Artigo
10/09/2026

Estamos tentando tornar empresas responsáveis em ambientes irresponsáveis?

ESG deve ser integrado à estratégia empresarial para proteger patrimônio e garantir competitividade em ambientes de negócios desafiadores.

Resumo

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A provocação que o Alexandre Timmers Montandon me fez esses dias ficou na minha cabeça porque toca em um ponto que, na minha visão, está sendo pouco discutido quando falamos de ESG, cultura e governança e justamente por isso, resolvi trazê-la, no artigo dessa semana.

A conversa começou com uma questão bem importante, quando ele me perguntou como uma empresa consegue construir uma cultura responsável, fortalecer sua governança e incorporar ESG à estratégia quando ela está inserida em um ambiente de negócios em que, muitas vezes, quem age de forma irresponsável consegue competir melhor?

O ponto mais importante, ao menos para mim, é que essa pergunta difere bastante da forma como eu enxergo a discussão ESG e mostra o quão distantes estamos de entender o tema como ferramenta para negócios. Existe uma expectativa de que as empresas façam a coisa certa porque isso é importante para a sociedade, para o meio ambiente, para as pessoas e para o futuro. E eu sei que tudo isso é verdadeiro, mas existe uma dificuldade prática quando essa responsabilidade não encontra correspondência no ambiente competitivo em que a empresa está inserida.

Uma empresa investe em segurança, qualificação das pessoas, controles, gestão ambiental, relacionamento com comunidades, transparência, integridade, rastreabilidade e governança, enquanto outra empresa reduz custos justamente deixando de fazer parte dessas coisas. No curto prazo, dependendo do setor e da situação, a segunda pode apresentar uma estrutura de custos mais competitiva e é nesse ponto que a discussão sobre ESG precisa sair do campo da intenção e entrar definitivamente no campo da estratégia.

Durante muito tempo, eu também vi o ESG sendo apresentado principalmente como uma agenda de responsabilidade, e, obviamente, existe responsabilidade envolvida, porém o que passei a defender com mais força é que esse não pode ser o centro da conversa dentro de uma empresa, o centro precisa ser a proteção do patrimônio.

E quando falo em patrimônio, estou falando de duas coisas que sustentam qualquer negócio: o patrimônio material, representado pelo resultado financeiro, pelo caixa, pelos ativos e pela capacidade de gerar valor, e o patrimônio imaterial, que envolve reputação, confiança, relacionamento, conhecimento, cultura e tudo aquilo que pode levar anos para ser construído e poucos dias para ser destruído. E é aí que ESG começa a ganhar outra dimensão (dessa vez, a dimensão verdadeira).

Se uma empresa olha para seus riscos ambientais, sociais e de governança e consegue entender como eles podem afetar receita, margem, caixa, reputação, acesso a capital, capacidade operacional, licença para operar, atração de pessoas, relacionamento com clientes e continuidade do negócio, estamos falando de gestão, e principalmente gestão de riscos que é uma linguagem que qualquer empresário entende.

Quando uma empresa percebe que uma falha de governança pode gerar uma perda financeira relevante, ela começa a olhar para governança de outra maneira. Quando entende que um problema ambiental pode interromper sua operação, provocar uma perda reputacional ou comprometer uma licença, o tema ambiental deixa de ser uma obrigação externa e passa a ser uma questão econômica.

Isso também acontece quando se percebe que perder pessoas-chave, ter alta rotatividade ou criar um ambiente de trabalho ruim pode comprometer produtividade, conhecimento e resultado, e assim, o social também deixa de ser pauta e vira gestão de ativos.

É nesse momento que ESG deixa de ser um tema que vai competir com o negócio pelo espaço na agenda da liderança e passa a fazer parte da própria lógica do negócio e existe uma consequência importante nisso. Quando ESG é visto como responsabilidade, muitas empresas acabam entendendo que precisam fazer alguma coisa porque deveriam fazer, mas se invertemos essa lógica, e ESG vira proteção patrimonial e gestão de riscos, a questão muda e o assunto passa a ser relacionado a decisões que podem proteger ou colocar em risco o negócio. Isso muda o comportamento da liderança e também muda a forma de construir cultura.

Não adianta colocar valores bonitos na parede, criar um código de conduta, fazer treinamento de ética e depois premiar sistematicamente quem entrega resultado a qualquer custo, a cultura que prevalece dentro de uma empresa é aquela que encontra espaço nas decisões difíceis, principalmente quando existe pressão por resultado e o mesmo acontece com a governança.

Uma empresa pode ter conselho, comitês, políticas, controles e uma quantidade enorme de documentos e ainda assim pode continuar tomando decisões ruins se os riscos forem convenientemente ignorados quando começam a ameaçar os interesses de quem decide. E por isso, acredito que existe uma discussão muito mais interessante para o ESG daqui para frente, que é a ampliação do questionamento sobre como transformar a agenda em uma ferramenta de competitividade.

E como fazer com que uma empresa que administra melhor seus riscos tenha uma vantagem econômica sobre aquela que simplesmente transfere seus custos, seus impactos e seus riscos para outras pessoas, para a sociedade ou para o futuro? Esse talvez seja um dos grandes desafios da agenda ESG e que precisamos urgentemente responder se queremos que ela prospere. Porque, se fazer o certo custar mais caro e fazer errado gerar vantagem competitiva, em algum momento a própria lógica econômica passa a trabalhar contra aquilo que estamos tentando construir.

A resposta para isso não está em criar uma empresa perfeita, até porque isso não existe. Está em construir empresas mais capazes de identificar seus riscos, tomar decisões melhores, proteger seus patrimônios e aumentar sua capacidade de continuar gerando resultado em ambientes cada vez mais instáveis.

No final, ESG precisa chegar à mesa onde se decide investimento, orçamento, expansão, contratação, remuneração, aquisição, financiamento, operação e estratégia, já que é nessa mesa que se decide quanto uma empresa está disposta a colocar em risco para buscar determinado resultado e provavelmente seja justamente aí que esteja a grande mudança que precisamos fazer na conversa sobre ESG.

Parar de tratar esse tema como um conjunto de coisas que a empresa precisa fazer para demonstrar responsabilidade e começar a tratá-lo como uma ferramenta para entender onde a empresa pode perder dinheiro, reputação, confiança e capacidade de operar, porque, no fim das contas, uma empresa que sabe administrar melhor seus riscos deveria conseguir competir melhor.

E eu tenho uma dúvida que gostaria de jogar para você que está aqui, lendo esse artigo: se uma empresa consegue aumentar sua margem justamente porque decidiu não assumir determinados custos ambientais, sociais ou de governança que seus concorrentes assumem, estamos diante de uma empresa mais eficiente ou de uma competição que está premiando a irresponsabilidade?

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Autor

LG

Luiz Goi

Especialista em ESG e gestão | Autor de 5 livros | Mais de 40.000 alunos | 20 anos de experiência de mercado