Artigo
20/02/2024
Atualizado em 18/04/2026

Tendências da Governaça Corporativa em Conselhos e Comitês para 2024 segundo estudo da Russell Reynolds

Governança corporativa em 2024 exige conselhos mais preparados para tecnologia, diversidade, ESG, riscos, sustentabilidade e padrões mais rigorosos também em empresas privadas.

Resumo

Imagem de capa do artigo

Estava lendo neste final de semana um artigo da Russell Reynolds Associates escrito pelo Rich Fields e Rusty O’Kelley III com participação do Jacques Sarfatti e do Adriel Soares sobre um tema que sempre me interessa bastante que é a Governança Corporativa, de um estudo que fizeram sobre quais seriam algumas das principais tendências do tema para 2024, que queria compartilhar com vocês.

Como bem sabemos a governança corporativa é um assunto bem dinâmico, que evolui constantemente em resposta às mudanças e os novos desafios, oportunidades e demandas que surgem no mercado, e que direcionam a atenção e prioridade dos acionistas e gestores.

O estudo listou quatro áreas principais que emergem como mais importantes para as empresas e seus conselhos administrativos globalmente, que foram: as inovações disruptivas, o caminho para a paridade, as ações concretas em iniciativas de ESG e, por fim, a migração de padrões de governança de empresas privadas para públicas.

Queria falar abaixo mais um pouco sobre cada uma delas e colocar meu ponto de vista:

Inovações Disruptivas: IA e Outras Tecnologias no Primeiro Plano:

Acho que não é novidade (ou pelo menos deveria ser) para ninguém dos rápidos avanços da Inteligência Artificial (IA), computação quântica e outras tecnologias, juntamente com as crescentes ameaças à segurança da informação e privacidade, que estão no centro das atenções para líderes empresariais e stakeholders.

A discussão sobre esses temas ganhou impulso em 2023, em parte devido à proliferação de ferramentas de IA generativa como o ChatGPT da vida, onde o estudo dizia que mais de 30% das empresas do S&P 500 e cerca de 17% das empresas do Russell 3000 abordaram a IA em suas declarações de apetite a riscos no último ano, o que mostra o crescimento da demanda dos acionistas sobre esse assunto em 2024, enfatizando a governança da IA, seus efeitos na força de trabalho e o uso ético da IA.

Na Europa, as regulamentações digitais como o Digital Services Act (DSA) influenciarão como as empresas conduzem seus negócios com dados capturados por dispositivos inteligentes, enquanto no Brasil, as empresas estão sendo desafiadas a estabelecer procedimentos robustos de cibersegurança.

Caminho para a Paridade e o Foco Global Sustentado na Diversidade:

Os conselhos ao redor do mundo estão dedicando mais tempo à sua própria composição, buscando construir e apoiar conselhos com expertise em assuntos específicos, perspectivas internacionais, diversidade cultural e social, e equilíbrio geracional.

Há um crescimento significativo na diversidade de gênero em conselhos nos últimos anos. Em 2023, principais índices na França, Itália e Reino Unido tinham mais de 40% de seus assentos ocupados por mulheres. Mesmo em países mais distantes da paridade de gênero, como Singapura, Malásia e Brasil, há progresso, com um aumento na busca por diversidade em outras dimensões, como etnia e idade.

Pessoalmente defendo sempre não apenas as diversidades acima listadas pelo estudo, mas também a diversidade de conhecimentos, soft skills e experiências, que tornam as discussões mais produtivas trazendo visões e opiniões diversas, que acredito que ajudem a tomada de decisão melhor. Defendo sempre a melhor gestão dos riscos como uma forma de agregar mais valor.

Mais Ação e Menos Conversa Sobre Iniciativas de ESG:

Enquanto alguns mercados, notavelmente os Estados Unidos, têm visto a politização do ESG, afetando compromissos ambientais e programas de diversidade, equidade e inclusão, líderes empresariais e investidores não estão recuando em seus esforços. Eles continuam a trabalhar em programas que consideram fatores ambientais, sociais e de governança materialmente importantes para o desempenho financeiro.

Em mercados como Austrália e países nórdicos, há uma pressão crescente para aumentar e acelerar saídas de ESG, com foco em planos de transição de carbono e conformidade com novas regulamentações da Europa.

Pessoalmente não acho que o tema seja apenas marketing ou washing, mas que veio para ficar e agregar valor. Não dá mais para tomar decisões sem levar em conta estes princípios básicos, e razão de existir. Muito se fala do E e do S, mas pessoalmente me preocupo mais com o G, que acho que nem sempre é levado a sério como deveria, e acabamos vendo casos de empresas com problemas, por causa exatamente da falta de uma boa governança.

Padrões de Governança Migram com O Privado Olha para o Público:

O interessante que o estudo mostra, é que as empresas não públicas, incluindo companhias de capital privado e negócios familiares, estão começando a adotar padrões de governança e requisitos de relatórios mais rígidos, uma tendência que está crescendo lentamente, mas de forma desigual pelo mundo.

Na Índia, por exemplo, há novas exigências para que promotores de empresas listadas divulguem acordos familiares ativos que influenciam a gestão e controle da empresa. No México, membros do conselho de empresas privadas estão vendo uma profissionalização de suas atividades. Em diversos mercados, incluindo Brasil, Singapura e Estados Unidos, há uma demanda crescente por projetos de eficácia de conselho voltados para o futuro para empresas não públicas.

Bom saber que o tema começa a se espalhar por segmentos que não prestavam atenção ainda. Não foi diferente com a gestão de riscos, que começou a crescer e ser feito em mercados mais regulados e de risco sistêmico, como de bancos, mas que com o tempo passou a ser adotado pelas demais empresas.

Estas tendências refletem um ambiente de governança corporativa em constante evolução, onde a adaptabilidade e a proatividade são relevantes para o sucesso. Por isto mesmo é importante que as empresas e seus conselhos estejam preparados para navegar por essas mudanças, adotando estratégias que não apenas atendam às exigências regulatórias e às expectativas dos stakeholders, mas que também promovam um crescimento sustentável e responsável.

Estas foram tendências globais, que não fogem muito do que também vemos por aqui, mas queria também abordar algumas das tendências locais para o Brasil que o estudo trouxe e eu destaco abaixo:

Navegando pelas Dinâmicas de Sustentabilidade à Frente da COP 2030:

Com a COP 2030 prevista para ocorrer no Brasil, a governança corporativa no país está cada vez mais voltada (que bom) para a sustentabilidade. Os conselhos de administração e os investidores estão analisando estrategicamente as iniciativas de sustentabilidade, construindo suas próprias competências técnicas.

Destaca-se o compromisso precoce da CVM com os padrões ISSB IFRS S1 e S2, posicionando 2024 como um ano crucial para testar padrões regulatórios, antecipando a implementação completa em 2025. Com isto, as empresas brasileiras, esforçando-se para alinhar-se aos padrões de sustentabilidade europeus e americanos, devem colocar a agenda climática no centro de futuras deliberações estratégicas.

Pessoalmente acho o tema bem relevante e que mereceria mesmo atenção de todos, pois se cada um der sua ajuda, teremos certamente um mundo melhor. E nada de "washing" por favor.

Ressurgimento do Mercado de Capitais Exige Mais Atenção do Conselho:

Após dois anos de estagnação e atividade mínima de IPO, o mercado de ações do Brasil mostra sinais de revitalização, com isto certamente os conselhos corporativos vão enfrentar demandas crescentes por mais atenção meticulosa a assuntos fiscais e contábeis, com supervisão rigorosa de potenciais transações e desenvolvimento de competências técnicas internas para avaliações financeiras adeptas. Crises como as fraudes contábeis das Americanas no ano passado só fizeram aumentar a atenção e o cuidado dos demais.

Empresas Estatais em uma Encruzilhada:

Empresas estatais brasileiras enfrentam um momento decisivo, com turbulências regulatórias potencialmente indicando mudanças significativas na governança. Modificações legislativas propostas podem desfazer progressos e expor essas empresas à influência política, impactando privatizações em andamento e desafiando a certeza jurídica do Brasil.

Ênfase Adicional no Planejamento e Supervisão do Capital Humano:

As discussões sobre compensação executiva intensificaram-se em 2023, mas ações tangíveis foram limitadas, agora os conselhos devem priorizar discussões estruturadas e contínuas sobre planejamento sucessório para enfrentar eficazmente os desafios em evolução.

Elevação da Governança Eficaz por meio de Avaliações Estratégicas de Conselhos:

Empresas, tanto privadas quanto públicas, estão cada vez mais focadas em avaliações externas de conselhos, diminuindo a dependência de avaliações internas, e os especialistas em governança veem isso como uma oportunidade para aprimorar as práticas de governança corporativa.

Uma Visão em Evolução sobre a Diversidade no Panorama dos Conselhos:

Além do gênero, os conselhos estão promovendo diversidade em termos de etnia, idade, pensamento, proficiência tecnológica e backgrounds não tradicionais. Em 2024, espera-se que os conselhos fomentem um ambiente inclusivo que busca ativamente perspectivas diversas. Espero que com a inclusão de mais especialistas e discussões relacionadas à gestão de riscos.

Dinâmicas Evolutivas e Fortalecimento do Ativismo de Acionistas:

Apesar da introdução de novas resoluções, o engajamento e o ativismo dos acionistas permanecem limitados, com investidores institucionais tentando aumentar seu ativismo, especialmente no âmbito da divulgação de compensações.

Prontidão para a Digitalização e o Imperativo dos Avanços Tecnológicos:

As empresas estão se deparando com a necessidade de estabelecer procedimentos robustos de cibersegurança e desenvolver protocolos de gestão de riscos. Ao mesmo tempo, os conselhos estão cada vez mais engajados em discussões sobre inovação, novas tecnologias e questões éticas relacionadas à IA.

Este é um tema de gestão de riscos que mais me preocupa, até por ter passado por experiências práticas de ataques cibernéticos em duas empresas que participei, com dois fins distintos, onde a rápida reação, inclusive do conselho e dos planos de contingência e a resiliência operacional, fizeram toda a diferença, de ir para uma RJ com o impacto traumático, e na outra o tema passar quase que despercebido com pouco impacto.

Estas tendências acima que o estudo trouxe indicam um período de transformação positiva e significativa na governança corporativa no Brasil, impulsionando as empresas a adotarem estratégias proativas para navegar em um ambiente de negócios complexo e em rápida mudança. A capacidade das empresas brasileiras de adaptar-se a estas tendências não apenas fortalecerá sua resiliência, mas também posicionará o Brasil como um líder em práticas de governança corporativa sustentável e responsável no cenário global. Tenho confiança nisto.

Plataforma de consulta: Okai.
As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.
Atualizado

Não há sinal de desatualização relevante neste conteúdo.

Perguntas e respostas

Como os padrões ISSB afetam a agenda?
Eles ampliam a preparação para divulgações de sustentabilidade conectadas a riscos, oportunidades e informações financeiras.
Que papel o conselho desempenha em crises cibernéticas?
Supervisionar preparação, recursos, responsabilidades e decisões críticas e assegurar aprendizado e resiliência após o incidente.
Quais competências novas os conselhos precisam desenvolver?
ESG, clima, relatórios, finanças, tecnologia, cibersegurança e IA, além de capacidade de supervisionar riscos e transações complexas.
Por que o mercado de capitais exige atenção adicional?
Transações e retomada de ofertas demandam supervisão contábil, fiscal, financeira, de controles e de alocação de capital.

Conteúdo gerado com apoio de IA. Não substitui análise profissional.

Autor

LL

Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante