Um assunto que sempre me interessa é o tema da governança corporativa, ainda mais quando se refere a gestão de riscos.
Estava lendo então um recente material (em inglês) preparado pelo Board Leadership Center da KPMG sobre o tema chamado "Reavaliação da estrutura de conselhos e comitês diante de riscos emergentes", que explora as perspectivas e práticas adotadas por líderes de grandes empresas, com enfoque nas áreas de cibersegurança, inteligência artificial (IA) generativa, clima e outros riscos emergentes.
Para colocar o tema em um contexto atual, nos últimos anos temos observado uma expansão acelerada de riscos em áreas como: cibersegurança, inteligência artificial generativa e questões climáticas. E essa dinâmica tem levado conselhos de administração a repensar suas estruturas de supervisão e a enfatizar a expertise e conhecimento dos membros dos seus conselhos e comitês técnicos de assessoramento, especialmente em relação a riscos novos e emergentes.
Queria trazer abaixo algumas das principais conclusões que este estudo chegou:
- Reexame das Estruturas de Supervisão: Devido à rápida evolução dos riscos, é essencial que os conselhos reavaliem periodicamente suas estruturas de supervisão para verificar se ajustes são necessários.
- Coordenação e Comunicação entre Comitês: A interação entre os comitês e a comunicação eficiente entre estes e o conselho completo são fundamentais.
- Reavaliação das Competências: É importante reavaliar as competências do conselho e dos membros dos comitês para garantir uma supervisão efetiva dos riscos emergentes. Isso pode incluir a adição de novos diretores, a contratação de especialistas externos para educação e/ou consultoria, ou a criação de um conselho consultivo para focar em questões específicas.
Os presidentes de conselhos entrevistados neste estudo destacaram como estão estruturando a supervisão dos riscos nos conselhos e comitês, que dada a velocidade e a complexidade das mudanças no cenário empresarial e de riscos, cada conselho deve reavaliar periodicamente suas estruturas de supervisão existentes, ajustando as responsabilidades dos comitês conforme necessário ou considerando a formação de novos comitês.
Infelizmente poucos participantes indicaram que seus conselhos possuem comitês de risco separados. Para ilustrar, dados de setembro de 2023 mostram que apenas 12% das empresas do S&P 500 possuem um comitê de risco separado. Sendo que a escolha da estrutura de supervisão de riscos pelo conselho é influenciada por diversos fatores, incluindo a indústria da empresa e as demandas regulatórias. Sabemos que setores mais regulados como o financeiro isto já está mais maduro.
No caso de quando múltiplos comitês são responsáveis por diferentes aspectos do risco, a coordenação entre eles e a clareza das responsabilidades são fundamentais. Por exemplo, um comitê de tecnologia pode supervisionar o risco tecnológico, enquanto o comitê de auditoria pode manter a supervisão sobre as divulgações e controles relacionados à tecnologia.
O estudo também destacou alguns riscos que têm chamado mais atenção dos conselhos:
- Cibersegurança: A supervisão do risco de cibersegurança continua a ser um desafio devido à rapidez das mudanças, à complexidade crescente das ameaças (incluindo as relacionadas à IA generativa) e ao potencial impacto dos incidentes cibernéticos. Pessoalmente este é sempre um dos que mais me preocupa nos últimos anos.
- Sustentabilidade: Questões de sustentabilidade estão presentes em todas as agendas dos conselhos, mas a forma de supervisão varia de acordo com a indústria e a empresa específica. A agenda ESG chegou forte e com ela toda a parte de riscos climáticos, por exemplo.
A discussão sobre a adequação dos perfis profissionais e expertise dos membros de conselhos e comitês é importante, especialmente por causa das mudanças tecnológicas rápidas e o surgimento de novos riscos. Por isto mesmo nesse cenário, os conselhos de administração estão atentos às lacunas potenciais nas competências dos seus membros, considerando a importância de alinhar as habilidades destes com os desafios atuais e futuros.
Por exemplo, os comitês de auditoria, tradicionalmente focados em finanças e contabilidade, estão expandindo suas competências para incluir habilidades mais alinhadas com as tecnologias emergentes e riscos de cibersegurança. Esta expansão reflete o reconhecimento da importância crescente de tais riscos no cenário corporativo. A integração de profissionais com backgrounds em tecnologia e cibersegurança é vista como um passo importante para garantir uma supervisão efetiva e atualizada dos riscos corporativos.
Há também, segundo o estudo, uma tendência nova e crescente em diversificar os perfis dos membros dos conselhos, indo além das competências tradicionais. Isso inclui a alteração do escopo e mandato dos comitês, para também abranger áreas de risco. Essa abordagem permite que os conselhos realizem uma avaliação das habilidades necessárias e, consequentemente, recrutem candidatos com perfis não tradicionais que possam preencher as lacunas identificadas. Por exemplo, a inclusão de profissionais com experiência em tecnologia, inteligência artificial e regulamentação em setores específicos, como saúde, pode oferecer insights valiosos e relevantes para a gestão de riscos. Esse enfoque ajuda os conselhos a entender e a gerenciar melhor os riscos emergentes que estão se tornando cada vez mais complexos e multifacetados.
Além de ajustar a composição interna dos conselhos e comitês, há também a opção de formar conselhos consultivos ou recorrer a especialistas externos para manter os conselheiros atualizados. Essa abordagem permite que os conselhos se beneficiem de uma gama mais ampla de perspectivas e conhecimentos especializados em gestão de riscos.
É importante enfatizar a necessidade de equilibrar a especialização técnica específica com a experiência de negócios mais ampla. A adição de expertise específica não deve ser feita em detrimento da experiência de negócios ou do conhecimento do setor. Esse equilíbrio depende fortemente do contexto específico da empresa, do setor em que atua e da abordagem do conselho à governança e à sua expertise em evolução.
Essas práticas e reflexões evidenciam uma tendência crescente de adaptação dos conselhos às mudanças no cenário de riscos, buscando um equilíbrio entre expertise técnica e experiência de negócios, essencial para uma governança efetiva e responsável em tempos de transformações rápidas e incertas.
Caso queiram ler também o documento original deste trabalho (em inglês) basta acessar o link abaixo:
Documento disponibilizado pela Okai.