Aproveitando ainda o caso da quebra da "exchange", ou melhor, da corretora de crypto ativos (e não moedas) FTX, para abordar um outro risco grande que qualquer investidor corre, ainda que a maioria não saiba que está, o que é ainda pior, pois como sempre digo, o pior risco nem sempre é o maior, mas certamente é aquele que desconhece que está correndo.
Estamos falando aqui do Risco de Crédito do Custodiante, que em um mercado regulado existe todo um cuidado de segregar as custódias, e uma série de controles e limites para evitar o que vimos agora que a FTX, que são seus clientes simplesmente não vendo mais a cor do dinheiro ou do ativo.
Portanto, muito cuidado com quem e aonde vocês operam. Entendam bem como e aonde está sendo feita a custódia de seus ativos, e principalmente o grau de segregação e proteção que existe para estes casos de quebra do custodiante.
Mas este caso me fez lembrar outro não exatamente igual em termos de custódia, mas em termos dos clientes não saberem direito o risco que estavam correndo, quando participei indiretamente, pois era o responsável pelos riscos de mercado e liquidez e capital do banco, mas não da Asset, que tinha um "chinese wall", mas que quando o problema aconteceu, acabou que tive que ir lá ajudar também, quando alguns dos fundos do Asset do finado Boavista, que estavam mais alavancados com posição vendida em dólar, quebraram na desvalorização cambial de jan/99.
Eram fundos muito conhecidos na época, até por serem vencedores há mais de 30 meses dando resultados bem acima do CDI, mas para isto também tinham um risco bem mais alto, que poderia ser visto claramente pelo seu índice de sharp e volatilidade de sua cota de um dia para outro, mas que no final do mês sempre davam retornos bem acima do CDI, atraindo muita gente. Estamos falando aqui do outro risco, desta vez do Risco de Mercado.
Como aliás vejo também acontecer atualmente com as cryptos, tanto o de crédito de contraparte, como o de mercado. Inclusive para mostrar a relevância deste caso, hoje no Brasil tem mais investidor de crypto (em quantidade), do que investe em bolsa por exemplo, e isto (mais uma vez) sem qualquer regulamentação ou mecanismos de proteção deste investidor sem um regulador se preocupando e exigindo das corretoras.
Quando os fundos literalmente quebraram na época, o que vimos foi uma série de casos de pessoas (normalmente mais velhas) que não tinham ideia do risco que estavam correndo, e foram erroneamente orientadas pelos seus gerentes de relacionamento do banco a aplicar nestes fundos de "alto retorno" como se fosse uma coisa quase que garantida (dado que acontece todos os meses há 30 meses). Poupança de vida toda, guardada para o momento da aposentadoria, simplesmente sumiram de um dia para outro. O que vejo são muitos jovens, ainda pouco experientes no mercado, apostando alto e pesado nas cryptos, sempre em uma posição comprada, muitas vezes até alavancada, sem ter ideia do tamanho do risco que estão correndo. Diria que muita gente está aprendendo na prática no momento da crise.
Este caso dos fundos de 99, assim como outros depois, fez com que inclusive as normas mudassem, e fosse exigido de que as instituições deixassem bem clara não apenas o risco que estivessem correndo, mas que fizessem um processo de "suitability", para entender o perfil de apetite a risco de cada cliente, e até limitar alguns fundos mais agressivos apenas para aqueles que realmente tinham este maior apetite e entendimento de mercado e riscos. Uma importante evolução advinda de um aprendizado de uma crise.
Hoje um banco ou corretora de crypto, nos temos de ESG, deveria ter um pouco mais de responsabilidade e cuidado com o suitability para quem opera crypto. Mas não é o que vejo acontecer. Pelo contrário, colocam um marketing tremendo por cima, mostrando ganhos desta onda de preços e lucros com crypto, e o pessoal acha que é quase que certo que também vão ganhar e querem entrar para a festa.
O que aprendi em jan/99, de que sempre alguns querem aproveitar a festa até o final, querendo ser os que vão apagar as luzes, mas esquecem de que muitas vezes a conta desta festa, também fica com este pessoal que quer aproveitar até o final. Estes são os "Salvatore Cacciola" (que quebrou o Banco Marka).
Espero mais uma vez que esta crise atual sirva de lição para todos envolvidos, sejam eles as demais corretoras, os clientes e investidores, e por que não os tradicionais reguladores, de que é preciso (mais uma vez) tratar as Crypto ativos, como se fosse um ativo financeiro, e as exchanges como corretora de ativos financeiros, com toda a proteção necessária para que casos como este não se repitam no futuro.
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