O futuro dos pagamentos internacionais não será definido por uma disputa simples entre o sistema Swift e as moedas digitais estáveis, mas será construído pela capacidade de escolher para cada operação o caminho que melhor combine velocidade, segurança, liquidez, conformidade e custo total.
No modelo tradicional, o Swift transmite instruções entre bancos, enquanto o dinheiro percorre contas no exterior, bancos correspondentes e sistemas locais de liquidação. A mensagem pode viajar em segundos, mas o crédito final depende de horários, fusos, feriados, disponibilidade de recursos, análise de sanções e validações regulatórias. É uma infraestrutura madura e adequada a pagamentos corporativos de grande valor.
Já as moedas digitais estáveis permitem que o ativo seja transferido por uma cadeia de blocos, a qualquer hora e em poucos minutos. Isso pode reduzir intermediários, acelerar remessas e melhorar a gestão de caixa. Porém, rapidez técnica não significa liquidação completa, pois o pagamento somente termina quando o valor é convertido, disponibilizado e aceito pelo beneficiário.
Também é um erro comparar apenas a tarifa bancária com o custo da rede digital. O custo real inclui margem cambial, compra, venda, conversão, liquidez, custódia, controles, conciliação e tecnologia. Uma transferência barata pode se tornar cara na entrada ou na saída. A comparação correta considera quanto saiu do pagador e quanto chegou ao recebedor.
Os riscos mudam de lugar, em que no Swift predominam atrasos, custos intermediários, reconciliações e dependência de bancos correspondentes. Nas moedas digitais estáveis, surgem riscos ligados ao emissor, às reservas, à perda da paridade, à custódia das chaves, à liquidez, à tecnologia, às fraudes e à regulação. A cadeia de blocos amplia a rastreabilidade, mas endereços digitais não substituem a identificação das partes, a origem dos recursos e a finalidade econômica.
Não vamos esquecer que no Brasil o uso dessas moedas não elimina as obrigações cambiais. Entradas e saídas de recursos relacionadas ao exterior continuam exigindo documentação, identificação, classificação da finalidade, controles contra lavagem de dinheiro, observância das regras do Banco Central e adequada contabilização. A tecnologia pode mudar o caminho, mas não muda a natureza econômica da operação.
Acredito que o futuro será híbrido, em que bancos, empresas e prestadores combinarão diferentes caminhos conforme valor, moeda, destino, urgência, liquidez e risco. A melhor infraestrutura não será apenas a mais rápida, mas aquela capaz de entregar o valor correto, ao beneficiário correto, no momento certo, com segurança jurídica, custo previsível e riscos compatíveis com o apetite da empresa.
Documento consultado na Okai.