Outro dia abri uma apresentação que eu tinha montado no começo de 2024 sobre o que as empresas precisariam fazer em ESG nos anos seguintes e fiquei um tempo olhando para os temas. Estava tudo lá (e bem organizado): o reporte obrigatório da CVM chegando, a Europa ampliando as exigências de cadeia e o Brasil caminhando para um mercado regulado de carbono. Dois anos depois, quase nada daquele slide aconteceu do jeito que estava desenhado e o curioso é que as recomendações que eu fazia naquela apresentação continuam fazendo sentido, só que por motivos bem diferentes dos que eu tinha escrito.
Esse ano de 2026 deixou isso muito claro e haja resiliência para quem trabalha com ESG (Coloca casaco, tira casaco... aprova CVM, tira obrigatoriedade). Os Estados Unidos concluíram a saída do Acordo de Paris e a EPA revogou o endangerment finding, que era a base de praticamente toda a regulação federal de emissões por lá, a Europa passou meses revisando e reduzindo o alcance das próprias regras de reporte através do pacote Omnibus e por aqui, a CVM com a Resolução 244, tirou a obrigatoriedade do reporte nos padrões ISSB e adotou o "pratique ou explique", depois de o Brasil ter sido um dos primeiros países a assumir esse compromisso (e inclusive ter recebido prêmio).
Quem olha só para esse recorte pode concluir que o ESG acabou, mas a minha análise é bem diferente, porque entendo que acabou o hype e isso é bem diferente.
O hype era aquele momento em que todo mundo precisava ter uma meta, um relatório e um selo, muitas vezes sem saber muito bem por quê. Era uma agenda puxada de fora para dentro, pela pressão do mercado, pela expectativa de regulação e por uma certa vontade de estar do lado certo da conversa, mas claro que, quando essa pressão diminui, o que sobra é só aquilo que tinha raiz no negócio e para muita empresa isso vai ser um choque, porque vai mostrar o quanto da agenda era fachada.
No Brasil essa situação tem um agravante que eu não vejo em muitos outros lugares, que é a insegurança jurídica acontecendo em duas camadas ao mesmo tempo. Na camada de fora, o exportador brasileiro está no meio de um desalinhamento em que um grande mercado desmonta sua regulação climática enquanto outro continua exigindo rastreabilidade e dados de emissão de quem vende para ele (inclusive sob acusação de usar medidas ambientais para mascarar protecionismo econômico) e na camada de dentro, temos uma Lei Geral do Licenciamento que foi sancionada com 63 vetos (onde 56 deles foram derrubados pelo Congresso), entrou em vigor e segue com a constitucionalidade em discussão no STF, sem data para julgamento, enquanto estados já aplicam as novas regras e milhares de processos continuam andando. E pra deixar um pouco mais divertido, soma-se a isso um mercado regulado de carbono que ainda está com setores e prazos sendo definidos, mostrando porque é difícil pedir para uma empresa planejar dez anos à frente quando ela não sabe se a licença emitida hoje vai continuar válida daqui a dois.
Tenho pensado muito nisso como a diferença entre o mapa e a bússola. A regulação é o mapa, e o mapa está mudando o tempo todo, às vezes de um mês para o outro e às vezes na direção contrária da que estava sendo desenhada e quem montou a agenda ESG seguindo só o mapa está perdido agora, porque cada mudança de regra obriga a refazer o caminho inteiro.
A bússola é outra coisa, porque ela aponta para aquilo que continua acontecendo mesmo quando a regra muda, como o risco físico sobre a operação, a dependência de água e energia, a exposição da cadeia de fornecimento, a exigência do cliente que compra e a condição do banco que financia e nada disso foi revogado junto com uma resolução.
Por isso acredito que o ESG depois do hype vai ser menor em volume e maior em consequência, porque teremos bem menos iniciativas espalhadas e mais decisões ligadas ao que é realmente material para cada operação. Menos relatório pensado para agradar e mais informação pensada para quem decide, somado a menos dependência de um padrão único imposto por uma norma e mais capacidade de responder a públicos diferentes, porque o comprador europeu, o investidor brasileiro e o órgão licenciador estadual não vão pedir a mesma coisa, e a empresa vai precisar ter seus dados organizados o suficiente para atender a todos sem recomeçar do zero a cada nova exigência.
O "pratique ou explique" da CVM, inclusive, me parece um bom teste para esse momento, ele parece um alívio, mas na prática obriga a empresa a dizer publicamente qual é a sua posição e uma explicação mal construída para não reportar pode dizer muito mais ao mercado do que um relatório mediano diria (pois se formos francos, a maioria colocaria qualquer coisa no documento apenas para atender a CVM).
Olhando de novo para aquela apresentação de 2024, percebo claramente que o erro não estava nas recomendações que estavam sendo feitas, mas na justificativa que ganhava força com a normativa prestes a entrar em vigor. Eu dizia para as empresas se prepararem porque a regra ia exigir e hoje eu diria para se prepararem porque a regra vai continuar mudando, e quem tem clareza sobre o que precisa proteger, passa por essas mudanças ajustando o ritmo, sem precisar trocar de direção a cada nova decisão em Brasília, Washington ou Bruxelas.
Essa talvez seja nossa grande oportunidade de desvincular o ESG de uma regra, uma norma ou uma lei e assim, conseguir mostrá-lo com seu real objetivo, uma ferramenta que protege reputação e resultado financeiro, independentemente de quem está no poder ou de que legislação seguir.
Fico curioso para saber como isso está chegando aí. Na sua empresa, 2026 foi o ano de cortar a agenda ou de descobrir qual parte dela realmente vale a pena seguir?
Consulta disponibilizada pela Okai.