Artigo
24/11/2023
Atualizado em 17/04/2026

PLD: Desafio de Cortar o Financiamento a Terroristas mas Sem Prejudicar os Civis

O combate ao financiamento do terrorismo em organizações civis deve concentrar controles nas exposições reais, preservando entidades legítimas e o acesso das populações aos recursos essenciais.

Resumo

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Com a guerra de Israel contra os terroristas do Hamas, o tema do financiamento ao terrorismo veio novamente à tona, mostrando a importância que a área de PLD tem neste processo de evitar outros crimes piores que apenas lavagem. Assim como a prisão de alguns supostos terroristas brasileiros, mostra que o tema não está tão distante assim do nosso país e realidade, e cabe a nós fazermos nossa parte e ajudarmos de alguma forma, através de processos de PLD robustos que olhem também este aspecto.

Pois o tema que queria abordar hoje é o financiamento ao terrorismo através de organizações sem fins lucrativos ("ONGs" da vida), que é um problema global preocupante. Por isto a necessidade de prevenir esse financiamento ilícito, mas ao mesmo tempo evitando outros danos colaterais às organizações legítimas e às pessoas que elas servem, tornou-se um desafio relevante no atual contexto das tensões geopolíticas atuais. Por isto queria falar mais abaixo sobre os riscos, as normas vigentes e as consequências não intencionais das medidas adotadas.

Existem evidências de que ONGs estão sendo utilizadas para ocultar transferências de dinheiro para terroristas. Isso reforça a necessidade de governos e instituições financeiras avaliarem e mitigarem os riscos de mau uso dessas entidades.

A proteção do setor sem fins lucrativos contra o abuso para financiamento ao terrorismo é parte fundamental das normas do GAFILAT (Grupo de Ação Financeira Internacional). Após os ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos, o GAFI intensificou o foco neste setor, estabelecendo a Recomendação 8, que exige maior transparência e responsabilização das ONGs, e a Recomendação 10, que avalia a eficácia das medidas para prevenir o financiamento ao terrorismo. Mas infelizmente o foco e preocupação global nestes pontos ainda é baixa, em especial no Brasil, onde muitos ainda acham que não temos este problema.

A implementação da Recomendação do GAFI tem levantado preocupações sobre as chamadas consequências indiretas (não intencionais), como:

  • Desbancarização (de-risking): com a terminação de relações com clientes pelas instituições financeiras, em vez de gerenciá-los com base em risco.
  • Exclusão financeira: com a dificuldade de acesso a serviços financeiros por serem percebidos como alto risco.
  • Foco excessivo em ONGs: com a limitação indevida dos direitos humanos, com foco em direitos processuais e procedimentais.

Por isto que é fundamental que os países e suas IFs adotem métodos de avaliação de risco mais sofisticados, com medidas direcionadas e proporcionais ao risco identificado, evitando danos aos tais colaterais.

A análise dos dados do GAFI usados no Índice de Lavagem pelo BIS, mostra que o desempenho global em atender às normas sobre ONGs é problemático. Segundo estudos a "conformidade técnica média" com a Recomendação 8 é de apenas 41%, e a eficácia média para a 10 é ainda mais baixa de apenas 25%.

Mas como então melhorar a eficiência e resiliência em relação ao setor sem fins lucrativos?

Para isto é essencial o envolvimento de todas as partes interessadas: autoridades públicas, instituições financeiras e as próprias ONGs em uma discussão mais ampla e aberta. A cooperação entre iniciativas multissetoriais pode conectar pontos cruciais, onde cada um pode ter um papel e tarefas específicas, conforme detalhado a seguir:

Autoridades Públicas:

Um passo fundamental é a realização de uma avaliação nacional de risco que analise adequadamente as vulnerabilidades do país e do setor ao LD/FT, incluindo riscos relacionados a ONGs. O que já fazemos no Brasil. Conforme as diretrizes do GAFI, a avaliação deve identificar:

  • Quais organizações se enquadram na definição de ONGs do GAFI.
  • A natureza das ameaças terroristas às ONGs em risco.
  • Como os atores terroristas abusam dessas organizações.

Essa compreensão deve formar a base de um sistema coordenado e baseado em risco para monitorar e supervisionar regularmente o setor sem fins lucrativos, focando recursos e atenção nos maiores riscos para evitar sobrecarregar supervisores e entidades.

Instituições Financeiras:

As instituições financeiras têm um papel na realização de diligências com clientes e no reporte de transações suspeitas. As instituições financeiras devem:

  • Obter um bom entendimento sobre a governança, financiamento, atividades, operações e beneficiários de uma ONGs ao avaliar seu perfil de risco.
  • Considerar a governança, reputação, métodos de financiamento e operações em jurisdições de alto risco ao desenvolver ou revisar uma abordagem baseada em risco para ONGs.
  • Reportar prontamente transações suspeitas relacionadas ao abuso de financiamento ao terrorismo à unidade de inteligência financeira do país (COAF).
  • Organizações Sem Fins Lucrativos:

Elas mesmas podem contribuir proativamente para a conformidade com os padrões. Isso pode incluir:

  • Publicar transparentemente informações sobre a estrutura e operações da organização.
  • Manter as operações em conformidade com os quadros regulatórios e obrigações de reporte.
  • Garantir a segurança dos registros financeiros.
  • Realizar auditorias e revisões.
  • Conduzir treinamentos de pessoal.

Os maiores benefícios surgirão da união de esforços de todas as partes interessadas em fóruns de discussão e workshops coletivos. Cada um possui informações diferentes e provavelmente complementares que ajudarão a desenvolver tipologias e perfis de risco úteis para todos. Este esforço conjunto é crucial para fortalecer a resiliência do setor sem fins lucrativos contra abusos para financiamento ao terrorismo, garantindo ao mesmo tempo a continuidade de suas atividades legítimas.

Disponibilização digital: Okai.
As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.
Atualizado Verificado em 16/07/2026

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Perguntas e respostas

Qual é o risco de controles indiscriminados?
Bloquear atividades legítimas, reduzir ajuda a civis e excluir organizações sem considerar sua exposição concreta.
Por que organizações sem fins lucrativos podem ser exploradas?
Recursos, presença internacional e relações com áreas vulneráveis podem ser desviados ou usados para ocultar apoio ilícito.
Como equilibrar prevenção e ação humanitária?
Com diligência proporcional, orientação, transparência, cooperação e controles que preservem operações legítimas.
Como uma abordagem baseada em risco ajuda?
Concentra medidas nas organizações, ameaças e formas de abuso identificadas, evitando impor o mesmo tratamento a todo o setor.

Conteúdo gerado com apoio de IA. Não substitui análise profissional.

Autor

LL

Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante