Artigo
23/10/2025

Chargeback no STJ: discussões sobre o REsp 2.174.724/SP

Analisa decisão do STJ sobre nulidade de cláusulas genéricas que transferem integralmente ao lojista os prejuízos do chargeback.

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O chargeback é um mecanismo essencial para dar confiança ao consumidor e estabilidade aos meios eletrônicos de pagamento. Em 12 de setembro de 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) julgou o REsp nº 2.174.724/SP, decisão que recolocou em destaque a discussão sobre a validade das cláusulas que transferem ao lojista a responsabilidade pelos prejuízos decorrentes do chargeback.

O que decidiu o STJ no REsp nº 2.174.724/SP

O caso envolvia contrato entre uma instituição de pagamento e uma empresa varejista que vende máquinas agrícolas. Algumas transações realizadas com cartão foram canceladas via chargeback, e a credenciadora reteve integralmente os valores com base em uma cláusula contratual que atribuía ao lojista a responsabilidade por qualquer cancelamento. O Tribunal Estadual considerou a cláusula abusiva, entendendo que não houve culpa do lojista. A credenciadora recorreu ao STJ alegando que se tratava de relação empresarial, entre partes experientes, que tinham liberdade para alocar riscos. A Terceira Turma do STJ manteve a decisão do Tribunal e negou provimento ao recurso da credenciadora.

Fundamentos jurídicos do STJ

  • Boa-fé objetiva e função social do contrato (art. 422 CC): cláusulas genéricas que transferem todo o risco para o lojista desequilibram a relação contratual.
  • Teoria do risco (art. 927 CC): cada agente do sistema de pagamentos deve assumir os riscos da sua própria atividade.
  • Ônus da prova (art. 373, II CPC): a credenciadora não demonstrou culpa ou negligência do lojista nem apresentou as contestações dos titulares dos cartões.
  • Função protetiva do chargeback: o instituto existe para proteger o consumidor, não para transferir riscos sistêmicos para quem vende.

Resultado: a cláusula genérica foi declarada nula, e a credenciadora teve de devolver os valores retidos.

Por que o caso é diferente

O STJ não declarou a nulidade de todas as cláusulas de chargeback. O que levou à decisão desfavorável à credenciadora foi a natureza genérica da cláusula, que não distinguiu situações em que o lojista poderia ter contribuído para a fraude ou descumprido seus deveres de diligência. Essa é uma diferença crucial: o problema não foi o chargeback em si, mas a forma como a cláusula foi aplicada.

Precedentes do STJ que reconhecem a validade do Chargeback

Antes do julgamento do REsp 2.174.724/SP, o STJ analisou dois recursos especiais sobre o mesmo tema:

  • REsp nº 2.151.735/SP (novembro/2024): considerou válida a cláusula de Chargeback em comércio eletrônico.
  • REsp nº 2.180.780/SP (fevereiro/2025): reafirmou a validade da cláusula.

Esses dois julgados mostram que o STJ reconhece a legitimidade do Chargeback e das cláusulas que atribuem responsabilidade ao lojista, desde que respeitados os limites da boa-fé e da diligência exigida do comerciante.

Fundamentos que sustentam a validade da cláusula de Chargeback

Podemos destacar por que a cláusula de Chargeback é juridicamente válida e necessária:

  • Autonomia privada: a legislação civil (arts. 421 e 421-A) garante que empresas possam distribuir os riscos conforme a atividade que controlam.
  • Teoria do risco da atividade: cabe a cada agente assumir os riscos do seu negócio; fraudes no ambiente de venda são risco do lojista.
  • Fortuito externo: a Credenciadora não tem como impedir fraudes cometidas por terceiros no ambiente do lojista; essas fraudes não configuram falha do serviço da Credenciadora.
  • Prevenção de fraudes: o Lojista é quem conduz a venda, coleta dados do consumidor, contrata ferramentas antifraude e decide autorizar a entrega; por isso, deve ser responsabilizado quando negligente.
  • Inexistência de relação de consumo: a relação entre Credenciadora e Lojista é empresarial, não sujeita às regras do CDC.

Em termos econômicos e jurídicos, faz sentido que o Lojista que controla a jornada da venda online assuma o risco, incentivando a adoção de boas práticas de segurança.

Diferença entre cláusula genérica e cláusula legítima

O ponto central não é se o Chargeback é válido ou não, mas como a cláusula é redigida e aplicada:

  • Cláusulas genéricas: que atribuem todos os riscos ao lojista, sem avaliar sua conduta ou a causa do cancelamento, tendem a ser consideradas nulas.
  • Cláusulas legítimas: que preveem a responsabilidade do lojista quando ele falha em adotar protocolos de segurança ou não comprova a entrega, têm sido validadas pelo STJ.

Conclusão

O REsp 2.174.724/SP não deve ser interpretado como uma rejeição ao Chargeback, mas como um alerta contra cláusulas genéricas que desconsideram a conduta do Lojista. A jurisprudência majoritária do STJ confirma a validade das cláusulas de Chargeback, reconhecendo que elas são fundamentais para equilibrar os riscos do sistema de pagamentos e incentivar a prevenção de fraudes no comércio eletrônico.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é chargeback?
O chargeback é um mecanismo fundamental para a segurança dos meios de pagamento eletrônicos. Ele serve para dar mais confiança ao consumidor e estabilidade ao sistema, funcionando como uma ferramenta de proteção.
O que o STJ decidiu no REsp nº 2.174.724/SP sobre a responsabilidade do lojista no chargeback?
No julgamento do Recurso Especial nº 2.174.724/SP, em 12 de setembro de 2025, a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que é nula a cláusula contratual genérica que transfere integralmente ao lojista a responsabilidade pelos prejuízos decorrentes de chargeback.No caso analisado, a credenciadora não conseguiu provar culpa ou negligência por parte do lojista, o que levou o tribunal a considerar a cláusula abusiva por desequilibrar a relação contratual.
Quais os fundamentos jurídicos utilizados pelo STJ para anular a cláusula de chargeback no REsp nº 2.174.724/SP?
A decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) baseou-se nos seguintes fundamentos:Boa-fé objetiva e função social do contrato: Cláusulas genéricas que transferem todo o risco ao lojista desequilibram a relação.Teoria do risco: Cada agente do sistema de pagamentos deve assumir os riscos inerentes à sua própria atividade.Ônus da prova: A instituição de pagamento não demonstrou que o lojista agiu com culpa ou negligência.Função protetiva do chargeback: O instituto foi criado para proteger o consumidor, e não para transferir riscos sistêmicos ao vendedor.
A decisão do STJ no REsp nº 2.174.724/SP invalidou todas as cláusulas de chargeback?
Não. A decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) não declarou a nulidade de todas as cláusulas de chargeback. O que foi considerado nulo foi o caráter genérico da cláusula analisada, que transferia toda a responsabilidade ao lojista sem diferenciar situações em que ele poderia ou não ter contribuído para a fraude ou descumprido deveres de diligência.Portanto, o julgamento funcionou como um alerta contra cláusulas que desconsideram a conduta do lojista, e não como uma rejeição ao mecanismo de chargeback em si.
Qual é a jurisprudência do STJ sobre a validade de cláusulas de chargeback?
A jurisprudência majoritária do Superior Tribunal de Justiça (STJ) confirma a validade das cláusulas de chargeback. Julgados anteriores, como o REsp nº 2.151.735/SP (novembro de 2024) e o REsp nº 2.180.780/SP (fevereiro de 2025), reafirmaram a legitimidade dessas cláusulas.O entendimento predominante é que elas são fundamentais para equilibrar os riscos do sistema de pagamentos e incentivar a prevenção de fraudes no comércio eletrônico, desde que respeitados os limites da boa-fé e da diligência exigida do comerciante.
Quais argumentos sustentam a validade jurídica da cláusula de chargeback?
A validade jurídica da cláusula de chargeback é sustentada por diversos fundamentos, entre eles:1. Autonomia privada: A legislação civil permite que empresas distribuam os riscos contratuais conforme a atividade que cada uma controla.2. Teoria do risco da atividade: Cada agente deve assumir os riscos do seu próprio negócio. Fraudes que ocorrem no ambiente de venda são um risco inerente à atividade do lojista.3. Prevenção de fraudes: O lojista é quem conduz a venda, coleta os dados do consumidor, contrata ferramentas antifraude e autoriza a entrega, sendo a parte mais bem posicionada para prevenir fraudes.4. Inexistência de relação de consumo: A relação entre a credenciadora (instituição de pagamento) e o lojista é empresarial, não se aplicando as regras do Código de Defesa do Consumidor (CDC).
Qual a diferença entre uma cláusula de chargeback genérica e uma legítima?
A principal diferença está na forma como a responsabilidade é atribuída ao lojista:Uma cláusula genérica atribui ao lojista todos os riscos e prejuízos decorrentes de um chargeback, independentemente de sua conduta ou da causa do cancelamento. Esse tipo de cláusula tende a ser considerado nulo pela justiça por gerar desequilíbrio contratual.Já uma cláusula legítima condiciona a responsabilidade do lojista à sua conduta, como nos casos em que ele falha em adotar protocolos de segurança adequados ou não consegue comprovar a entrega do produto ou serviço. Essas cláusulas mais específicas têm sido validadas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

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Thiago do Amaral Santos

Sócio BTLaw | Professor FGV e Insper | Fintech, Meios de Pagamento, Bancos Digitais