Quando a casa mercantil John & Francis Baring & Co. foi constituída em Londres, no Natal de 1762, o mundo ainda se encontrava em meio à Guerra dos Sete Anos. Os Estados Unidos não existiam como nação independente, Adam Smith ainda não havia publicado A Riqueza das Nações e a inovação de James Watt que transformaria a máquina a vapor sequer havia sido patenteada. A Revolução Francesa ainda estava a vinte e sete anos de distância.
Do outro lado do Atlântico, o Brasil permanecia como colônia portuguesa e sua capital ainda era Salvador (o Rio de Janeiro somente assumiria essa posição no ano seguinte). Não havia bancos em território brasileiro. O primeiro Banco do Brasil seria criado apenas em 1808, quarenta e seis anos depois, e a Independência do país ainda demoraria seis décadas.
Ao longo dos 233 anos seguintes, o Barings atravessaria a Revolução Industrial, as guerras napoleônicas, crises financeiras, duas guerras mundiais e a Grande Depressão. Tornou-se uma das instituições mais antigas e respeitadas das finanças internacionais. Quando colapsou, em 1995, era considerado o mais antigo merchant bank da City de Londres.
Em dezembro de 1994, os números preliminares do Barings indicavam que o banco encerraria o ano com lucro antes dos tributos de £102 milhões. Era um resultado respeitável para uma instituição que já atravessara mais de dois séculos de guerras, crises financeiras e transformações no sistema bancário internacional. Havia, entretanto, outra realidade econômica se acumulando na Barings Futures, em Singapura, sem alcançar os números apresentados em Londres.
Em uma conta identificada pelo número 88888, utilizada originalmente para registrar erros operacionais, acumulavam-se perdas provenientes de operações não autorizadas com derivativos. No encerramento de 1994, perdas superiores a £200 milhões (mais de duas vezes o lucro antes dos tributos indicado) ainda não haviam sido reconhecidas nas contas do grupo. Enquanto as demonstrações apresentadas em Londres indicavam lucro, a operação asiática acumulava um prejuízo que crescia diariamente. Em fevereiro de 1995, as perdas não reportadas já haviam alcançado £827 milhões. O Barings não conseguiu suportá-las. Uma instituição com mais de 230 anos de história entrou em colapso em questão de dias. A investigação oficial concluiu que as operações não autorizadas haviam sido acompanhadas por graves falhas de controles, gestão e supervisão.
O caso Barings ajuda a mostrar por que o lucro de um banco nunca deve ser lido isoladamente. É necessário perguntar de onde ele veio, quanto risco foi assumido para produzi-lo, quais estimativas o sustentam, quanto desse resultado é recorrente e qual capacidade a instituição possui para absorver perdas caso as expectativas não se confirmem. A rentabilidade extraordinária rentabilidade de £102 milhões de 1994 fortaleceu a reputação de seu responsável, em um caso clássico de “conforto cognitivo”, quando na verdade deveria sugerir novas perguntas.
As demonstrações contábeis de um banco são de fato lidas de forma diferente das demonstrações de uma companhia industrial ou comercial. Em uma instituição financeira, o dinheiro é simultaneamente insumo, produto e meio de liquidação. Os depósitos à vista constituem fonte operacional de recursos e são apresentados como passivos. Os juros pagos integram o custo necessário à geração da receita de juros. As perdas de crédito representam o custo da materialização de um dos principais riscos assumidos pelo banco e inerentes ao seu modelo de negócios.
A relevância dessa análise também se reflete na apresentação exigida pelas normas contábeis. A IFRS 18 preserva a exigência de apresentação separada das perdas por redução ao valor recuperável determinadas de acordo com a IFRS 9. Em seu exemplo ilustrativo de uma instituição financeira, as perdas de crédito são classificadas na categoria operacional, antes do lucro operacional. Essa apresentação associa o risco de crédito ao exercício da atividade bancária e à formação de seu resultado operacional.
Não se pode compreender o resultado bancário sem compreender o modelo de negócios, a composição do balanço, a qualidade dos ativos, a estrutura de captação, a liquidez e o capital. A demonstração do resultado integra um sistema mais amplo de informações contábeis e prudenciais, além de só indicar o desempenho a ao introduzir categorias, subtotais definidos e princípios mais claros de agregação e desagregação a IFRS 18 apoia diretamente esse exercício.
Na posição patrimonial e financeira de uma empresa industrial, o usuário normalmente identifica instalações, estoques, fornecedores e os demais reflexos patrimoniais das receitas e dos custos de produção. Em uma instituição financeira, quase todo o modelo econômico está condensado em ativos e passivos financeiros, como empréstimos e financiamentos concedidos, títulos e valores mobiliários, caixa, reservas, depósitos de clientes, captações no mercado e derivativos. O balanço de uma instituição financeira é, em grande medida, o próprio negócio, enquanto o de uma indústria representa os recursos empregados e os efeitos patrimoniais de suas operações.
Em companhias não financeiras, o analista frequentemente começa pela receita, pela margem operacional e pelo EBITDA. Em bancos, a análise tende a começar pelo modelo de negócios, pela estrutura do balanço e pelas relações entre risco, retorno e capital. A composição dos ativos ajuda a avaliar onde o risco foi assumido, assim como a composição dos passivos permite compreender como esse risco foi financiado.
A leitura das demonstrações bancárias pode ser organizada a partir de três perguntas. Primeiro, o banco é capaz de gerar resultado? Estudos do Banco de Compensações Internacionais (BIS) sobre rentabilidade bancária consideram componentes como margem líquida de juros, receitas não financeiras e provisões para perdas de crédito. A avaliação de bancos pelo mercado também relaciona preço sobre valor patrimonial a indicadores de qualidade dos empréstimos, composição dos depósitos, despesas, receitas recorrentes, retorno sobre o patrimônio (ROE), alavancagem e exposição ao risco de taxa de juros.
Em seguida, questiona-se qual risco foi assumido para gerar esse resultado e se o banco consegue sobreviver caso os riscos se materializem. Duas instituições podem apresentar o mesmo lucro e possuir perfis econômicos completamente diferentes. Uma pode obtê-lo por meio de uma base estável de depósitos e uma carteira diversificada de crédito. Outra pode depender de captação de curto prazo, posições de mercado, concentração em determinados setores ou liberação de provisões constituídas anteriormente. As perdas de crédito esperadas merecem também destaque. Elas afetam o resultado do período e transmitem as avaliações da administração sobre perdas que ainda podem se materializar. O lucro bancário contém, portanto, uma parcela relevante de expectativas sobre o futuro. Na IFRS 18, o lucro operacional de um banco pode reunir margem financeira, receitas de serviços, resultados de negociação, perdas de crédito e despesas operacionais, o que mantém sua interpretação vinculada ao risco assumido para produzi-lo.
Partindo para a demonstração do resultado, o usuário geralmente analisa o desempenho de um banco em diferentes camadas. A primeira é a intermediação financeira, que permite avaliar quanto o banco recebe pelos ativos remunerados e quanto paga pelas fontes de recursos. As informações constantes das demonstrações contábeis ajudam a avaliar a robustez e a qualidade desse resultado, considerando volumes, taxas, mix de produtos, custo de captação e sensibilidade às alterações das curvas de juros. Inclusive, o exemplo ilustrativo da IFRS 18 acompanha essa forma de leitura ao apresentar separadamente receitas de juros, despesas de juros e margem financeira líquida, todos na categoria operacional.
A segunda camada é a prestação de serviços, que inclui tarifas bancárias, administração de recursos, cartões, pagamentos, assessoria, custódia e outras comissões. Essas receitas podem diversificar o resultado e reduzir a dependência da margem financeira, embora apresentem diferentes graus de recorrência. No exemplo ilustrativo da IFRS 18, receitas e despesas de tarifas e comissões são apresentadas separadamente e culminam no resultado líquido de tarifas e comissões.
Em seguida, vem o resultado de instrumentos financeiros e atividades de mercado. Ganhos e perdas de negociação, mensuração a valor justo, derivativos e efeitos cambiais podem constituir parte ordinária do modelo de negócios, mas frequentemente apresentam maior volatilidade. A IFRS 18 vincula a classificação desses resultados à avaliação das atividades de negócio principais especificadas e, em determinadas situações, aos itens ou riscos administrados pelos instrumentos.
A quarta camada é o risco de crédito, discutido anteriormente. O usuário compara a margem obtida com as perdas necessárias para sustentar a carteira. O crescimento do crédito acompanhado por redução do custo de risco pode refletir melhoria genuína, mudança no mix da carteira ou postergação do reconhecimento de deterioração.
Por fim, a estrutura operacional se aproxima mais da análise realizada em entidades de outros segmentos. Custos de pessoal, tecnologia, agências, processamento, despesas administrativas e eficiência ganham destaque. A digitalização torna essa análise ainda mais relevante, pois investimentos atuais podem reduzir custos futuros, embora nem sempre sejam capturados adequadamente pelas métricas tradicionais de eficiência e escala.
Nas instituições financeiras, as prioridades dentro desse conjunto de informações variam significativamente conforme a perspectiva de cada usuário. O acionista e os analistas de mercado procuram retorno, crescimento, dividendos e valorização patrimonial. O credor se concentra em solvência, liquidez e capacidade de pagamento. O depositante procura segurança e disponibilidade imediata dos recursos. O supervisor ou regulador de mercado analisa estabilidade, capital, liquidez, governança e risco sistêmico. Esses usuários observam, em geral, os mesmos números, mas atribuem pesos distintos a eles.
Essa pluralidade explica por que o lucro possui sua importância, mas sem ser soberano. Um banco pode ser rentável e apresentar fragilidade de liquidez. Pode estar adequadamente capitalizado e gerar retorno insuficiente. Pode divulgar baixa inadimplência enquanto aumenta sua exposição a segmentos de risco. Pode também apresentar crescimento robusto de receitas à custa de maior concentração ou de fontes menos estáveis de captação.
Essa diversidade de usuários também ajuda a explicar a quantidade de medidas alternativas utilizadas pelas instituições financeiras. Resultado recorrente, lucro ajustado e resultado gerencial (que, quando indicar margem financeira ou de intermediação pode nem se caracterizar como MPM, a depender da formatação e proximidade do conceito de “gross profit”) procuram isolar componentes que a administração considera pouco representativos do desempenho ordinário. Indicadores como retorno sobre o patrimônio, índice de eficiência e custo do risco também ocupam posição de destaque nas apresentações a investidores. Medidas essas que tornar-se-ão mais transparentes e úteis para os usuários com o advento da IFRS 18.
Ao passo que a IFRS 18 estabelece uma estrutura comum para a demonstração do resultado, reconhece também que essa estrutura não pode ser aplicada mecanicamente às instituições financeiras. A IFRS 18 concentra a definição de medidas de desempenho definidas pela administração em subtotais de receitas e despesas utilizados em comunicações públicas. Resultado recorrente, lucro ajustado e resultado gerencial podem enquadrar-se nessa definição, conforme a forma como são calculados e divulgados. O retorno sobre o patrimônio, o índice de eficiência e o custo do risco são razões ou indicadores; os subtotais utilizados em seus cálculos podem ser alcançados pelos requisitos da norma. As divulgações exigidas pela IFRS 18 aproximam essas medidas dos números contábeis por meio de explicações, métodos de cálculo e reconciliações.
Ao estabelecer uma estrutura comum para a demonstração do resultado, a IFRS 18 adapta a classificação às características das instituições financeiras. Para um banco, conceder financiamento, investir em determinados ativos financeiros e captar recursos de clientes constituem elementos centrais do modelo de negócios. A avaliação das atividades de negócio principais especificadas orienta a classificação das respectivas receitas e despesas na categoria operacional. A principal contribuição da norma estará na forma como essa operação é estruturada, desagregada e comunicada aos usuários.
No caso do Barings, as operações não autorizadas realizadas em Singapura, a ausência de segregação de funções e a ocultação deliberada das perdas pertencem ao campo dos controles, da governança e do reconhecimento contábil mostram a importância de o número de lucro ser apenas o início da análise, preservando uma relevância maior à realidade econômica e a apresentação geral dos resultados.
Para as instituições financeiras, a contribuição da IFRS 18 reside em oferecer uma linguagem mais estruturada para decompor, compreender e questionar o lucro. O julgamento do usuário, a análise de risco, os controles internos e a supervisão prudencial completam essa leitura. O Barings atravessou 233 anos de história e sucumbiu diante da distância entre os números apresentados e a realidade econômica do banco. A IFRS 18 busca tornar mais legível a realidade econômica efetivamente refletida nas demonstrações contábeis.
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