Nós vamos falar um pouco sobre situações especiais que ocorrem com a contabilização de derivativos, quando a gente combina os derivativos com um item protegido. Pode ser um empréstimo, pode ser uma aplicação financeira, pode ser um estoque, pode ser um fluxo de caixa futuro.
Então, a primeira dessas situações que nós vamos comentar aqui, é quando nós temos um derivativo protegendo uma dívida. Por exemplo, uma dívida em dólar. O passivo financeiro, naturalmente, é mensurado por custo amortizado. Ou seja, você tem um passivo financeiro sendo mensurado por accrual.
E aí, você contratou um derivativo muito parecido com esse empréstimo, com essa dívida, porque esse derivativo é um derivativo de valor parecido ou igual a esse empréstimo, com vencimentos parecidos ou iguais ao do empréstimo. Ou seja, ele tem um fluxo de caixa bastante casado com essa dívida.
Problema: a dívida, por natureza, pela natureza da norma contábil, é mensurada por custo amortizado. E o derivativo, valor justo por meio do resultado. Então, nós temos aqui um descasamento contábil, certo? Um descasamento contábil entre o empréstimo e o derivativo que está cobrindo este ingresso.
Vamos falar mais uma situação? Mais uma situação especial para a gente pensar. Um contas a receber em moeda estrangeira. O contas receber, se ele é um contas a receber de longo prazo, é tratado da mesma forma que o empréstimo. Ou seja, ele vai estar a valor presente e vai ser mensurado por accrual. Isso, se esse contas a receber não for vendido, aí seria outra história.
Mas vamos pensar em contas a receber normal. Contas a receber aqui, a empresa vendeu mercadorias, produtos, serviços e ela espera o cliente pagar em determinado prazo. Esse contas a receber é mensurado a valor presente. Ele é ajustado a valor presente e vai sendo atualizado à medida que o tempo passa, se a gente tiver um contas a receber de prazo mais longo.
Se for um contas a receber de curto prazo, ele pode até ser mensurado pelo valor final, pelo valor de face desse recebível. Porque esse prazo da data de mensuração até a data de recebimento não é muito relevante. Ele não impacta muito. O valor do dinheiro no tempo não vai mudar muito a nossa decisão. Então, um contas a receber, ou está com o valor lá paradinho, ou ele está mensurado a valor presente.
E o derivativo que protege esse contas a receber, esse não. Esse derivativo está marcado a mercado, ele está mensurado a valor justo. E está lá incomodando no resultado, jogando volatilidade, jogando variação no resultado. Mais um problema que nós temos de descasamento contábil. Vamos comentar sobre mais um?
Derivativos protegendo receitas futuras em dólares. Imagina uma empresa brasileira, uma empresa que atua aqui no Brasil, que tem custos, ou a maior parte deles, em reais. Tem salários que ela paga em reais, impostos que ela paga em reais. Quase tudo em reais. Mas uma parte das vendas dessas empresas são vendas para exportação. Ou seja, uma parte dessas receitas, provavelmente, estão atreladas à variação do dólar.
Você vende para fora, você não vai vender em reais. Normalmente, você vende no padrão dólar. Então, você pode fazer uma hedge dessas receitas futuras, contratar um derivativo. Mas, de novo, a norma contábil vai criar um probleminha para a gente. Por quê? Porque os derivativos são mensurados a valor justo. E essas receitas futuras ainda não estão no balanço.
Ou seja, a marcação a mercado do derivativo, as flutuações dele, vão incomodar o resultado. Vão jogar volatilidade no resultado. Sendo que, no futuro, essas variações do derivativo devem ser compensadas por variações opostas no item protegido. Então, este é mais um descasamento contábil que está entre as situações especiais que nós estamos ilustrando.
A quarta e última situação é: temos um estoque de commodities e esse estoque é protegido por um derivativo. Derivativo, naturalmente, é mesurado a valor justo. Ele é marcado a mercado. O estoque de commodities, depende. Se a gente estiver falando do estoque de uma trading, o estoque de uma trading é marcado a mercado também. Então, não teríamos um problema tão grande.
Porém, o estoque de commodities de uma indústria, o estoque de commodities de uma empresa que transforma esse estoque, ele está mensurado a valor de custo. Ou seja, ele está paradinho no balanço, enquanto o derivativo está lá nervoso, jogando volatilidade no resultado.
Então, são alguns descasamentos contábeis que a gente ilustrou. Poderíamos ter vários outros exemplos. Mas acho que esses quatro são suficientes para a gente mostrar o seguinte: a norma contábil, os pronunciamentos, se a gente for seguir o padrão deles, a gente pode criar resultados, positivos ou negativos, que não vão se realizar.
Esses são os descasamentos contábeis. Então, uma pílula, um remédio para essas situações, vai ser, justamente, o hedge accounting.