À medida que as eleições se aproximam, as discussões políticas deixam as redes sociais e entram nas empresas.
Chegam aos grupos corporativos, às reuniões, aos corredores, às confraternizações e, algumas vezes, às decisões de liderança.
O problema não está na existência de opiniões políticas diferentes. Em uma democracia, cada pessoa tem o direito de formar e manifestar suas próprias convicções.
O risco surge quando a opinião se transforma em pressão. Quando a discordância vira hostilidade. Quando a autoridade profissional é utilizada para influenciar escolhas pessoais. Ou quando recursos, estruturas e relacionamentos da organização são colocados, deliberadamente ou não, a serviço de interesses político-partidários.
Em 2026, o primeiro turno das eleições acontecerá em 4 de outubro, com eventual segundo turno em 25 de outubro. Para as empresas, a proximidade do pleito deveria acionar não apenas a agenda de comunicação, mas também a de prevenção de riscos corporativos.
Existe uma diferença importante entre preservar a neutralidade institucional e tentar impedir que os profissionais tenham opiniões.
O papel do Compliance não é dizer em quem alguém pode votar, controlar conversas privadas ou eliminar qualquer discussão política do ambiente de trabalho. É estabelecer limites para que a liberdade individual não seja convertida em constrangimento, discriminação, intimidação ou abuso de poder.
Um líder pode ter sua preferência política. O que ele não pode é usar sua posição hierárquica para induzir, pressionar ou ameaçar seus subordinados.
O assédio eleitoral pode aparecer de maneira explícita, por meio de ameaças de demissão e promessas de benefícios, mas também pode assumir formas mais sutis: perguntas insistentes sobre o voto, convites com caráter obrigatório, distribuição de propaganda por gestores ou insinuações de que determinado resultado eleitoral afetará empregos e oportunidades.
Em 2026, a regulamentação eleitoral passou a vedar expressamente propaganda e assédio eleitoral nos ambientes de trabalho públicos e privados. O Ministério Público do Trabalho também destaca que a organização deve exercer vigilância ativa, pois a prática pode partir tanto de superiores quanto de colegas.
Um período eleitoral pode aumentar a exposição da organização a diferentes riscos:
- conflitos, hostilidade e discriminação entre profissionais;
- retaliações motivadas por posicionamentos políticos;
- uso indevido de e-mail, equipamentos, veículos e canais corporativos;
- manifestações pessoais interpretadas como posicionamentos oficiais da empresa;
- doações, pagamentos ou apoios políticos realizados irregularmente;
- concessão inadequada de brindes, presentes ou hospitalidades a agentes públicos;
- contratação ou favorecimento motivado por vínculos políticos;
- compartilhamento indevido de dados pessoais para ações eleitorais;
- danos reputacionais decorrentes da conduta de líderes e representantes;
- denúncias tratadas como simples “divergências políticas”, quando podem indicar violações reais.
Também é importante lembrar que pessoas jurídicas não podem realizar doações, direta ou indiretamente, a candidaturas ou partidos políticos. Por isso, pagamentos, patrocínios, cessão de espaços, contratação de fornecedores e uso de ativos corporativos merecem controles adicionais durante o período eleitoral.
O que o Compliance deveria fazer agora?
Mais do que publicar uma nota genérica de neutralidade, este é o momento de transformar o risco eleitoral em um plano preventivo.
Isso inclui revisar o Código de Conduta e as políticas sobre atividades político-partidárias, doações, patrocínios, conflitos de interesses, brindes, relacionamento com agentes públicos, redes sociais e uso de recursos corporativos.
A empresa também deve orientar especialmente as lideranças. Quanto maior o poder hierárquico de uma pessoa, maior o potencial de sua opinião ser recebida como ordem, ameaça ou condição para permanência e crescimento profissional.
Além disso, é recomendável:
- comunicar de forma clara quais condutas são permitidas e quais ultrapassam os limites;
- reforçar que o voto é livre, pessoal e secreto;
- divulgar o canal de denúncias e garantir proteção contra retaliações;
- preparar investigadores para reconhecer sinais de assédio eleitoral;
- monitorar despesas, patrocínios, doações e interações com agentes públicos;
- revisar conflitos de interesses envolvendo candidatos, autoridades e pessoas politicamente expostas;
- definir critérios para manifestações políticas em canais, eventos e instalações corporativas;
- assegurar coerência na aplicação das regras, independentemente do posicionamento envolvido.
Presentes e hospitalidades também exigem atenção especial. A legislação sobre conflito de interesses restringe o recebimento de presentes por agentes públicos quando o ofertante possui interesse em decisões sob sua influência.
O verdadeiro teste de integridade
É relativamente fácil defender respeito, diversidade e liberdade quando todos concordam.
O verdadeiro teste acontece quando as diferenças chegam à mesa.
O período eleitoral não cria sozinho os problemas de uma organização. Ele costuma revelar fragilidades que já existiam: lideranças que confundem autoridade com controle, ambientes que toleram intimidação, canais que não inspiram confiança e regras aplicadas de maneira seletiva.
Por isso, o Compliance não precisa escolher um lado político.
Precisa escolher o lado da integridade.
Porque prevenir riscos em tempos de polarização significa assegurar que nenhuma convicção seja utilizada para constranger, discriminar ou silenciar pessoas e que a empresa não se transforme em instrumento de interesses político-partidários.
A democracia permite que cada pessoa escolha seu candidato. A integridade exige que a organização proteja esse direito.
Documento apresentado pela Okai.