Durante décadas, o CFO brasileiro contou com o intervalo entre receber uma venda e recolher o imposto sobre ela. Nesse tempo, o valor do tributo circulava dentro da empresa, funcionando como uma espécie de capital de giro informal — o chamado "float tributário", prática em que o imposto é temporariamente usado como capital de giro até a data de vencimento.
Com a chegada do split payment, esse recurso é praticamente eliminado.
No modelo atual, a empresa recebe o valor integral da venda e recolhe o imposto depois; com o split payment, ela passa a receber apenas o valor líquido, sem acesso ao valor do imposto.
O cronograma já está desenhado, não tem como correr dele. 2026 é o ano de teste operacional, com alíquota simbólica de 1% dividida entre CBS e IBS, mas em 2027, a CBS entra em vigor de fato, enquanto o IBS segue uma transição mais longa, com substituição progressiva do ICMS e do ISS até 2032/2033.
Isso significa que o tempo de preparação é agora, nesses 4-5 meses restantes do ano e passa por cinco frentes que, na minha visão, ainda estão fora do radar da maioria dos CFOs.
São elas:
1. Gestão clínica de entradas e saídas
O CFO vai precisar tratar caixa como quem trata um paciente em observação constante; sem folga para margem de erro. Um olhar clínico em relação às entradas e saídas, principalmente porque o intervalo que hoje absorve pequenos desencontros de prazo deixa de existir, é a tarefa número 1.
Recomendações: mapear, operação por operação, quanto do caixa atual depende desse intervalo e quanto desaparece no dia em que o split payment entrar em vigor para o seu setor.
2. Revisão da política de parcelamento de clientes
Toda condição de pagamento estendida a um cliente hoje é financiada, em parte, por esse “float tributário”. Sem ele, cada parcela mais longa passa a ser financiada só pela própria empresa.
Recomendações: revisar prazos de parcelamento considerando que o imposto sai antes de o valor total da venda ser recebido, e não depois.
3. Análise de viabilidade por negócio antes de emitir a nota
Nem toda venda vai continuar sendo boa quando o custo financeiro da antecipação do imposto entrar na conta, principalmente as de ticket alto e prazo estendido.
Recomendações: criar um filtro simples de viabilidade financeira antes da emissão, olhando prazo, ticket e margem juntos, não isoladamente.
4. Revisão de precificação considerando a antecipação do imposto
Se o custo de capital de giro sobe, e o preço não é revisado, quem absorve a diferença é a margem.
Recomendações: simular o novo custo financeiro por linha de produto ou serviço e verificar se ele já está embutido no preço praticado hoje.
5. Análise de acesso a crédito para cobrir o gap de caixa
A perda dessa flexibilidade exige reavaliação de linhas de crédito que hoje compensam o intervalo entre venda e recolhimento. Esperar o gap aparecer para negociar crédito é o pior momento possível para negociar qualquer coisa.
Recomendações: mapear hoje, com o banco, linhas pré-aprovadas específicas para esse cenário — antes que o mercado inteiro esteja pedindo a mesma coisa ao mesmo tempo.
O ano de 2026 é a fase de teste, portanto, a alíquota simbólica de 1% ainda não vai quebrar o caixa de ninguém.
Mas é exatamente por isso que este é o momento certo para revisar essas cinco frentes. O custo de errar agora, em ambiente controlado, é muito menor do que o custo de errar em 2027, quando a CBS já estiver valendo para valer.
O fiscal sempre foi papel do time técnico e o caixa é papel do CFO.
Na era do split payment, os dois times vão precisar estar na mesma mesa e quanto antes isso acontecer, menor o susto lá na frente.
Consulta disponibilizada pela Okai.