Artigo
17/02/2023
Atualizado em 10/04/2026

Caso Americanas: Risco de Independência das Empresas de Auditoria X Conflito de Interesse

Discussão sobre conflito de interesse e risco de independência de empresas de auditoria a partir dos casos Americanas e Enron e de regras como a Sarbanes-Oxley.

Resumo

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O papo hoje é sobre conflito de interesse, e pegando o gancho do caso das Americanas, que será fonte para discussões e estudos de casos nos mais variados temas. Hoje queria lhe perguntar o que acontece quando alguém se sente coagido a cometer uma fraude a mando de um grande cliente?

Vamos pegar por exemplo o segmento de contabilidade e de auditoria.

O trabalho de um auditor “independente” é salvaguardar o interesse público certificando que uma empresa retratou com precisão suas finanças. No entanto, a firma de auditoria é paga pela empresa que ela audita. Isso pode levar a uma perda de independência. Este é o ponto que queria debater com vocês do conflito de interesse.

Quando um auditor é pago por uma grande empresa para fornecer uma opinião sobre a imparcialidade de suas demonstrações financeiras, eles podem ser pressionados a emitir relatórios enganosos.

Veja o escândalo da Enron, que em 2001 era uma das maiores empresas de energia dos EUA, se desintegrou quase da noite para o dia porque enganou investidores e reguladores com suas participações falsas e contabilidade não oficial. O escândalo revelou que o auditor da Enron, que era na época a Arthur Andersen, uma das cinco grandes firmas de contabilidade pública da época, quando ainda chamávamos de "Big Five", falhou em sinalizar a contabilidade fraudulenta. Depois deste caso viraram apenas as "Big Four"....

Detalhe importante, a Enron pagou à Arthur Andersen mais de US$ 50 milhões em honorários de auditoria e não auditoria. Impulsionado pela atração de ter um cliente tão grande e visível, o sócio responsável pela auditoria possivelmente sucumbiu aos desejos da Enron.

Mas ai veio a famosa Lei Sarbanes-Oxley de 2002 (mais conhecida como: "SOX"), consequência prática exatamente desse desastre financeiro, que introduziu regulamentações aprimoradas para preservar a independência dos auditores, e mais do que isto criminalizar as fraudes e todos envolvidos.

Embora já existam mecanismos para promover a independência do auditor, o que acontece quando auditores e firmas de auditoria são contratados por clientes influentes?

Estava lendo um interessante texto do final do ano passado, resultado do estudo dos professores Jayanthi Krishnan e Jagan (Krish) Krishnan, das cadeiras de contabilidade na Fox School da Temple University (aonde meu filho menor estuda Business na Philadelphia), em que eles exatamente examinaram se a influência do cliente no nível do escritório de auditoria afeta as renúncias do auditor de clientes arriscados em seu artigo.

No estudo eles construíram medidas resumidas de risco de engajamento, usando divulgações de clientes em formulários "8-K", fatores de risco potenciais (por exemplo o risco de litígio) e ação do auditor (por exemplo a emissão de uma opinião de continuidade) nas demonstrações financeiras do ano anterior.

Aliás este importante formulário da Securities and Exchange Commission (SEC), que seria equivalente a nossa CVM, alterou há muito tempo este Formulário 8-K para exatamente exigir que as empresas divulgassem os detalhes das mudanças de auditor, e desencorajar a compra de opiniões de auditoria, depois na década de 80 a SEC começou a exigir a divulgação de questões de controle interno e relatórios financeiros presentes no momento da renúncia ou demissão de um auditor. Na década de 2000 a Lei Sarbanes Oxley (SOX) introduziu regras adicionais de independência do auditor, como a proibição de alguns serviços não relacionados à auditoria. Mais recentemente, a SEC sinalizou sua intenção de modernizar ainda mais as regras de independência do auditor. Em outubro de 2020, por exemplo, a SEC aprovou uma emenda à Regra 2-01 do Regulamento para fornecer aos auditores mais discrição na avaliação de conflitos de interesse ao auditar várias empresas do portfólio de um fundo de investimento.

Com foco em clientes de risco, descobriram que os auditores são, em média, mais propensos a renunciar a clientes influentes, e essa associação positiva é válida para auditores com menor probabilidade de ter mecanismos para mitigar o risco de independência. Além disso, é importante ressaltar que os clientes influentes são predominantes em todo o espectro de tamanho do cliente, e a associação positiva entre a influência do cliente e a renúncia do auditor vale para clientes grandes e pequenos.

A pesquisa não se limitou apenas as grandes empresas como Amazon e Facebook, mas também pequenas empresas, que muitas vezes têm relevância maior na carteira de clientes de auditorias menores. Legal de ver que eles se preocuparam em olhar para clientes que são mais arriscados no sentido de que suas finanças indicam alguns problemas potenciais.

Mas como os auditores tratam esses clientes mais arriscados, e que podem responder por fatias significativas dos fluxos de receita dos auditores na era pós-SOX?

Quando os auditores se deparam com o que chamam de "risco de independência", eles costumam ter duas opções: ou a mais fácil e muitas vezes tentadora de ceder ao que os clientes querem para não perder o negócio, ou desistir deste trabalho e contrato, o que é um passo extremo, mas importante para sua credibilidade. Se um auditor possui controles para mitigar esse risco de independência associado a clientes influentes, não deve haver associação entre finalizar o relacionamento e influência do cliente.

Os pesquisadores descobriram que, em média, os auditores são mais propensos a finalizar o relacionamento de clientes influentes, valendo tanto para grandes quanto para pequenos clientes considerados influentes.

Além disso, constataram que casos de fim de relacionamento são mais concentrados em determinadas situações, como escritórios de auditoria menores ou escritórios de contabilidade ou escritórios de auditoria sem expertise específica. Portanto, embora as empresas devam ter revisões por pares e outros controles de mitigação de risco de independência em vigor, escritórios menores podem não ser capazes de implementá-los com eficácia. Mas importante destacar que eles dizem que a pesquisa deles não deve ser interpretada como significando que auditores menores não respeitam ou seguem as regras de independência.

Esses auditores dão o passo extremo de renunciar a compromissos possivelmente em resposta ao risco de independência. Assim, a independência do auditor não é prejudicada. Mas, como as renúncias de auditores de clientes não são realmente do interesse do cliente ou da profissão de auditoria, o estudo sugere que as empresas de contabilidade devem fortalecer suas políticas internas para lidar com o risco de independência.

O estudo deles é oportuno porque a Securities and Exchange Commission (SEC) dos EUA está atualmente explorando mudanças nas regras de independência do auditor que relaxariam os regulamentos em certos casos. Aqui ainda estamos engatinhando.

Prevenir escândalos financeiros e fraudes é de extrema importância para os auditores. Muitas grandes firmas de contabilidade têm regras que evitam conflitos diretos de independência de seu pessoal. Por exemplo, eles exigem que os novos contratados cumpram os requisitos de independência antes de ingressarem na organização. Os padrões profissionais de contabilidade também podem impedir que funcionários específicos, e seus cônjuges e dependentes, detenham ações negociadas em bolsa de uma empresa que é auditada pela empresa de contabilidade ou por um escritório de auditoria. Esses requisitos são os primeiros passos para que o auditor mantenha sua independência.

O ponto principal é que o auditor deve manter seus controles contra o risco de independência e reter o cliente enquanto conduz a auditoria com integridade. É um ato de equilíbrio para o auditor. E é esse ato de equilíbrio que faz com que os auditores renunciem, em vez de prejudicar sua independência em relação a um cliente influente.

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Perguntas e respostas

Quais elementos estruturam a discussão sobre Caso Americanas: Risco de Independência das Empresas de Auditoria X Conflito de Interesse?
Vamos pegar por exemplo o segmento de contabilidade e de auditoria.
Como o conteúdo contextualiza a aplicação de Caso Americanas: Risco de Independência das Empresas de Auditoria X Conflito de Interesse?
Detalhe importante, a Enron pagou à Arthur Andersen mais de US$ 50 milhões em honorários de auditoria e não auditoria.
Qual é o foco central da análise sobre Caso Americanas: Risco de Independência das Empresas de Auditoria X Conflito de Interesse?
Discussão sobre conflito de interesse e risco de independência de empresas de auditoria a partir dos casos Americanas e Enron e de regras como a Sarbanes-Oxley.
Que aspecto de atenção é destacado em Caso Americanas: Risco de Independência das Empresas de Auditoria X Conflito de Interesse?
Hoje queria lhe perguntar o que acontece quando alguém se sente coagido a cometer uma fraude a mando de um grande cliente?

Conteúdo gerado com apoio de IA. Não substitui análise profissional.

Autor

LL

Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante