Mercados fortes nem sempre significam fundamentos sólidos, mas muitas vezes o que parece robustez pode ser apenas excesso de liquidez, otimismo concentrado, complacência com riscos e uma leitura seletiva dos sinais econômicos, pois é justamente nesses momentos, quando os preços sobem, os spreads se estreitam, a volatilidade parece controlada e a narrativa dominante passa a ser a de que “desta vez é diferente”, que a gestão de riscos precisa trabalhar com mais disciplina, independência e profundidade.
O ponto relevante que trago no texto acima é simples mas desconfortável, de que uma correção abrupta raramente começa quando todos estão pessimistas, mas costuma nascer quando o mercado já precificou demais o cenário favorável e passou a tratar fragilidades como ruído.
Assim, os juros elevados por mais tempo, endividamento crescente, deterioração de crédito, concentração em poucos ativos, dependência excessiva de tecnologia, tensões geopolíticas, fragilidade fiscal e desalinhamentos de liquidez podem permanecer escondidos por algum tempo sob a superfície dos preços.
Vejam de que risco não desaparece porque foi ignorado, mas apenas se acumula!
Para empresas, bancos, investidores e conselhos, a lição é clara de que não basta acompanhar indicadores de mercado, mas é preciso avaliar a qualidade dos fundamentos, a sustentabilidade dos fluxos de caixa, a resiliência dos balanços, a profundidade da liquidez, a concentração das exposições e a capacidade real de reação em cenários adversos. O erro comum é confundir preço com valor, estabilidade recente com segurança permanente e performance passada com proteção futura.
A boa gestão de riscos não tenta prever exatamente o dia da correção, mas se prepara para sobreviver a ela. Isso exige cenários severos, testes de estresse, limites efetivos, planos de contingência, governança ativa e coragem para fazer perguntas impopulares quando tudo parece estar funcionando. Em ambientes de euforia, o papel do gestor de riscos não é apagar oportunidades, mas impedir que boas oportunidades sejam financiadas por premissas frágeis.
Mostro no texto de que os mercados fortes com fundamentos frágeis são um convite à humildade, e que a disciplina que parece conservadora antes da crise costuma ser a diferença entre atravessar a turbulência com controle ou descobrir, tarde demais, que a sensação de segurança era apenas uma ilusão bem precificada.
Documento disponibilizado pela Okai.