Artigo
21/07/2026

A nova estratégia da SWIFT para os pagamentos internacionais

A SWIFT lança uma infraestrutura baseada em blockchain para integrar depósitos tokenizados e modernizar pagamentos internacionais com interoperabilidade e segurança.

Resumo

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A infraestrutura global de pagamentos está entrando em uma nova fase. À medida que depósitos tokenizados, stablecoins, moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) e outros ativos digitais passam a coexistir, o desafio deixa de ser apenas digitalizar ativos e passa a ser conectá-los de forma segura, interoperável e compatível com o sistema financeiro tradicional.

Esse movimento acompanha uma agenda internacional liderada por organismos como o G20, o Financial Stability Board (FSB), o Banco de Compensações Internacionais (BIS) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), que há alguns anos defendem a modernização dos pagamentos transfronteiriços para torná-los mais rápidos, eficientes, transparentes e disponíveis de forma contínua.

É nesse contexto que se insere a mais recente iniciativa da SWIFT.

Ao anunciar uma infraestrutura baseada em um blockchain-based shared ledger, a organização amplia sua atuação tradicional como rede de mensageria financeira e passa a construir uma camada de interoperabilidade entre depósitos tokenizados e outros ativos digitais emitidos por instituições financeiras reguladas.

O que foi anunciado

A iniciativa da SWIFT tem como objetivo viabilizar pagamentos internacionais utilizando depósitos tokenizados, preservando a integração com os sistemas financeiros existentes.

O projeto inicia sua fase operacional com 17 instituições financeiras, entre elas o Itaú Unibanco, único representante brasileiro na primeira etapa.

A proposta não consiste em substituir a infraestrutura atual de pagamentos. O novo ledger atuará como uma camada complementar para coordenar operações realizadas com dinheiro tokenizado, combinando duas características fundamentais:

  • A confiança, a governança e a conformidade do sistema financeiro tradicional;
  • A programabilidade e a interoperabilidade proporcionadas pelas tecnologias de registros distribuídos.

Nesta fase inicial, a disponibilidade contínua refere-se principalmente ao processamento e à coordenação das operações. A liquidação definitiva permanece integrada às infraestruturas financeiras atualmente utilizadas.

Interoperabilidade é a principal inovação

Embora o uso da blockchain tenha recebido maior atenção, o principal diferencial do projeto está na interoperabilidade.

O mercado financeiro caminha para um cenário em que depósitos tokenizados, stablecoins, CBDCs e outros ativos digitais coexistirão em diferentes plataformas. Sem mecanismos de conexão, cada instituição precisaria desenvolver integrações específicas com todas as demais, criando um ambiente complexo e de difícil escalabilidade.

A proposta da SWIFT é atuar como essa camada comum de interoperabilidade.

Imagine, por exemplo, três bancos que emitam depósitos tokenizados em plataformas distintas. Sem um padrão compartilhado, cada banco precisaria desenvolver integrações individuais com os outros dois. À medida que novos participantes ingressassem no sistema, esse número de conexões aumentaria rapidamente.

Ao oferecer uma infraestrutura comum, a SWIFT reduz essa fragmentação e amplia sua função histórica de conectar instituições financeiras em escala global.

Por que tokenizar depósitos bancários?

A tokenização não cria um novo tipo de dinheiro. Seu objetivo é permitir que o dinheiro bancário existente funcione de maneira compatível com ambientes digitais, incorporando funcionalidades como:

  • Programabilidade;
  • Automação de processos;
  • Interoperabilidade entre plataformas;
  • Integração com ativos digitais;
  • Execução de regras por meio de smart contracts.

Nesse contexto, é importante distinguir depósitos tokenizados das stablecoins.

Os depósitos tokenizados representam recursos mantidos em instituições financeiras reguladas e permanecem sujeitos ao regime bancário tradicional. As stablecoins, por sua vez, normalmente são emitidas por entidades privadas, submetidas a modelos próprios de governança e supervisão.

Impactos para bancos e empresas

A nova infraestrutura poderá trazer ganhos relevantes para pagamentos internacionais. Entre os principais benefícios esperados destacam-se:

  • Maior disponibilidade para processamento das operações;
  • Redução de processos manuais de reconciliação;
  • Maior previsibilidade das operações internacionais;
  • Integração entre diferentes infraestruturas de ativos digitais;
  • Melhor gestão da liquidez;
  • Utilização de pagamentos programáveis.

Imagine uma empresa brasileira realizando um pagamento a um fornecedor na Ásia durante a madrugada no Brasil. Hoje, embora a instrução possa ser enviada imediatamente, a movimentação e a liquidação dos recursos ainda dependem, em muitos casos, dos horários de funcionamento das infraestruturas envolvidas.

Com depósitos tokenizados coordenados por uma infraestrutura compartilhada, parte dessas limitações tende a ser reduzida, favorecendo maior continuidade operacional e melhor gestão de caixa.

Programabilidade amplia as possibilidades

A arquitetura anunciada foi concebida para suportar pagamentos programáveis, permitindo que determinadas operações sejam executadas automaticamente quando condições previamente definidas forem atendidas.

Entre os casos de uso já discutidos internacionalmente destacam-se:

  • Liberação automática de recursos após confirmação da entrega de mercadorias;
  • Pagamentos condicionados ao recebimento de documentos de comércio exterior;
  • Execução automática de garantias em operações financeiras;
  • Liquidação coordenada entre diferentes participantes.

Esses mecanismos tendem a reduzir processos operacionais, aumentar a previsibilidade e diminuir riscos decorrentes de atividades executadas manualmente.

O Brasil acompanha essa evolução

A participação do Itaú Unibanco demonstra que o sistema financeiro brasileiro integra essa nova etapa da infraestrutura global de pagamentos.

Esse movimento soma-se a iniciativas como o Pix, o Open Finance e o Drex, que colocam o Brasil entre os países mais ativos na transformação digital do sistema financeiro. Embora possuam objetivos distintos, essas iniciativas compartilham uma mesma direção: ampliar interoperabilidade, eficiência e inovação por meio de infraestruturas digitais.

Os desafios permanecem

O projeto representa um avanço importante, mas sua consolidação dependerá de fatores que vão além da tecnologia. Entre os principais desafios destacam-se:

  • Reconhecimento jurídico dos depósitos tokenizados em diferentes jurisdições;
  • Interoperabilidade entre legislações nacionais;
  • Definição do momento da liquidação definitiva;
  • Governança da infraestrutura compartilhada;
  • Gestão de riscos operacionais e cibernéticos;
  • Integração com futuras moedas digitais emitidas por bancos centrais.

O maior desafio, entretanto, será alcançar escala global por meio da coordenação entre instituições financeiras, reguladores e diferentes jurisdições.

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Atualizado

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Autor

TS

Thiago do Amaral Santos

Sócio BTLaw | Professor FGV e Insper | Fintech, Meios de Pagamento, Bancos Digitais