O caso das Americanas vai trazendo não apenas lições, mas também mais impactos para o mercado, e queria abordar um deles para os bancos, que neste momento, assim como aconteceu com as empresas de rating, devem estar reavaliando o rating interno para a empresa e suas operações, assim como também fazendo um provisionamento para devedores duvidosos em seus balanços, conforme manda a norma da Resolução 4966.
Certamente a dúvida, até porque a norma deixa margem de interpretação e liberdade para cada banco determinar de forma independente de acordo com suas políticas e metodologias internas, qual o rating que acha mais adequado neste momento, seja para a empresa e seja para as operações, até porque entre outras coisas é preciso levar em consideração as garantias que tem, assim como sua expectativa de recuperação, mesmo que parcial deste crédito. Tudo com alguma lógica e racional por detrás da decisão.
Acho que ninguém tem dúvidas que todos farão o rebaixamento do rating das Americanas ainda este mês de janeiro, a dúvida maior é para quanto?
Não acho que haverá ainda um consenso de um rating comum, ou com que velocidade vão fazer isto, até para conseguir suavizar o impacto no balanço em mais de uma vez, até porque certeza que a maioria deveria ter ela antes do problema como rating "A", e de uma hora para outra, provavelmente todos vão para no mínimo "C", e mais provavelmente para "D", e algumas mais conservadoras quem sabe em até um "E".
Mas qual a letra mais adequada?
Pela antiga Resolução 2682, que determinava de forma mais direta uma tabela de provisionamento de acordo com o rating, pela recuperação judicial, deveria ser no mínimo E, que implicaria em um Rating de no mínimo 30%. Quem sabe de que deva ser o patamar mínimo a ser adotado?
Provavelmente o Bacen vai ficar de olho e perguntar a respeito para todos os bancos, em especial para os que têm uma posição mais relevante, querendo entender os critérios que usou para chegar ao novo rating e consequentemente provisionamento. Por isto a dica é que façam suas análises criteriosas e com cuidado, seguindo à risca o que diz suas metodologias, por mais dura que seja o resultado, pois isto pode evitar outros problemas depois de questionamento do regulador do seu processo, o que não é nada bom. Não pode perder sua credibilidade. Políticas e procedimentos serão colocados em teste neste momento.
Minha dica é que também documentem bem tudo isto, com uma boa ata detalhada deste comitê de risco de crédito, aonde isto deve ser decidido e aprovado formalmente.
Complemento com a dica para que levem para informação do seu Comitê Independente de Riscos (Coris) e depois para o Conselho de Administração, dando ciência a todos do tema. Deixando todos confortáveis de que a coisa certa está sendo feita e providências tomadas.
Como referência a Fitch anunciou o corte dos ratings da Americanas de "C" para "D", e Moody’s de "Caa3" para "Ca"; e finalmente a S&P já havia rebaixado para "D" durante a semana.
Sabemos quão difícil será esta tarefa, até pela subjetividade, diante da falta de informação e de balanços auditáveis confiáveis e corretos. Enquanto as Americanas não divulgarem o novo balanço corrigido, tudo será baseado em informações e boatos, mas o que tem de concreto, que por si só até pela norma, já exigiria a reclassificação e um maior provisionamento, é o pedido (aceito) de recuperação judicial desta semana.
Alguns defendem por exemplo usar como referência o deságio dos títulos de renda fixa (debêntures) das Americanas no mercado, que estão "marcados a mercado" na faixa de 20 a 30%, o que indicaria um provisionamento de 70 a 80%, o que talvez para crédito seja um pouco forte demais, neste momento que ainda não temos o balanço corrigido. Talvez possa sim chegar a isto quando tivermos os números, mas pessoalmente acho ainda muito prematuro ser tão conservador e provisionar tanto assim.
Por fim tudo isto vai trazer impacto negativo no balanço da maioria dos bancos, alguns mais de acordo com sua exposição proporcional, outros menos. O que me leva a lembrar a importância da diversificação do crédito de atacado, sem a concentração que pode nestes casos ser bem perigosa. Não por menos existe na regra os limites de exposição individuais regulatórios. Sem falar nos gerenciais por segmento, que também podem ajudar bastante neste momento, em que o varejo como um todo está sendo colocado em questionamento, diante do nervosismo (que a falta de informação traz). Neste sentido acho que por maior que seja o rombo, isto não coloca o sistema como um todo em risco, diante do tamanho do colchão de liquidez e capital que o mercado tem atualmente, e capaz de absorver este caso.
Mas ficam as lições com os erros dos outros, para que não cometamos os mesmos erros no futuro.
Consulta realizada em okai.com.br.