Nesta época do ano, é comum que as empresas realizem análises críticas do planejamento estratégico e, seguindo essa dinâmica, quero propor a você, profissional que atua com ESG, sustentabilidade ou governança corporativa, uma reflexão nesse mesmo nível de profundidade.
Nos últimos anos, imagino que sua empresa tenha realizado atividades relacionadas ao tema, estabelecido metas, desenvolvido projetos e talvez até conquistado prêmios ou certificações, mas a pergunta que quero propor vai além: o que a agenda ESG conseguiu mudar na estratégia e na estrutura do negócio?
Pense nas decisões relacionadas a investimentos, produtos, fornecedores e expansão e avalie quantas dessas escolhas foram realmente transformadas pela agenda ESG, quais práticas deixaram de ser realizadas e quais riscos começaram a interferir nas decisões que fazem parte da rotina da organização.
Se essas respostas forem difíceis de encontrar, é possível que sua empresa tenha desenvolvido uma boa capacidade de comunicar ESG sem alterar a forma como toma suas principais decisões.
O ESG QUE ENVELOPA O NEGÓCIO
Na maioria dos casos, as empresas continuaram produzindo, comprando, contratando, investindo e avaliando resultados praticamente da mesma forma, acrescentando uma linguagem capaz de apresentar essas práticas sob uma perspectiva mais sustentável, mesmo que a lógica usada para decidir tenha permanecido como sempre foi.
Sabe aquele projeto social antigo que começou a ser divulgado como resultado ESG e o código de ética que ganhou espaço no relatório de sustentabilidade mesmo sem orientar a conduta das lideranças? Tudo ficou mais organizado e fácil de divulgar, mas isso não significa que a agenda tenha influenciado a estratégia, a gestão de riscos ou a governança corporativa.
De fato, organizar é importante, mas uma transformação estratégica precisa produzir consequências e, se nenhum projeto relevante pode ser interrompido por um risco ESG, nenhum investimento precisa ser revisto e nenhuma liderança tem sua avaliação afetada pelos compromissos assumidos, a agenda continua operando na periferia das decisões.
O teste mais honesto sobre a maturidade ESG de uma empresa está no custo que ela aceita assumir para proteger reputação e resultado financeiro no longo prazo, pois toda mudança estrutural produz algum nível de desconforto ao alterar prioridades, distribuir responsabilidades e limitar decisões que antes eram tratadas exclusivamente sob a perspectiva financeira ou operacional.
A GOVERNANÇA QUE SE LIMITA AO PAPEL
Esse distanciamento entre estrutura formal e capacidade de decisão não é uma exclusividade do ESG, se você quer saber, porque ele está presente também na governança corporativa, já que muitas organizações associam governança à produção de políticas, manuais, códigos e documentos, e o resultado disso costuma aparecer em documentos robustos, decisões frágeis e responsabilidades ambíguas.
A governança existe para orientar decisões alinhadas aos objetivos da empresa, e seu valor aparece com mais clareza nos momentos nebulosos, quando existem interesses conflitantes, informações incompletas, pressão por resultado e pouco tempo para escolher um caminho.
Uma empresa pode apresentar excelentes documentos de governança e continuar dependente da personalidade, da conveniência e do poder de influência de seus líderes. Se os documentos não ajudam a empresa a decidir sob pressão, eles cumprem uma função administrativa e pouco contribuem para a governança corporativa.
QUEM COMUNICA MAIS FAZ MELHOR ESG?
O poder narrativo do ESG se tornou tão forte que começamos a avaliar as empresas por aquilo que conseguem comunicar, embora as mudanças mais importantes quase sempre estejam escondidas nas decisões internas. Relatórios de sustentabilidade, metas públicas e certificações ESG nos trazem uma visão incompleta quando não demonstram como a sustentabilidade influencia a estratégia empresarial e a alocação de recursos.
Pouca gente vê o investimento recusado por apresentar riscos elevados ou o produto redesenhado depois de uma análise de impacto, e essas decisões costumam gerar menos conteúdo, embora mostrem muito mais sobre a integração entre ESG, sustentabilidade, governança corporativa, gestão de riscos e estratégia empresarial.
A quantidade de informações publicadas não pode continuar sendo usada como principal medida de maturidade ESG. Precisamos avaliar se a organização consegue explicar como os temas ambientais, sociais e de governança influenciam sua alocação de capital, sua gestão de riscos, o desenvolvimento de produtos, a relação com a cadeia de valor e as decisões da alta administração.
O ESG PRECISA VOLTAR À DECISÃO
Precisamos partir da premissa de que uma agenda ESG consistente deixa marcas na estrutura do negócio. Ela modifica critérios de investimento, interfere na relação com fornecedores, reorganiza responsabilidades, antecipa riscos, transforma produtos e obriga a liderança a lidar com consequências que preferiria adiar.
Por isso, antes de perguntar quantos projetos ESG sua empresa possui, analise quais decisões ela tomou de maneira diferente por causa deles. O ESG pode proteger reputação e resultado financeiro quando participa da governança da organização e influencia a estratégia empresarial, mas, fora desse espaço, corre o risco de se tornar uma linguagem mais atraente para apresentar o negócio exatamente como sempre foi.
Então, reflita, responda para você mesmo e, quem sabe, replaneje um pouco a rota de construção da sua agenda ESG: nos últimos anos, qual decisão relevante da empresa foi realmente transformada pelo ESG?
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