Estava outro dia lendo um texto da consultoria EY que me chamou atenção, pois levantava alguns pontos bem interessantes para o dia a dia e responsabilidades do comitê de auditoria, que me deparo no meu dia a dia, e por isto mesmo resolvi compartilhar com vocês. Nele colocavam algumas perguntas (ou melhor quase que dentro destas perguntas um roteiro do que devem fazer) que este comitê deveria sempre se perguntar, como:
1) As análises de cenário consideram uma série apropriada de cenários extremos e até improváveis, incluindo ameaças existenciais? Elas incorporam os potenciais efeitos cumulativos de vários riscos? As premissas que sustentam os planos estratégicos da organização ainda são válidas?
Acredito que sim, as análises de cenário são essenciais no planejamento e gestão de riscos, e devem sim incluir cenários extremos e até improváveis, inclusive ameaças existenciais, dependendo do objetivo da análise e do escopo da organização. É importante lembrar que as análises de cenário não buscam prever o futuro, mas sim explorar diferentes possibilidades para ajudar a organização a se preparar para diferentes desafios e oportunidades, caso um deles aconteça. Fundamental estar preparada e discutir antes e saber o que fazer caso ele venha a se concretizar.
Quanto aos potenciais efeitos cumulativos de vários riscos, isso pode ser levado em consideração em uma análise de cenário. Por exemplo, a análise pode considerar como um evento climático extremo, como o recente terremoto na Turquia ou as chuvas no Litoral, poderia afetar não apenas as operações da organização, mas também a infraestrutura local e a economia regional, o que poderia ter impactos em cascata na organização.
No que diz respeito às premissas que sustentam os planos estratégicos da organização, é importante que essas premissas sejam constantemente avaliadas e atualizadas à medida que novas informações se tornam disponíveis e as condições mudam. As análises de cenário podem ajudar a identificar suposições que não são mais válidas ou a considerar novas tendências e desenvolvimentos que possam afetar a estratégia da organização.
2) Os testes de estresse da organização levaram em conta a inflação contínua, aumentos de taxas de juros, tensões geopolíticas, escassez de mão de obra, mudanças tecnológicas, mudanças nas preferências do consumidor ou mudanças climáticas?
Acho que sim, estes testes de estresse da organização devem sim incluir diferentes cenários para testar a capacidade da organização de lidar com diferentes fatores de risco. Normalmente eles são limitados aos mais prováveis ou históricos, e poucos extremos e impactantes (para ambos os lados). Alguns dos fatores mencionados na pergunta acima, como inflação contínua, aumento de taxas de juros, tensões geopolíticas e escassez de mão de obra, são a nossa realidade atual, e deveriam ser frequentemente incluídos em testes de estresse financeiros, que visam avaliar a resiliência financeira da organização em diferentes cenários adversos.
Mudanças tecnológicas e mudanças nas preferências do consumidor também podem ser consideradas em testes de estresse, especialmente se essas mudanças tiverem um impacto significativo no modelo de negócios da organização ou na demanda pelos seus produtos e serviços. Veja casos recentes como do varejo como a Tok&Stock ou lá fora da Bed&Bath em que não se ajustaram às mudanças de consumo e demanda pós-pandemia.
Mudanças climáticas também podem ser um fator importante em alguns setores, especialmente para organizações que dependem de recursos naturais ou que estão expostas a eventos climáticos extremos. Testes de estresse que consideram cenários de mudanças climáticas podem avaliar como a organização responderia a eventos climáticos extremos, interrupções no fornecimento de recursos ou a um aumento da demanda por produtos ou serviços relacionados ao clima, e que aqui entra por exemplo o importante setor agrícola nacional.
Em resumo, os testes de estresse da organização podem levar em conta uma ampla gama de fatores de risco, dependendo do setor, modelo de negócios e estratégia da organização. É importante que esses testes sejam revisados e atualizados regularmente à medida que as condições mudam e novos riscos emergem, e não fiquem limitados apenas a um exercício por ano.
3) A organização realizou análises de modelagem de risco financeiro para avaliar cenários de rotina (baixo impacto, alta probabilidade) em comparação a cenários imprevisíveis e desconhecidos (alto impacto, baixa probabilidade)?
As análises de modelagem de risco financeiro devem sim incluir cenários de rotina, como os de baixo impacto e alta probabilidade, porém não devem se limitar apenas a estes, mas também devem incluir a avaliação de eventos imprevisíveis e desconhecidos, como os chamados "cisnes negros" (black swans), que possuem alto impacto e baixa probabilidade de ocorrer. Normalmente o problema do stress é que se limitam apenas aos primeiros, e não se exercitam com algo mais, digamos, desafiador, pois acham que não vão acontecer, mas a tempestade perfeita como vimos na pandemia pode um dia acontecer.
A modelagem de risco financeiro pode ser feita usando diferentes técnicas, como simulações Monte Carlo ou análise de cenário, seja ele determinístico ou histórico. É importante, como disse, que essas técnicas sejam capazes de avaliar a possibilidade de eventos raros, mas potencialmente catastróficos, e suas consequências para a organização, como terremotos ou chuvas fortes, crises políticas ou econômicas internacionais, ou avanços tecnológicos disruptivos. Tudo um pouco do muito que temos visto nos últimos poucos anos, pois isto pode ajudar a organização a se preparar para um futuro incerto, identificar lacunas na gestão de risco e desenvolver planos de contingência adequados para lidar com eventos de alto impacto e baixa probabilidade.
4) Houve alguma mudança significativa nos controles internos sobre relatórios financeiros ou controles e procedimentos de divulgação a fim de abordar as mudanças no ambiente operacional? Alguma iniciativa de economia de custos e esforços relacionados impactaram recursos ou processos fundamentais nos controles internos sobre relatórios financeiros? Em caso afirmativo, a administração identificou controles mitigadores para tratar eventuais lacunas?
O que posso dizer para começar é que a implementação de controles internos em uma empresa é uma prática comum e importante para garantir a confiabilidade dos relatórios financeiros e prevenir fraudes.
As mudanças no ambiente operacional podem impactar a forma como os controles internos são implementados e gerenciados. Por exemplo, o uso de tecnologias novas pode exigir a implementação de novos controles internos ou a atualização dos já existentes. Da mesma forma, a redução de custos pode impactar a alocação de recursos para os controles internos, o que pode levar à necessidade de identificar novos controles mitigadores para preencher possíveis lacunas.
Se houve mudanças significativas nos controles internos de uma empresa ou organização, é importante que a alta administração identifique e avalie as possíveis lacunas que possam surgir. É importante que se implemente controles mitigadores adequados para lidar com essas lacunas e garantir a eficácia dos controles internos.
5) A empresa realizou modelagem e planejamento de cenários refletindo possíveis mudanças na política tributária e nos desenvolvimentos comerciais?
A empresa deve sim realizar modelagem e planejamento de cenários refletindo possíveis mudanças na política tributária e nos desenvolvimentos comerciais, dependendo do setor e do ambiente em que opera. As mudanças na política tributária, com as que estão sendo discutidas neste momento no congresso, e que devem ser apresentadas segundo o Haddad disse em recente evento do BTG, que até maio vamos conhecer a base desta reforma, que pode sim ter um impacto significativo nas finanças da empresa, afetando sua capacidade de gerar lucros e investir em novos projetos. Da mesma forma, as mudanças nos desenvolvimentos comerciais podem afetar a demanda pelos produtos e serviços da empresa, sua concorrência e suas oportunidades de crescimento.
A modelagem de cenários pode ajudar a empresa a avaliar diferentes possibilidades e identificar os riscos e oportunidades associados a cada cenário. Por exemplo, a empresa pode considerar cenários de aumento de impostos, mudanças na regulamentação tributária ou políticas comerciais restritivas. Em seguida, pode avaliar como esses cenários afetariam suas finanças, seus clientes, fornecedores e concorrentes, e sua estratégia de negócios em geral.
Me faz lembrar por exemplo o segmento de bebidas, no qual trabalhei alguns anos na tesouraria e gestão de riscos, e que é forte pagadora de impostos (até devido ao formato usado para mitigar a sonegação), aonde qualquer mudança pode impactar não apenas financeiramente, mas fazer um alta de preços, que impactam nas vendas. Veja o caso recente do setor de combustíveis, que por sinal impactam toda a cadeia produtiva, e em especial as empresas de transporte, que tem o custo muito baseado nisto. Veja o impacto que teve nesta cadeia o aumento do petróleo e a baixa dos impostos, e agora a discussão de aumentar novamente.
Com base nessa análise, a empresa pode desenvolver planos de contingência e estratégias para mitigar o impacto dos riscos identificados e aproveitar as oportunidades que surgem. E como dito acima, e repetindo mais uma vez dado sua relevância, é importante que a modelagem de cenários seja revisada regularmente à medida que as condições mudam e novos riscos emergem.
6) A empresa tem controles e procedimentos suficientes sobre dados não financeiros? A auditoria interna está fornecendo algum tipo de cobertura de auditoria sobre dados relacionados a ESG ou a empresa está obtendo alguma garantia externa?
Os dados não financeiros, especialmente aqueles relacionados ao ESG (ambiental, social e governança), tornaram-se cada vez mais importantes para as empresas, acionistas e mercado em geral. Por isso, é importante que as empresas tenham controles e procedimentos suficientes para garantir a qualidade e confiabilidade desses dados.
A auditoria interna pode desempenhar um papel importante na avaliação dos controles e procedimentos relacionados aos dados não financeiros. Eles podem conduzir avaliações de risco e testes de controles para identificar potenciais falhas nos processos de coleta, armazenamento e relato desses dados. Além disso, a auditoria interna pode fornecer recomendações para melhorar a qualidade dos dados e reduzir o risco de erros e fraudes.
No entanto, é importante lembrar que a auditoria interna é uma função de garantia interna e pode haver limitações em sua capacidade de fornecer uma garantia completa sobre a qualidade dos dados não financeiros. Nesse caso, a empresa pode buscar garantia externa, por meio da contratação de uma empresa de auditoria independente, para fornecer uma avaliação objetiva dos dados não financeiros.
Em resumo, é importante que a empresa tenha controles e procedimentos adequados para garantir a qualidade dos dados não financeiros e que a auditoria interna esteja envolvida na avaliação desses controles. Além disso, a empresa pode considerar a obtenção de uma garantia externa para complementar as atividades de auditoria interna e fornecer uma avaliação independente dos dados não financeiros.
7) Caso as questões relacionadas a ESG estejam sendo discutidas em mais de um lugar (por exemplo, relatórios de lucros, comunicados de analistas, informes anuais e carta de acionistas, relatório de sustentabilidade e outros), há consistência nas divulgações? A empresa avaliou controles relacionados a essas divulgações?
A consistência nas divulgações de informações relacionadas a ESG é crucial para a transparência e a credibilidade da empresa. Quando informações inconsistentes ou conflitantes são divulgadas, isso pode prejudicar a confiança dos investidores e outros acionistas na empresa.
Para garantir a consistência nas divulgações de informações relacionadas a ESG, é importante que a empresa tenha processos e controles adequados em vigor. Isso pode incluir a criação de políticas e procedimentos para governança de ESG, a designação de responsabilidades claras para diferentes partes envolvidas na divulgação de informações e a revisão cuidadosa das informações divulgadas para garantir que sejam precisas e consistentes.
Além disso, a empresa pode considerar a contratação de um auditor independente para revisar suas divulgações de ESG e garantir que sejam consistentes e precisas. Isso pode ajudar a identificar quaisquer discrepâncias ou inconsistências e fornecer recomendações para melhorias.
Aos interessados, até por que se chegou até aqui mostra que quer saber mais, então para aqueles que querem ir mais a fundo neste tema, segue a dica do paper original (em inglês) que estava lendo e de onde tirei estas perguntas acima em: