferecendo termos preferenciais, como taxas de juros mais baixas, para incentivar práticas de negócios responsáveis.
  • Créditos Sustentáveis: Incluindo Créditos Verdes, que se destinam a financiar projetos com impacto ambiental positivo, Créditos Sociais, voltados para projetos com benefícios sociais, e Microcréditos Sociais e de Impacto, que visam apoiar pequenos empreendedores e comunidades em desenvolvimento.
  • Agronegócio e Hipotecas Verdes: Financiamentos específicos para o setor agrícola que promovem práticas agrícolas sustentáveis e hipotecas que incentivam a construção ou renovação de imóveis com alto padrão de eficiência energética e impacto ambiental reduzido.

No que se refere aos fundos de investimento temos:

  • Fundos de Investimento Verdes: Que alocam recursos em ativos ambientalmente sustentáveis, como energias renováveis e tecnologias limpas.
  • Fundos de Investimento Sociais: Que visam gerar impacto social positivo, investindo em empresas que demonstram práticas empresariais éticas e responsabilidade social.
  • Fundos de Investimento Mistos ou Sustentáveis: Que combinam critérios verdes e sociais em suas estratégias de investimento, oferecendo uma abordagem integrada à sustentabilidade.

Os produtos de passivo também refletem essa mudança para a sustentabilidade:

  • Financiamento através da Emissão de Créditos: Com a emissão de títulos verdes, que seguem os Princípios dos Títulos Verdes; títulos sociais, que se baseiam em princípios de vínculo social; e títulos sustentáveis, que combinam aspectos verdes e sociais. Também há títulos de transição e títulos vinculados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que visam financiar a transição para economias de baixo carbono e práticas sustentáveis.

Além disso, os serviços associados a esses produtos financeiros incluem:

  • Bookrunner na Emissão de Títulos Sustentáveis: Atuando como agentes principais na emissão de títulos sustentáveis por corporações ou outros bancos, garantindo a eficiência e a conformidade com padrões sustentáveis.
  • Assessoria Financeira e Serviços Bancários Privados em Questões Sustentáveis: Oferecendo consultoria especializada para empresas e investidores que buscam integrar a sustentabilidade em suas estratégias financeiras e operacionais.

Essa inovação nos produtos financeiros sustentáveis é importante para canalizar o investimento para áreas que suportam a mitigação e adaptação às mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que oferecem oportunidades de retorno ajustadas ao risco para investidores conscientes dos desafios ambientais e sociais atuais. À medida que a transição energética se acelera, espera-se que a demanda por esses produtos financeiros sustentáveis continue a crescer, desempenhando um papel crucial na remodelação do panorama financeiro global e na promoção de um futuro mais sustentável.

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Perguntas e respostas

Como os marcos climáticos afetaram o setor financeiro?
Ampliaram expectativas de mensuração, divulgação, gestão de riscos e direcionamento de capital para atividades sustentáveis.
Quais riscos climáticos entram nas decisões?
Eventos físicos e mudanças tecnológicas, regulatórias e de mercado associadas à transição para uma economia de baixo carbono.
Que produtos verdes são mencionados?
Títulos verdes e sociais, fundos sustentáveis, linhas de crédito e instrumentos voltados a projetos ambientais e de impacto.
Por que a divulgação é importante?
Permite comparar exposições, compromissos e resultados e apoia decisões de investidores, instituições e demais stakeholders.

Conteúdo gerado com apoio de IA. Não substitui análise profissional.

Autor

LL

Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante